terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Rei da Voz apresenta Aurora Miranda

Agradecendo aos elogios registrados por nossos visitantes, sigo a idéia de uma de minhas páginas favoritas no blog (Sr. Gastão Formenti e Miss Lucy Campos, que apresenta todos os duetos gravados por Gastão Formenti) e trago este post que é curtinho mas conta com importantes gravações: as duas faces do raro disco de estréia de Aurora Miranda.



Complementando o post, aqui também está seu terceiro disco, com uma interessantíssima parceria dos irmãos Helio e Noel Rosa. Três ótimas gravações em dueto com ninguém menos que Francisco Alves!



O primeiro disco de Aurora Miranda, Odeon 11018, contou com "Toque de amor" de Floriano Ribeiro de Pinho e "Cai, cai balão" de Assis Valente, marcha lançada naquele que foi o primeiro concurso de músicas juninas, organizado pelo jornal carioca A Noite como integrante dos festejos do "Mês da cidade".





A aceitação das músicas foi tamanha que logo a Odeon providenciaria mais uma gravação em dupla, surgindo daí o disco 11043 com o espirituoso fox "Você só...mente". Por ser cantado somente por Francisco Alves, o outro lado do disco ficará para uma próxima oportunidade: o sucesso "Dona da minha vontade", de Francisco Alves e Orestes Barbosa.






CAE, CAE BALÃO!
marcha
(Assis Valente)
Aurora Miranda e Francisco Alves
com Orchestra ODEON
sob a direcção de Simon Bountman
Odeon 78 rpm 11018-a
matriz 4674
gravação: 22.05.1933
lançamento: junho de 1933

TOQUE DE AMÔR
samba
(Floriano Ribeiro de Pinho)
Aurora Miranda e Francisco Alves
com Orchestra ODEON
sob a direcção de Simon Bountman
Odeon 78 rpm 11018-b
matriz 4675
gravação: 22.05.1933
lançamento: junho de 1933

VOCÊ SÓ...MENTE
foxtrot
(Noël Rosa - Helio Rosa)
Aurora Miranda e Francisco Alves
com Orchestra ODEON
sob a direcção de Simon Bountman
Odeon 78 rpm 11043-a
matriz 4691
gravação: 05.07.1933
lançamento: agosto de 1933


Acervo e digitalização pelo autor.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Passarinho do má (Francisco Alves, 1927)

Será este um reinício para o Chiadofone? Mesmo que não seja, o raríssimo disco Odeon 10001 é um marco na fonografia brasileira (primeiro disco lançado com gravações elétricas nacionais) que vale a pena ser ouvido em 78 rotações - sem filtragens.

Segundo Edigar de Alencar (O Carnaval Carioca Através da Música, 4ª Edição. Livraria Francisco Alves, 1977), em capítulo dedicado ao carnaval de 1927:

"(...) Houve ainda uma toada sertaneja muito cantada pelos foliões. Era um 'samba sertanejo' apresentado pela Companhia Brandão-Palmeirim, então ocupando o Teatro Trianon, na revista carnavalesca Vaes Então Luiz, de Duque e Oscar Lopes. O título era mais um trocadilho dos sugeridos pelo nome do Presidente da República [Washington Luiz]. Número de sucesso todas as noites era o samba de Duque (Antônio Amorim Diniz) sob motivos folclóricos PASSARINHO DO MÁ, cantado por João Lino e Brandão Sobrinho (...)"



Dica de leitura (contexto histórico):



PASSARINHO DO MÁ
samba
(Duque)
Cant. por Francisco Alves
Orchestra Pan American do Casino Copacabana
Odeon 78 rpm 10001-b
matriz: E1163.
lançamento: julho de 1927
verso do disco: Albertina

Acervo e digitalização pelo autor.

domingo, 25 de julho de 2010

Carnavais brasileiros - ano de 1951



Finalmente o Chiadofone apresenta-lhes uma novidade, depois de algumas semanas de descanso. Hoje, continuamos nossa série de posts sobre os últimos (bons) carnavais brasileiros, dessa vez recolhendo os sucessos de 1951.



Edigar de Alencar noticia a grande quantidade de lançamentos nesse ano, frente à pobreza das letras e ao desaparecimento dos grandes compositores. Ele ressalta ainda o surgimento de gravadoras e de cantores apenas para essa festa, sem qualquer atividade no período posterior à folia.



No entanto, como para nossa geração o tempo depurou o repertório, a produção desse ano nos parece muito boa. Por isso, destacamos neste post alguns dos tantos lançamentos e relembramos alguns dos maiores sucessos carnavalescos de 1951.



Entre eles, estão o "Retrato do Velho", alusão à re-eleição constitucional de Getúlio Vargas, que tomou posse na presidência da república em 29 de janeiro de 1951. Consta que, em 1945, após a deposição, os retratos de Vargas distribuídos pelo DIP haviam sido retirados de todas as repartições públicas e, por isso, o ato de recolocá-los simboliza a vontade do povo brasileiro em ter de volta o ex-ditador "pai dos pobres".



Além desse grande sucesso, trazemos duas gravações da célebre marcha "Tomara que chova" (com Emilinha Borba e com os Vocalistas tropicais) e a gravação da "Marcha do caracol" (Vocalistas tropicais). Zé e Zilda comparecem com a batucada "Facão bateu embaixo" e Dalva de Oliveira comparece com "Zum zum", em que lembra com saudade de Carlos Eduardo de Oliveira, comandante da Panair, membro do famoso Clube dos cafajestes e fiel amigo dos compositores da marcha (Paulo Soledade e Fernando Lobo), falecido a 28 de julho de 1950.



Apesar da ausência de sucessos como "Sereia de copacabana" (de Nássara e Wilson Batista, gravada originalmente em 1948 por Ciro Monteiro e re-gravada para o carnaval de 1951 por Jorge Goulart) e "Sapato de pobre" (gravada por Marlene), o Chiadofone põe à disposição a maioria dos sucessos desse carnaval em que mesmo a carestia, a pobreza, a política e a morte puderam ser transpostas em ritmo de samba, marcha ou batucada.




01 - Francisco Alves com Oswaldo Borba e seu ritmo - Deus lhe pague (samba de Polera - Penaze - David Nasser) Odeon 13055-A
02 - Francisco Alves com Oswaldo Borba e seu ritmo - Lili (samba de Haroldo Lobo - David Nasser) Odeon 13055-B
03 - Francisco Alves e Dalva de Oliveira - Holandêsa (marcha de David Nasser - Haroldo Lobo) Odeon 13064-A
04 - Francisco Alves - Se o divórcio vier (samba de David Nasser - Haroldo Lobo) Odeon 13064-B
05 - Vocalistas Tropicais - Tomara que chova (marcha de Paquito - Romeu Gentil) Odeon 13066-A
06 - Vocalistas Tropicais - Já é noite (samba de Fernando Lobo - Nestor de Hollanda) Odeon 13066-B
07 - Ary Barroso e sua Escola de Samba - Na beira do cais (samba de Ary Barroso) Odeon 13067-B
08 - Safira - Já te esqueci (samba de Luiz Soberano - Abelardo Barbosa [Chacrinha]) Odeon 13070-B
09 - Titulares do Ritmo com Oswaldo Borba e sua Orquestra - Não põe a mão (samba de Mutt - Arnô - Bucy Moreira) Odeon 13072-B
10 - Francisco Alves - Retrato do velho (marcha de Haroldo Lobo - Marino Pinto)  Odeon 13078-A
11 - Francisco Alves - Largo do Estácio (samba de David Nasser - Haroldo Lobo - P. Fonseca Almeida) Odeon 13078-B
12 - Dalva de Oliveira com Oswaldo Borba e sua Orquestra - Zum-zum (marcha de Fernando Lobo - Paulo Soledade) Odeon 13079-A
13 - Dalva de Oliveira com Oswaldo Borba e sua Orquestra - Consolação (samba de Vicente Paiva - S. Gomes - Tito Mendes) Odeon 13079-B
14 - Roberto Amaral acompanhado por Elcio e sua Orchestra - Amei como um louco (samba de O. França - V. Simon) Elite Special N-1025-B
15 - Oscarito - Toureiro de Cascadura (Armando Cavalcanti - David Nasser) Marcha do film da Atlantida "Aviso aos Navegantes" (Capitol-Sinter 00-00.018-A)
16 - Carmélia Alves Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - Maria pouca roupa (batucada de Luiz Antonio - Salvador Micelli) Continental 16326-B
17 - Carmélia Alves Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - Se você não me levar (samba de Roberto Martins - Mario Moraes) Continental 16327-A
18 - Ruy Rey e sua orquestra - Cubana - (marcha de Ruy Rey - Rutinaldo) Continental 16329-A
19 - Marlene Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - Peço licença (samba de Lourival Faissal - Guaraná - Manoel Santana) Continental 16331-B
20 - Emilinha Borba Com Guio De Moraes E Seus Parentes - Tomara que chôva (marcha de Paquito - Romeu Gentil) Continental 16339-B
21 - Lúcio Alves - Toureiro sou eu (marcha de Paulo Soledade - Fernando Lobo) Continental 16346-B
22 - Carlos Galhardo - Meu primeiro amor (samba de Dunga - Nássara) RCA Victor 80-0715-A
23 - Carlos Galhardo - Sambou de pé no chão (batucada de Ataulpho Alves - Augusto Garcez) RCA Victor 80-0715-B
24 - 4 Ases e 1 Coringa - Marcha do caracol (de Peterpan - Affonso Teixeira) RCA Victor 80-0728-A
25 - 4 Ases e 1 Coringa - O ferreiro fez (samba de Haroldo Lobo - Milton de Oliveira) RCA Victor 80-0728-B
26 - Gilberto Milfont - Pra seu governo (samba de Haroldo Lobo - Milton de Oliveira) RCA Victor 80-0729-A
27 - Isaura Garcia - Aladim (marcha de Herivelto Martins - Raul Sampaio) RCA Victor 80-0738-A
28 - Isaura Garcia - Prometeu me ajudar (samba de Herivelto Martins - Benedicto Lacerda) RCA Victor 80-0738-B
29 - Orlando Silva com Guio de Morais e seus "Parentes" - Senhor, me ajude (samba de Luis Soberano - W. Silva) Carnaval 001-A
30 - Orlando Silva com Guio de Morais e seus "Parentes" - Não me importa que a táboa rache (marcha de Liz Monteiro - J. Piedade) Carnaval 001-B
31 - Valdemar Reis com Geraldo Medeiros e seu Conjunto - A filha do mandarim (marcha de O. França - O. Monelo - Avaré) Carnaval 028-A
32 - Zé e Zilda com Geraldo Medeiros e seu Conjunto - O facão bateu em baixo (batucada de José Gonçalves - O. Silva) Carnaval 039-A
33 - Orlando Silva com Guio de Morais e seus "Parentes" - Que culpa tenho eu? (samba de Klecius - A. Cavalcanti) Carnaval 045-A
13a - Hebe Camargo com Oswaldo Borba e sua Orquestra - Sem tambor e sem corneta (marcha de Denis Brean - O. Guilherme) Odeon 13091-A


Idealização e Texto: Charles Bonares
Acervo e Digitalização: Djalma

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ê, São Paulo!

Peço liçença aos amigos Djalma, Charles e Milton para fazer aqui um momento "Meu Querido Diário", tudo bem? =D


Este sábado, voltando pra casa depois de mais um dia de pesquisa na Biblioteca Nacional, vim pensando comigo que, afogado há tempos no universo musical carioca, revirando seus jornais e seus artistas, há tempos não encontro nomes dos grandes e tradicionais artistas do cenário paulistano dos anos 50. Personagens destacados diariamente, quase nunca aparecem nas folhas do Rio de Janeiro, como das cantoras Elza Laranjeira, Isaura Garcia, Esterzinha de Souza, Triana Romero, Bianca Bellini, Neyde Fraga, Dircinha Costa, Elza Aguiar, Cinderela, Luely Figueiró, Inezita Barroso, Cizinha Moura; dos cantores Wilson Miranda, Mauricy Moura, Roberto Amaral, Solon Sales, Oscar Ferreira, Francisco Egydio, Oswaldo Rodrigues, Carlos Galindo; dos trios Marayá, Itapoã, Montanhês, Iemanjá; dos apresentadores Blota Jr., Sandra Amaral, Randal Juliano, Júlio Rosemberg, Aurélio Campos; dos atores Eugênio Kusnet, Francisco Negrão, Gianfrancesco Guarnieri, Maria Vidal, Pagano Sobrinho, Dorinha Duval; dos maestros Simonetti, Zico Mazagão, grande Cyro Pereira, Spártaco Rossi, Ruben Perez (Pocho), Hector Lagna Fietta, Osmar Milani...



Puxa, que saudade bateu da minha terra, que não piso há exatos 8 meses... E é claro que essa saudade iria somatizar em forma de música! E fiquei lá, eu sozinho em casa, bebendo doses cavalares da grande música paulista. São Paulo não é, necessariamente, uma cidade de beleza bestificante como a do Rio de Janeiro, mas ela tem um encanto diferente. O Rio deslumbra os olhos, enquanto que São Paulo, um pouco mais indefesa nesse ponto (mas nem tanto), interage com o espírito, deslumbra outros sentidos.



E nesse post feito sem muito ensaio, gostaria de dividir um pouco dessa saudade com vocês, trazendo aqui um repeteco das minhas preferidíssimas Elza Laranjeira e Neyde Fraga, Alda Perdigão e, estreando no Chiadofone, Wilma Bentivegna.

Alda reaparece nessa rara e bastante procurada gravação de 1963, sendo este seu único registro pela Philips. De um lado, está "Quando Chegares", que Carlos Lyra afirma ser sua primeira composição, feita no ano de 1954. Ótima gravação, vocalizada com muita suavidade pela cantora, embora a orquestração do Maestro Carlos piper não siga na mesma linha. Do outro lado, temos um clássico de Gilbert Becaud e da música grandiloquente feita no período, sobretudo, pela França e Itália. E dá-lhe metais em brasa, que seguem num crescendo até chegar ao final com ares de apoteose.


Para vocês, Neyde Fraga, a "voz-veludo de São Paulo", em dois momentos. O primeiro, em 1950, em seu segundo disco. Nele, há o belo samba-canção "Quando Alguém Vai Embora", que um ano depois seria gravado pela novata Ângela Maria em seu segundo disco, cuja gravação não faria lá muito sucesso, mas lhe renderia as primeiras impressões (brandas-diga-se de passagem) da crônica especializada. E em 1953, temos "Jambalaya", clássico da música country americana, que depois seria febre mundial com Brenda Lee. Foi o primeiro grande sucesso de Neyde. E como vendeu esse negócio! Se você encontrar uma pilha de 78's em algum sebo de São Paulo, pode apostar: lá terá pelo menos um "Jambalaya" e um "Baião Caçula" com Hebe Camargo. Não deixe também de ouvir o outro lado do disco, o baião "Banco de Jardim". Ambas as letras são do comediante Edair Badaró, do primeiro time de humoristas da Rádio e TV Record, falecido recentemente em Portugal.




Elza Laranjeira é conhecida como uma cantora extremamente refinada e de classe. Seus LP's pela RGE são pérolas, onde desfilam alguns boleros e, sobretudo, sambas-canção e sambas modernos em voga na época. Repertório excelente. Hoje, levamos até vocês, entretanto, a face menos conhecida e carnavalesca da cantora. Pela Colúmbia, gravou a marcha "Pé de Pobre", que foi um estrondo no carnaval paulista de 54, abiscoitando, inclusive, o 1º prêmio num concurso promovido pela prefeitura da cidade para eleição da marcha do ano. Na Odeon, onde gravou apenas dois discos, ficou registrado um grande sucesso da época, "Lavadeiras de Portugal", que numa versão de Joubert de Carvalho, tomou o Brasil em forma de baião.






E Wilma Bentivegna. Figura das mais famosas na cidade, era cantora, atriz, apresentadora e tudo o mais que necessitasse de talento e desenvoltura ante às câmeras. Em 1959, consagraria-se definitivamente com uma antológica versão do clássico "Hino ao Amor", que ganharia dezenas de gravações pelos anos afora. Mas, antes disso, em 1957, grava "Marcelino, Pão e Vinho", uma das melhores dentre as tantas feitas nesse ano e de boa vendagem. O filme homônimo foi um fenômeno no mundo inteiro, grande parte a interpretação emocionante do garoto Pablito Calvo. Ouvindo suas gravações, você pensará tratar-se de uma menina um pouco só mais velha que Maria Regina. Mas, não se iluda. No ano da gravação, ela já contava 28 anos.



Ah, os cariocas não precisam ficar enciumados! Aguardem novidades! ;)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sr. Gastão Formenti e Miss Lucy Campos

Quando se fala em música brasileira dos anos 1920 e 1930, indispensável se faz o nome de Gastão Formenti. Pintor de renome e filho do artista Cesare Alessandro Formenti, tendo ambos deixado o nome e talento da família gravado em mosaicos e vitrais Brasil afora, foi também um dos pioneiros (1927) do rádio e da gravação elétrica de discos no Brasil. Paulista de Guaratinguetá (tal como os ilustres instrumentistas Dilermando Reis e Bomfiglio de Oliveira, este último presente no post com duas interessantes composições), cresceu na cidade de São Paulo, mudando-se para o Rio de Janeiro na adolescência.





Iniciou sua carreira na Radio Sociedade do Rio de Janeiro, sendo logo aclamado como grande cantor. Deixaria sua voz registrada em "temporadas" junto a praticamente todas as grandes gravadoras de sua época: Odeon (1927-1930, 1937-1938, 1940-1941) e sua subsidiária Parlophon (1928-1930), Brunswick (1930-1931), Columbia (1931 e 1939) e Victor (1931-1937), além de discos esparsos nas já citadas Parlophon (1931), Victor (1939), Odeon (1947) e RCA Victor (1952) e, em alta-fidelidade, fonogramas pela Sinter (1956) e RCA Victor (1959).




Nesta oportunidade destacamos todos os duetos de Formenti, que datam do período 1928-1934 e foram retirados da coleção completa dos discos 78 rpm do artista, pertencente ao meu acervo. Cantam com ele: Francisco Alves, Lucy Campos, Sylvio Caldas e Almirante.






Aliás, quando "Francisco Alves" e "dueto" se encontram numa mesma frase, é inevitável que o assunto seja a série de duetos com Mario Reis e, invariavelmente, é mencionado um dentre os vários mitos acerca do Rei da Voz, o de que ele foi "obrigado" a reduzir o volume de sua voz quando começou a gravar com Mario, em setembro de 1930 (disco Odeon 10715, matrizes nº3969 e nº3976, com "Deixa essa mulher chorar" e "Quá-Quá-Quá").






Apresentamos agora uma série de duetos dele com Gastão Formenti, todos cronologicamente anteriores àqueles com Mario Reis. A surpresa que torna relativo tal mito surge logo no primeiro fonograma: "Toada sertaneja" (matriz nº 1489), gravado imediatamente antes do maxixe "Não posso comer sem molho" (matriz nº 1491) e do vibrante samba amaxixado "Foram-se os malandros" (matriz nº 1496), mas lançado apenas após o carnaval de 1928. Ressalte-se que Mario Reis sequer havia gravado seu primeiro disco, o que aconteceria meses depois com o disco Odeon 10224, matrizes nº 1740 e 1741, com "Carinhos de vôvô" (sic) e "Que vale a nota sem o carinho da mulher". E, em setembro de 1929, é lançado o que considero como um "golpe de misericórdia": o dueto "Já me esqueci de você" (matriz nº 2806)... lançado exatamente um ano antes de ser gravado o primeiro disco da dupla Francisco Alves - Mario Reis.











Desta série de duetos, por mais inusitados que sejam aqueles com Almirante, artista já consolidado em 1934, e Sylvio Caldas, ainda no início de sua bem sucedida carreira, ambos os intérpretes dispensam maiores apresentações, da mesma forma que Francisco Alves. Agora, quanto à doce e completamente esquecida Lucy Campos, faço questão de a ela dedicar especial atenção neste artigo. Até porque os quatro discos que a cantora gravou são raros e, infelizmente, talvez sequer surja num futuro próximo (ou distante) outra oportunidade para que eu escreva sobre ela...






UMA NOVA CANTORA
A "Casa Edison" tem, agora, no seu elenco artistico, mais um elemento de real valor, cuja estréa se vem de verificar com todo o exito. Trata-se da senhorita Lucy Campos, que gravou ali a sua primeira chapa com o samba "Boquinha de Anjo", letra e musica de Luiz Nunes Sampaio, alcançando com elle uma vendagem inédita para uma estreante. Do outro lado da mesma chapa, que tem o numero 10.541 e pertence á marca "Odeon", Lucy Campos gravou outro samba, intitulado "Eu já te vi com alguem", de Edmundo Henriques. Francisco Alves também tomou parte na gravação do primeiro disco da sua nova collega, cantando pequenos trechos destinados a voz masculina."

(Revista O Malho nº 1426, de 11 de janeiro de 1930, página 41)






"MISS GLORIA" CANTORA DE DISCOS
A sta. Lucy Ramos, eleita "Miss Gloria" no ultimo concurso da "A Noite", é a mesma creatura que, sob o pseudonymo de Lucy Campos, canta para os discos "Odeon". Os leitores ficam sabendo disso desde já. E aquelles que não puderem contemplar a sua belleza physica, poderão, do mesmo modo, admirar a belleza de sua Voz, atravéz de excellentes discos já gravados. A sta. Lucy Ramos, agora mesmo, dias antes de obter o 4º logar na collocação para "Miss Rio de Janeiro", cantou com Gastão Formenti duas lindas canções de Eduardo Souto e Oswaldo Santiago, intituladas: "Scena Caipira" e "Frumiga Vremêia", pequenos duetos sertanejos. O disco que as contem apparecerá por esses dias.

(Revista O Malho nº 1444, de 17 de maio de 1930, página 48)






Infelizmente, as duas notas acima, transcritas conforme os originais, mais o disco com Formenti e as duas fotos, são tudo o que possuo sobre Lucy Campos. Quem sabe alguém também se encante pela artista, consiga buscar e trazer à tona novas informações? É o que espero ao compartilhar o pouquíssimo que tenho.





Lucy Campos e Francisco Alves com Orchestra Pan American – direcção: Simon Bountman
SE MEU AMOR ME VÊ... (samba de J. B. da Silva (Sinhô), Odeon 10564-B, fevereiro/1930
Fonograma do CD Revivendo RVCD-081 "SINHÔ - Volume 2 - Alivia estes olhos" (reequalizado pelo autor do artigo)



Último comentário: em entrevista a "O Malho", em maio de 1930, Gastão Formenti declararia ser a "Scena Caipira" uma de suas composições favoritas. Interessante reportagem, aliás, que ficará para um próximo post, já planejado, a ser ilustrado com mais de uma dezena de gravações de Formenti e outro tanto de diversos artistas dos fascinantes anos 1920 e 1930. Em breve!



01 - Cantado em dueto por Gastão Formenti e Fr. Alves / Orchestra Pan American do Casino Copacabana - NÃO POSSO COMER SEM MOLHO (maxixe de Bomfilho de Oliveira [Bomfiglio], Odeon 10133-A, lanç. fevereiro/1928) [nota: segundo encarte do CD Revivendo RVCD-199, elaborado por Antonio Figueiredo Junior, a letra é de autoria de Lamartine Babo]
02 - Cantado em dueto por Gastão Formenti e Fr. Alves / Orchestra Pan American do Casino Copacabana - FORAM-SE OS MALANDROS (samba de E. dos Santos (Donga), Odeon 10134-A, lanç. fevereiro/1928)
03 - Duetto: Alves e Formenti / Acomp. de 2 Violóes: Rogerio e Alves [Francisco Alves - Gastão Formenti - Rogerio Guimarães] - TOADA SERTANEJA (toada de Waldemar d'Oliveira, Odeon 10159-A, lanç. abril/1928)
04 - Gastão Formenti – Francisco Alves Com Piano e Violão - JÁ ME ESQUECI DE VOCÊ (samba-canção de Fr. Alves – Ary Brandão, Odeon 10468-A, lanç. setembro/1929)
05 - Lucy Campos e Gastão Formenti com Orchestra Pan American / Direcção: Simon Bountman - SCENA CAIPIRA (Toada a moda paulista, de Eduardo Souto – Oswaldo Santiago, Odeon 10622-A, lanç. junho/1930)
06 - Lucy Campos e Gastão Formenti acomp. da Orch. Rio Artists - FRUMIGA VREMÊIA (toada caipira de Eduardo Souto – Oswaldo Santiago, Odeon 10622-B, lanç. junho/1930)
07 - Gastão Formenti – Sylvio Caldas com Orchestra Brunswick - SAUDADE GAÚCHA (canção de Bomfiglio de Oliveira, Brunswick 10126-B, lanç. janeiro/1931)
08 - Almirante – Gastão Formenti com o Grupo do Canhôto - O BOIADEIRO (toada de Almirante – Luiz Peixoto, Victor 33781-A, grav. 23.03.1934, lanç. maio/1934)
09 - Almirante – Gastão Formenti com o Grupo do Canhôto - O GALLO (Toada de Augusto Vasseur – Luiz Peixoto, Victor 33781-B, grav. 23.03.1934, lanç. maio/1934)


Acervo e digitalização: Djalma