terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal de nossa terra

Queridos blogers,
O primeiro ano do Chiadofone encerra-se com uma canção natalina gravada em 1959 por Dalva de Oliveira. Esperamos que 2009 seja um ano pleno de realizações (e gravações!) para todos nós. A equipe Chiadofone agradece pela visita de vocês e conta com sua virtual presença no ano vindouro. Boas Festas e um feliz 2009.

Dalva de Oliveira - Natal de Nossa Terra (Odeon 14126)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Colombina e seus amores

Como prometido há mais de um mês, um artigo sobre COLOMBINA E SEUS AMORES. A intenção não é de fazer deste assunto uma monografia; será apenas uma breve exposição sobre o tema. A presença dos personagens da Comedia dell' arte na música brasileira, e a "adaptação" dos mesmos ao nosso Carnaval, seria assunto suficiente até mesmo para um livro (se é que já não o foi).


Anúncio datado de 1927: uma visão mais moderna do Pierrot aos pés da Colombina

É um assunto farto para quem tem muito tempo para pesquisas - o que não é o meu caso. Basta dizer que estes dois interessantes anúncios publicitários, dos bailes no Beira-Mar Casino e das Massas Aymoré, foram extraídos de uma mesma revista, datada de janeiro de 1927! Portanto, é de se imaginar a quantidade de informações que poderiam ser levantadas em uma pesquisa cuidadosa. Pesquisa que abrangeria inclusive as três décadas de gravações acústicas/mecânicas brasileiras (de 1902 a 1927), acervos fotográficos sobre desfiles e bailes de sociedades carnavalescas, o carnaval de rua e, provavelmente, até mesmo o teatro de revista... Pelo motivo já apresentado, apenas farei comentários sobre algumas gravações em discos 78 rpm das décadas de 1930 a 1960 que estão presentes em meu acervo.


Outro anúncio de 1927: a morte espreitando os foliões de outrora (!!!)

As figuras do arlequim, da colombina e do pierrot começaram a aparecer no nosso carnaval como uma forma de "sanitizar" esta festa e mostrá-la mais "civilizada", distanciando-a do carnaval de rua e do entrudo, mais desregrado e até violento. Entram em cena num momento em que o samba deixa os morros e começa a frequentar as rodas da alta sociedade, e gozavam de boa reputação porque tinham sido assimilados à ópera.


("Serenata d'arlecchino", ato II cena II da ópera I pagliacci, de Leoncavallo, com Tito Schippa e "Pierrot' serenade", solo de violino por Jan Kubelick. Col. Charles Bonares)

Da fase das gravações acústicas/mecânicas, nada escreverei por falta de material (leia-se "DISCOS") que fale sobre a Colombina ou seus dois amigos. De qualquer forma, quem visitar o acervo online do Instituto Moreira Salles, poderá encontrar uma porção de gravações sobre o assunto.

Começaremos, portanto, em 1930.





SERENATA DE PIERROT
(V. Monti - C. Clansetti)
gravado em São Paulo em agosto de 1930
lançado em setembro de 1930

Paira um vago encanto
Sobre o mundo em flor
E há perto d'um canto
um fremito de amor
Misteriosa e pura
uma voz murmura
Com ternura,
uma canção de amor


Celestino:
A noite encanta, prende e fascina
Soluça e canta na alma do luar
Oh Colombina da noite escura
Tu és divina, faz-me sonhar


Annita:
Com ternura, uma canção de amor
Celestino:
De amor, de amor


Annita Gonçalves

Annita Gonçalves? Até agora, a única informação que eu tinha sobre ela era uma singela observação: "Soprano paulista". Uma rápida consulta pelo Google nos revela ao menos um dado interessante, no site dedicado a ninguém menos que Villa-Lobos! Não deixem de visitar ambos os links:

http://www.museuvillalobos.org.br/villalob/cronolog/1931_40/index.htm
Neste primeiro, uma interessante cronologia ilustrada, que menciona em 1931 a "Caravana de Arte Brasileira", e nos revela que "...Fazem parte da Caravana os pianistas Lucília Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Antonieta Rudge Müller e João de Souza Lima; o violinista belga Maurice Raskin; e as cantoras Nair Duarte Nunes e Annita Gonçalves...".

http://www.museuvillalobos.org.br/villalob/cronolog/1931_40/foto_01.htm
E aqui, um cartaz com fotografia de alguns membros da Caravana, incluindo Annita Gonçalves.

Quanto ao cantor, é o próprio Celestino Paraventi mencionado no livro "Olga", de Fernando Morais. Celestino teve um importante papel na vinda de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes ao Brasil em 1930, tanto apoiando financeiramente, como até dando abrigo em uma casa de campo na região da represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo; Celestino ficou preso por alguns meses após a Intentona Comunista de 1935, por acusações de receber do exterior grandes quantias em dinheiro em seu nome e que, segundo o governo, eram repassadas ao Partido Comunista.

O Tenor Celestino Paraventi era empresário do ramo cafeeiro, proprietário do pioneiro Café Paraventi, localizado na então elegante rua Quinze de Novembro, no centro de São Paulo. E uma curiosidade: segundo depoimento prestado pelo próprio Celestino ao autor do livro "Olga", importou a primeira máquina italiana de café expresso do país.

O prestígio do Café Paraventi ficaria registrado na popularíssima revista carioca "O Malho" nº 1.448, de 14/06/1930, onde foi publicada uma nota ocupando metade da página 44, sobre a abertura da filial carioca do Café Paraventi. O inteiro teor da nota, mantida a ortografia original, é o seguinte:


legenda original: "A nova filial do Café Paraventi no Rio de Janeiro"

"Esta conhecida organização, cujo prestigio se firmou na capital de São Paulo pela sua tradicional probidade e pela maneira com que sabe reputar a sua excellente marca, acaba de installar nesta capital, no edificio da Central do Brasil, uma filial devidamente apparelhada para servir ao publico carioca com a presteza e facilidade que o consumo do seu artigo e consequente vulto dos seus negocios, dia a dia está a exigir.

Merece especial registro, a maneira intelligente pela qual, fazendo a sua propaganda, o "Café Paraventi" procura patrioticamente acreditar a maior riqueza nacional, o café paulista."



Como cantor, teve 14 gravações lançadas em 08 discos Parlophon e Odeon, cujo repertório era baseado em canções e valsas. Obteve grande sucesso em 1930 com o disco Parlophon 13.223, no qual foram lançadas as valsas "Tardes em Lyndoia" (de Zequinha de Abreu e Pinto Martins, gravada em 11/08/1930) e "Longe dos olhos" (de Zequinha de Abreu e Salvador Moraes, gravada em 15/08/1930). As matrizes, ambas gravadas em São Paulo, foram relançadas em julho de 1933 no disco Odeon 11.022. Referido disco, surpreendentemente, ainda era prensado no final da década de 1940! Por falta de fontes, não tenho como afirmar se ele permaneceu disponível no catálogo da Odeon por uma década e meia, ou se foi novamente relançado em 1947/1948; minhas únicas fontes são os discos: o Parlophon original, e o Odeon 11.022 com as mesmas matrizes do original, prensado com o inconfundível selo roxo e dourado usado em 1947 e 1948.



De qualquer forma, Celestino Paraventi pode ser considerado um privilegiado, por ser um cantor com apenas 08 discos lançados, e que conseguiu ter um disco gravado em 1930, ainda à venda quase na era do LP e da fita magnética. Uma ressalva: não devemos nos esquecer que são duas composições do popularíssimo Zequinha de Abreu, o que certamente influiu no sucesso do disco.

Bem, voltando ao nosso assunto: Colombina parece ter se cansado de apenas enganar Arlequim e zombar de Pierrot. Arquétipo talvez comparável às flappers do cinema mudo que já faziam a cabeça das mulheres no seu ideal de amor despreocupado, numa ousada "afronta aos costumes" da época, Colombina também serviu para representar um ideal de libertação feminina durante o carnaval. Uma letra muito interessante sobre a "igualdade" entre homens e mulheres no carnaval é a marcha "Viram meu amor por aí?", de Walfrido Silva e Roberto Martins, que foi a estréia de Aracy de Almeida no rádio, gravada por Jonjoca e "Pixinguinha e sua Orchestra" na Columbia, tendo no coro Castro Barbosa e a inconfundível participação da novata Aracy de Almeida. Não tenho este disco raro (alguém tem e quer vendê-lo?...), e deixo aqui meu agradecimento ao colecionador paulistano Roberto Gambardella por esta gravação.

VIRAM MEU AMOR POR AHI?
lançamento: janeiro de 1934

Viram meu amor por aí
Saiu de casa e ainda não voltou
Se fantasiou de palhaço
Caiu na farra e não me ligou

Se ela pensa que fiquei chorando
se enganou porque estou zombando
No Carnaval os direitos são iguais
Ela cai na farra e eu vou logo atrás

Eu já não ligo, vou me divertindo
Sem abusar irei me distraindo
Tenho razão e direito de brincar
Quero alegria pois não sei chorar

Sobre o assunto, deixo a dica: vejam também o artigo do Charles: à la garçonne - comportamento feminino e mpb nos anos 20).

Não pude identificar nenhuma colombina nem algum pierrot "perdido" no meio do repertório dos primeiros carnavais da década de 1930. Já para o carnaval de 1934, Mario Reis gravaria uma marcha do grande Lamartine Babo que, mesmo com letra curta e singela, passaria a ser um clássico. No coro, a voz de Carlos Galhardo aparece com destaque.


Capa do LP de Arrelia e Lamartine Babo

Foi regravada em 1958 pelo palhaço Arrelia e pelo próprio compositor, acompanhados pela Bandinha de Altamiro Carrilho, em LP e disco 78 rpm da gravadora Copacabana. O LP foi batizado "Ride palhaço".



RIDI... PALHAÇO...
data da gravação: 08/11/1933
lançamento: janeiro de 1934

Ride palhaço

Eu sou o teu Pierrot
Colombina...
Colombina...
Reparte esse amor
Metade pra mim,
metade pro seu Arlequim



ficha técnica da gravação

No ano seguinte, Lamartine Babo insiste no Pierrot, e acaba criando mais um enorme sucesso, novamente contando com os magníficos Mario Reis (ao microfone) e Pixinguinha (dirigindo a orquestra "Diabos do Céo").



RASGUEI A MINHA FANTASIA
data da gravação: 27/11/1934
lançamento: janeiro de 1935

Rasguei a minha fantasia
O meu palhaço cheio de laço e balão
Rasguei a minha fantasia
Guardei os guizos no meu coração

Fiz palhaçada o ano inteiro sem parar
Dei gargalhada, com tristeza no olhar
A vida é assim... A vida é assim...
O pranto é livre, eu vou desabafar

Tentei chorar, ninguém no choro acreditou
Tentei amar, e o amor não chegou
A vida é assim... A vida é assim...
Comprei uma fantasia de Pierrot



ficha técnica da gravação

Carmen Miranda alcançou o estrelato enquanto artista da gravadora Victor, a "marca do cachorrinho", mas em 1935 assinou contrato com a Odeon. À dupla de compositores Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti coube a honra de compor as duas músicas do primeiro disco Odeon de Carmen, a marcha "Foi numa noite assim" e o samba "Queixas de Colombina", duas peças belíssimas. Sobre esta música, o pesquisador Abel Cardoso Junior escreveu: "Também intitulado samba-romântico, este samba-choro é ponto altíssimo no repertório de Carmen. Os autores recriam com maestria a velha história de Pierrô e Colombina."



QUEIXAS DE COLOMBINA
data da gravação: 01/05/1935
lançamento: junho de 1935

Meu Pierrot, és a menina dos meus olhos tristes
E minha dor, chorar não posso pois de mim fugiste
Arlequim teve meus beijos de febril paixão
Porém é teu, somente teu meu pobre coração

Já não ouço mais os madrigais
que tu cantavas à luz do luar
Já não tenho mais a minha vida
iluminada pelo teu olhar
A tua voz só serve agora para soluçar
Teus olhos claros como a luz do sol
já se apagaram de tanto chorar
meu Pierrot...

Toma o lenço, enxuga esse teu pranto
Olha para mim sorrindo, oh meu Pierrot
E prende esse soluço na garganta
e vem cantar comigo o nosso amor
Oh meu Pierrot, o meu passado todo esquecerei
Só quero agora ter-te nos meus braços
pra dar-te o beijo que nunca te dei
meu Pierrot...

André Filho, inspirado compositor, gravado pelos maiores nomes da década de 1930, como Aurora Miranda, Carmen Miranda, Francisco Alves, João Petra de Barros, Jayme Vogeler, Sylvio Caldas, também deixaria sua voz registrada em quinze discos em todas as grandes gravadoras da época. Dentre suas gravações, o grande sucesso foi "Cidade Maravilhosa", em dueto com Aurora Miranda na Odeon, mas encontramos muitas raridades e também surpresas como "Anduê Anduá", um ponto de macumba em disco Parlophon, dueto com um tal "Marolino Silva e a Embaixada do Engenho de Dentro"... Ao ouvir o disco, a surpresa: canta com André Filho ninguém menos que J. B. de Carvalho, ainda iniciante em discos, mas que em breve se tornaria em um expoente do gênero de pontos de macumba/umbanda. A sonoridade da tal "Embaixada do Engenho de Dentro" não deixa dúvidas: é o famoso Conjuncto Tupy de J.B. de Carvalho, tão presente nos discos Victor e Odeon dos anos 1930.

Quanto ao uso de pseudônimos, nenhum espanto: Moreira da Silva também gravaria macumbas na Parlophon ("Pisa no tôco" e "Quilombô", ambas de Getulio Marinho "Amôr"), saindo no selo do disco como "João Quilombô" acompanhado pelo misterioso grupo "Gente de Lá"... Raridade fonográfica que em breve irá ao ar aqui, no Chiadofone.



CADÊ A MINHA COLOMBINA
data da gravação: 23/12/1935
lançamento: fevereiro de 1936

Minha Colombina!
vem consolar teu tristonho Pierrot
Eu já não ouço a canção divinal
que cantavas pelo Carnaval

Não ouves mais a voz tristonha
A voz do teu Pierrot sentimental
Cadê a minha Colombina multicor
que era o meu eterno carnaval

Perdi a minha Colombina
A minha Colombina original
Cadê a minha Colombina multicor
que era o meu eterno carnaval

Sim, naquele ano de 1936, a COLOMBINA MODERNA esteve ao alcance de todos: nesta nova composição da dupla Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, além do Dominó e de algum ricaço "coronel", um palhaço, um malandro tipo nacional, e pelo visto até um infame Apache (assim que possível, escreveremos sobre os apaches e as gigolettes) tiveram lá sua sorte!



COLOMBINA MODERNA
data da gravação: 18/01/1936
lançamento: janeiro de 1936

Fui ao palácio encantado
Do meu Papai Carnaval
Lá encontrei Colombina me traindo
com um malandro tipo nacional

Antigamente a Colombina
repartia o seu amor
Com os beijos de Arlequim
e os versos de Pierrot
Mas hoje a Colombina pega todos no laço
Já tem uma aventura com um Palhaço

Por causa dela houve uma briga
entre o Apache e a Gigolette
Travou-se uma batalha,
batalha de confete
E até a própria Lua
vendo a festa formada
Caiu na farra até de madrugada

Ainda em 1936, Pierrot levaria um "fora" enorme após uma memorável bebedeira de Colombina, que foi um acontecimento tão notável que se transformou num sucesso carnavalesco cuja fama vem atravessando décadas.



PIERROT APAIXONADO
data da gravação: 26/12/1935
lançamento: janeiro de 1936

Um pierrot apaixonado
que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu "assim, assim"
Dizendo: Pierrot cacete,
Vai tomar sorvete com o Arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim
com o pierrot aconteceu assim
Levando esse grande chute
foi tomar vermute com amendoim

Provavelmente, uma parte deste sucesso é devido ao registro presente no histórico filme da Cinédia-Waldow, "ALLÔ ALLÔ CARNAVAL!":





Na cópia restaurada do filme (cujo lançamento em DVD está sendo aguardado há pelo menos CINCO ANOS...), o final fica por conta da antológica cena "Cantoras do rádio" mas, originalmente, o filme encerrava com Francisco Alves em "COMPREI UMA FANTASIA DE PIERROT". Aqui vai apenas o trecho do filme, pois não tenho o disco.





No carnaval de 1937, a "modernidade" (num sentido pejorativo?) da Colombina ficaria registrada em uma deliciosa marcha, e os felizardos da vez foram o Dominó e até um certo "coronel". Tudo bem, em 1936 a farra foi tão grande que, depois daquilo, nada mais espantaria. Ainda assim, os zelosos compositores não se esqueceram de relatar que aquele seria o final da "história eterna".



"COLOMBINA DA FUZARCA"
1937

A Colombina brigou com o Arlequim
Brigou com o Pierrot, ô ô
Mas não podendo viver só
Foi procurar o pacato Dominó

Pierrot virou valente
Arlequim deu pra chorar
Colombina sorridente
chamou um guarda para apaziguar

Colombina é moderna
Hoje tem seu coronel
Acabou-se a história eterna
Os outros dois foram vender pastel...


Observação: já foi publicado o outro lado deste disco, "São Paulo Grandioso"

No carnaval de 1938, encontramos um Pierrot dotado de uma auto-confiança inédita:



PIERROT MODERNO
data da gravação: 26/10/1937
lançamento: janeiro de 1938

Sigo nesta escala toda a vida
Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó"
Catarina!
Sigo nesta escala toda a vida
Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó"

Estou treinando a voz
pra ser um bom cantor
Em noites de luar
ir cantar pro meu amor

Eu sou Pierrot moderno
que não teme Arlequim
ouvindo o meu cantar
Colombina vem pra mim


Mas os tempos mudam, não é mesmo? Vejamos agora o que já se ouvia no carnaval de 1940... A gravação foi originalmente lançada no selo Columbia, disco 55.187. Das trinta músicas gravadas por Francisco Alves na gravadora Columbia, entre 1939 e 1941, apenas três não foram relançadas; cinco seriam relançadas pela gravadora Continental ("herdeira" da Columbia) nos anos de 1943 a 1945, e as outras vinte e duas matrizes voltariam ao mercado em outubro de 1952, logo após a morte de Francisco Alves, o que é o caso do disco a seguir. A "Orquestra" presente no disco Continental é um resumo de "Kolman e a Orchestra do "Casino da Urca".



TRISTE PIERRÔ
lançamento original da matriz: dezembro de 1939 (disco Columbia)
relançamento em disco Continental: outubro de 1952

Há quanto tempo saudoso
procura em vão Colombina
Desiste Pierrot, não cantes assim
O tempo mudou, não há mais Arlequim
A Colombina já não é mais aquela
Toca tamborim e mora na Favela

Os personagens do teu drama de amor
já não lembram mais da tua dor
O Arlequim é um malandrinho bamba
e a Colombina é francamente do samba

Ao longo da década de 1940, Colombina e companhia ficaram meio esquecidos; em parte, pela constante exaltação ao Brasil e ao trabalho ("Cem por cento brasileira", "Mulato patriota", "Brasil pandeiro", "Tudo tem o Brasil", "Onde florescem os cafezais", "Tudo é Brasil", "Artigo nacional" e muitas outras, além das óbvias "Aquarella do Brasil", "Canta Brasil" e "Brasil moreno"). Quem analisar o repertório do período irá notar uma grande quantidade de referências implícitas e explícitas à guerra e às conturbações do cenário político mundial ("O Danubio... azulou!", "Adolfito mata-moros", "Paris sorrirá outra vez", "O mundo vai melhorar", "Vitoria", "China", "Prece de paz", "Nós das Americas", "O V da Vitória", "Alô, Tio Sam!", "Coitadinha da Sicilia", etc). E seria impossível deixar de mencionar o fim da Praça Onze, assunto que rendeu grandes clássicos, mas foi explorado à exaustão e deu chance ao surgimento de letras nada originais, como vocês poderão ver na excelente série de artigos elaborados pela amiga e pesquisadora Daniella Thompson, Praça Onze in Popular Song.

Pierrot? Bem, ele se revoltou (Colombina que se cuide...) e voltou a ser sucesso em 1948, mais uma vez na voz de Francisco Alves.

No geral, os selos Odeon daquele carnaval são muito sensíveis, e por isso mesmo quase todos que encontrei até hoje estão com a impressão desbotada, como verão no próximo disco. Desde o início do blog, achamos interessante que os leitores buscassem a informação diretamente no selo (como faria alguém com o disco em mãos!), mas no presente caso todos os dados foram transcritos.



RASGUEI O MEU PIERROT
marcha
(Haroldo Lobo - David Nasser)
FRANCISCO ALVES
com Orquestra Odeon,
direção de Guari

data da gravação: 04/12/1947
lançamento: janeiro de 1948

Rasguei o meu pierrot
o meu pierrot de cetim
Só porque eu encontrei a Colombina
Cantando "assim" com o Arlequim

Esta noite eu tive um sonho com você, Pierrot
Mas chegou o Arlequim, o sonho se acabou




OS CONFETIS DE ARLEQUIM
data da gravação: 11/11/1948
lançamento: janeiro de 1949

És bonita mas o mundo é mesmo assim
Culpado é quem acredita nos confetes de Arlequim

Não tenho jeito a dar
Vá tomar um drinque, um coquetel
Tudo foi ilusão
Confetes pelo chão
Rodinhas de papel




SERPENTINA
data da gravação: 09/10/1949
lançamento: janeiro de 1950

Guardo ainda bem guardada a serpentina
que ela jogou
Ela era uma linda Colombina
E eu, um pobre pierrot

Guardei a serpentina que ela me atirou
Brinquei com a Colombina até as sete da manhã
Chorei quando ela disse "vou-me embora
até amanhã, Pierrot, até amanhã"


Aproveitamos a oportunidade para "revivermos" o quinto disco dos Demônios da Garoa, na gravadora Elite Special. O famoso grupo vocal paulistano tem muita história para contar além de "Samba do Arnesto", "Trem das Onze" e "Saudosa maloca".



POBRE COLOMBINA
carnaval de 1951

É inútil negar o pranto, Colombina
É fútil, todos lamentam sua sina
Retira, retira a máscara do rosto
Carrega o peso do desgosto e da dor
Pierrot já tem um novo amor

Você quis zombar do pobre Pierrot
Quis ludibriar quem muito lhe amou
Agora chora chora Colombina
E esconde o pranto atrás desse
farrapo de cetim
É grande a lição que a vida ensina
Você perdeu o Pierrot e o Arlequim


E para aquele mesmo carnaval de 1951, pela mesma gravadora:



POBRE PIERROT
carnaval de 1951

Pobre pierrot,
que desilusão ele passou
Trabalhou durante o ano inteiro
Pra poder juntar algum dinheiro
Quando chegou o carnaval
ficou doente, passando mal

A Colombina chorou, chorou
Chorou que dava dó
Vendo o pobre Pierrot
passar o carnaval tão só

Não chora, Pierrot
Fica em paz
No ano que vem tem mais


Mais uma surpresa aos nossos leitores: uma marcha de carnaval gravada por Leny Eversong, cujo repertório sempre foi mais dedicado ao fox, desde o início de sua carreira. Vítima do esquecimento que assola boa parte dos grandes intérpretes da era do 78rpm, depois de morta foi "envolvida" numa polêmica em torno da internacionalmente conhecida composição "Águas de março" de Tom Jobim. Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, publicada em 25/05/2001, esta seria um plágio de "Água do céu", composição de Inara Simões de Irajá gravada por Leny num raro e obscuro LP da gravadora Copacabana, "5 estrelas apresentam Inara", que contou com Inezita Barroso, Leny Eversong, Elizete Cardoso, Marita Luizi e Juanita Cavalcanti.


Em breve, talvez, "Água do céu"...



POBRE PIERRÔ
lançamento: janeiro de 1953

Pobre pierrot
vive tão desprezado
coitado, coitado
A Colombina lhe deixou abandonado

Fugiu com Arlequim no outro carnaval
O amor é mesmo assim, termina sempre mal
O pierrot chorou, chorou
E a malvada Colombina nunca mais voltou


Em meio à decadência generalizada da música de carnaval, que foi dando seus sinais ao longo da década de 1950, chegamos aos dois últimos discos deste artigo. Pela época em que foram gravadas, até que as músicas podem ser consideradas boas...



RI
carnaval de 196_

Ri deste palhaço
Deste palhaço que não quer mais amar
Ri deste palhaço
Deste palhaço que não quer mais chorar

Já é antigo, já é passado
Bancar o bobo para se contentar
Agora chora, oh colombina
que este palhaço não quer mais chorar




FIM DA COLOMBINA
carnaval de 1964

A Colombina está tristonha
Sozinha no salão
À procura do Pierrot
que ainda mora no seu coração

Mas o Pierrot magoado
Por causa do Arlequim
Diz que passou, é passado
A Colombina já chegou ao fim


ACRESCENTADO EM 16/12/2008:

Um recado aos leitores que tiveram tempo e paciência para ler o artigo e chegar até aqui. Confesso que eu não estava contente com o fato do artigo terminar de forma tão abrupta. Então, escolhi finalizá-lo não com um disco, mas com Chico Buarque, Nara Leão e MPB-4 cantando na TV Record no ano de 1967: "Noite dos mascarados".

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Rádio Nacional - A canção da lembrança (1954)

Programa de variedades de César de Alencar, com Emilinha Borba, Marlene, Carmélia Alves, Linda Baptista e Afrânio Rodrigues.

Quando eu nasci, já havia rádios FM especializadas em música estrangeira ou nacional, divididas em gêneros musicais bem definidos e tipo de público-alvo, com uma programação quase exclusivamente musical e, por isso mesmo, homogênea. Programas de calouros, festivais de música e novelas, conheci-os pela televisão (e, hoje, admito, não assisto a nenhum). O rádio só ocupou meu centro de atenções no final dos anos 90 (ou seja, quando eu era adolescente), porque era o único meio de comunicação graças ao qual eu tinha acesso a ópera com certa regularidade. Mas esta é uma outra história.

O tema deste post é um programa da Rádio Nacional, aqui postado inteirinho para você, levado ao ar em novembro de 1954.

No excelente manual de Lia Calabre, “A Era do Rádio” (Jorge Zahar Editor, 2002), a autora nos explica o papel do rádio na sociedade brasileira dos anos 1930-1950 a partir de uma pesquisa cuidadosa de fontes. Ressalto aqui algumas informações da autora sobre a Rádio Nacional.

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Livro de Lia Calabre

Mesmo tendo se desenvolvido em todo o território nacional, durante os anos 1930-1950 as emissoras paulistas e cariocas dominaram a difusão de ondas radiofônicas. O modelo era a Rádio Nacional, sucedida em audiência pela Rádio Mayrink Veiga, pela Tupi e pela Tamoio. Decerto havia outras, porque o IBGE conta apenas 2 criações de emissoras de rádio em 1923, mas 15 em 1934 e 10 em 1940, mesmo ano em que o Censo Demográfico contou 522.143 domicílios com aparelho de rádio no Brasil, num total de 9.098.791 domicílios visitados.

A Rádio Nacional, pertencente ao mesmo grupo jornalístico que editava o jornal A Noite e as revistas Noite Ilustrada e Vamos Ler, fez sua primeira transmissão oficial em 12/09/1936. Utilizava os transmissores da extinta Rádio Philips e contava no casting artistas do porte de Aracy de Almeida, Marília Baptista e Orlando Silva. Dentre as suas Orquestras, destacava-se a de Radamés Gnatali e, nos anos 40, a de Léo Perachi (que regeu as canções deste post). Entre os seus locutores, ou speakers, Celso Guimarães, Ismênia dos Santos e Oduvaldo Cozzi.

Sua programação contava quatro núcleos: música, dramaturgia, jornalismo e variedades. É difícil dizer qual dos núcleos atingiu maior sucesso. As variedades e a música, por um lado, destacava grandes atrações como PRK-30 (paródia de uma emissora de rádio cujos personagens eram interpretados por Lauro Borges e Castro Barbosa), o Balança mas não cai, Levertimentos, Vai da valsa e A cidade, além dos inesquecíveis programas de calouros, que lançaram nomes como Emilinha Borba, e os de auditório, como os de César de Alencar e de Paulo Gracindo, responsáveis pela corte de Reis da Voz e de Rainhas do Rádio (seria caso aqui de nomearmos artistas do porte de Emilinha, Marlene, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto). De outro lado, o modelo jornalístico norte-americano, que formatou o Repórter Esso (preparado a partir da United Press International), gerou nosso hábito de necessitarmos estar sempre informados, e da imprensa como testemunha ocular da História. E ainda as novelas, que tiveram papel essencial nas rádios brasileiras, a iniciar por Em busca da Felicidade (a primeira rádionovela brasileira, estreada em 05/06/1941). Curioso, aliás, era a radiodifusão de novelas. No início, eram gravadas em disco de acetato, e depois em discos de vidro (como será um desses?) para serem “exportadas” para outras rádios. Só em meados dos anos 40 é que os mesmos textos começaram a ser difundidos por emissoras diferentes.

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Sala de ensaio do radioteatro da Rádio Nacional: Celso Guimarães (em separado), Amélia Alves, Paulo Ferreira, Amélia Ferreira, Tanio Luna, Neusa Tavares, Dinarte Armando, Ítala Ferreira, Osvaldo Elias, Zezé Macedo, Renato Murce e Alda Verona.


Repertório deste programa:
OVER THE RAINBOW (Sobre o arco-iris) (As Moreninhas: Emilinha Borba e Bidu Reis) - GALANTERIA (Jorge Fernandes) - LAMBETH WALK (Dolores Duran) - SÓ RESTA UMA LÁGRIMA - (Alcides Gerardi) - LA PALOMA (Lenita Bruno) - A pausa que refresca: Francisco Carlos: OLHO DE GATO - ANJO DA NOITE.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Carmen Miranda e Almirante – Cosinheira granfina

A curiosidade do vídeo da execução de um 78 rpm em um gramofone Decca.
Para as novas gerações.
Vídeo do colecionador Alceu Massini.
Carmen Miranda e Almirante – Cosinheira granfina (Sá Roris, Odeon 11777B, 1939)


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Conjunto Farroupilha - Mr. Lee / Clases de Cha-Cha-Cha


Olá a todos! Finalmente, cá estou regressando de minha viagem ao Rio de Janeiro e colocando a vida em ordem. Para me redimir com os nossos leitores, farei hoje um post diferente sob vários aspectos. Pela primeira vez, focalizaremos um conjunto, vocal neste caso; que se desenvolveu fora do eixo Rio-São Paulo, cantando dois gêneros jovens e dançantes. Vamos lá!

Nos anos 40 e 50, a Rádio Farroupilha era a maior do estado do Rio Grande do Sul, pertencendo a um grande conglomerado e com grandes anunciantes, como a Pepsi Cola. Esta emissora inspirava-se nas grandes rádios cariocas, com um vasto elenco fixo e contratado, trabalhando em grandes musicais. Para se ter uma idéia, eram de uma audácia que lhes permitiam recriar com seus próprios artistas alguns dos mais luxuosos programas de estúdio da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, como "A Canção da Lembrança" e "Um Milhão de Melodias". Eis que em 1948, surge um conjunto sem nome definido que entoava canções típicas ao seu microfone. Por conta do sucesso, Danilo, Tasso, Iná, Estrela d'Alva e Alpheu (mais tarde substiduído por Sidney Moraes, primeiramente apenas nas viagens pra fora do Sul, depois, permanentemente) foram batizados com o nome da rádio que os contratou. Sob a batuta de Tasso, as tradicionais canções gaúchas ganhavam nova roupagem, com arranjos vocais de impressionante beleza. Ele, muito jovem ainda, por sua competência como arranjador, passou também a maestro da rádio, regendo a orquestra da Rádio Farroupilha ao lado do veterano Maestro Salvador Campanela. Os chamados para apresentações e gravações vinham de toda parte e as fronteiras de seus estado já não comportavam a revolução que estavam fazendo na seara dos conjuntos vocais.

Difícil é desfilar de maneira sucinta todos os louros que o conjunto colheu pelos anos. Ganharam todos os troféus possíveis, tanto de rádio como de TV, tiveram programas exclusivos Viajaram o mundo todos (fizeram parte, inclusive, da lendária excursão que foi à União Soviética em 1958, ao lado de Dolores Duran, Jorge Goulart, Nora Ney e Maria Helena Raposo). Cantaram todos os gêneros e ritmos, mas nunca abandonaram as músicas da terra natal. Não tinha língua, dissonância ou canção em tom menor que desafiasse nosso grupo. Nosso amigo blogger pode ter a plena certeza que não existiu NADA melhor em matéria de conjunto vocal no Brasil!

As duas gravações que levamos até vocês datam de 1956 e foram realizadas em Porto Rico, conforme consta no selo. A primeira é um calypso-fox, quase um rock, uma delícia, onde fica bem evidente a beleza da voz da solista Iná. Gostaria aqui de fazer um pequena observação sobre o calypso. O tal calypso já foi apanhado na cama de diversos outros ritmo, causando casamentos interessantes, como calypso-rock, calypso-rumba, calypso-mambo, e calypso-chá (!!!). Geralmente, cotumava designar um rock mais lento ou menos agitado que o rock'n roll. A segunda gravação, é um belo chá-chá-chá, como o próprio título da música não deixa negar. Provavelmente, o acompanhamento foi feito por músicos do próprio país, o que confere aquele balanço que só quem é originário do país sabe fazer. Bem, vamos deixar de conversa e deixar vocês com os vocais e efeitos maravilhosos do Conjunto Farroupilha! Só uma coisa: é só ouvir e tirar seu parceiro pra dançar, porque ambas as músicas são uma delícia, com grande potencial viciante!

P.S.: As fotos que postamos não tem muita ligação com as músicas apresentadas neste disco, certo? Portanto, disponibilizamos uma faixa, de 1960 dessa vez, onde eles interpretam a música "Tatu", uma dança típica gaúcha.



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Resenha crítica: Caymmi sem folclore


O Chiadofone hoje faz a apreciação do trabalho do Prof. André Domingues dos Santos, denominado "Caymmi sem folclore" (dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e arquivada na Biblioteca da mesma Faculdade, tombo 306.754).

A obra trata do período de produção do compositor durante 1938 a 1959. Neste período, correspondente aos primeiros 20 anos da produção musical de Caymmi, desenvolveram-se e se solidificaram suas três tendências de composição, a saber, as canções praieiras (19 canções), os sambas baianos (18 canções) e os sambas-canção (15 canções).

A principal contribuição do trabalho de André Santos é o reconhecimento de que a obra de Caymmi, com efeito, manteve-se periférica ao mercado musical do período em que foi majoritariamente composta. Caymmi, ademais, não possuiu “mestres” nem “seguidores”, mas, ao mesmo tempo, sempre possuiu grande reverência dos mestres dos mestres – Tom Jobim e João Gilberto, por exemplo.

Esta introdução ao trabalho de André partiu da quebra de dois estereótipos ligados a Caymmi por conta de sua obra: a do boêmio carioca dos anos 40 e 50 e a do baiano devoto de Iemanjá. O processo é curioso. Por meio da análise do contexto sócio-cultural do Rio de Janeiro quando da chegada de Caymmi àquele lugar, em 1938, André conclui que o compositor lidou muito bem com o ideário nacional sobre a Bahia e com o universo cultural cosmopolita do Rio de Janeiro.



Ademais, analisando a estrutura melódica das canções de Caymmi, o autor da dissertação encontra harmonizações jazzísticas combinadas a ritmos brasileiros. Caso exemplar disso é “Marina” (gravada por Francisco Alves, Odeon 12773B, 1947). Trata-se de um parâmetro novo convivendo com um tradicional.


discos: coleção Djalma M.Cm.
Carmen Miranda e Dorival Caymmi - A preta do acarajé (Cena típica baiana, Odeon 11710B, 1939).
Dorival Caymmi - O mar: parte i e ii (Canção, Columbia 55247, 1940).
Dorival Caymmi - Navio negreiro (Samba jongo de Alcir Pires Vermelho, J. Piedade, Sá Roris, Odeon 11850A, 1940).
Dorival Caymmi - A jangada voltou só (Canção, Odeon 13732A, 1954).
Anjos do Inferno - Requebre que eu dou um doce (Samba, Continental 15024B, 1943).
Dorival Caymmi – Dora (Canção, Odeon 12606A, 1945).
Francisco Alves – Marina (Samba canção, Odeon 12773B, 1947)
Leo Belico – Maracangalha (Samba, RCA Victor 80.1733B, 1957)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As influências de Vicente Celestino


“Se você indagar de uma pessoa qualquer na rua, qual o maior cantor do Brasil, é possível que a resposta seja:
- Vicente Celestino!
Mas, se você indagar de outra pessoa qualquer na rua, qual o pior cantor do Brasil, é possível que a resposta seja:
- Vicente Celestino!
Aos 59 anos de idade, Celestino é, possivelmente, o mais estimado e o mais detestado cantor do país. Há cêrca de quarenta anos [nota do blogger: Como quase todos os pioneiros, Vicente começou cantando no teatro de revista, e por isto foi levado ao disco, no início dos anos 1910, gravando na série 121.000 da Odeon/Casa Edison] sua voz quase tonitroante pode ser ouvida nos diversos cantos do território nacional, provocando ódios de uns e admiração de outros. A verdade é, porém, que o público de Vicente é um público certo e fiel. Em sua maioria, é formado de donas de casa e empregadas domésticas; mas há outros tipos [...]

Caruso e Chevalier

Vicente Celestino, que talvez possa ser descrito como um barulhento meio triste, vive a maior parte do seu tempo para o lar. Raramente é visto nas ruas ou nos pontos de reunião dos artistas do rádio. Gosta de televisão e, evidentemente, de cinema. Seu gênero predileto é a opereta. Na ópera – diz ele – você só canta; mas, na opereta, não, você precisa saber representar. E eu gosto de representar.
Indubitàvelmente, Celestino gosta de representar. É um dos mais conhecidos canastrões dêste país, que está cheio dêles.
Há, no entanto, uma dose preciosa de pureza meio infantil, de certa ingenuidade comovedora nesse quase sexagenário, que é ainda a delícia de muita jovem emotiva e singela. Embora às vêzes se mostre um tanto melancólico, Vicente Celestino constantemente se deixa empolgar, pois é, por temperamento, um homem arrebatado. Assim, depois de comentar um tanto desanimado as perspectivas de um artista, no Brasil, fala entusiasmado sôbre as suas preferências, de um modo geral, ‘no mundo da música’:

- Meus ídolos são Enrico Caruso e Maurice Chevalier. Muita gente acha estranha essa combinação, mas é essa que é a verdade. Para mim, os prediletos são êsses dois”.

Revista da Música Popular, n.º 4, janeiro de 1955.



Vicente Celestino “Coração materno”, Victor 34156B, 1937
Vicente Celestino “Cinzas”, Victor 34156A, 1937
Vicente Celestino “Primeiro amor”, RCA Victor 800375B, 1945
Vicente Celestino “Ser ou não ser”, RCA Victor 80.0617A, 1946
Vicente Celestino “Altar de lama”, RCA Victor 80.0432A, 1946

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Grupo Voz do Sertão (Odeon 10.260B, 1928)


"Entre 1928 e 1929, veio em excursão para o Rio um conjunto pernambucano, com um repertório especializado em ritmos nordestinos, os Turunas da Mauricéia, tendo como destaques o extraordinário cantor e compositor Augusto Calheiros, apelidado muito a propósito de Patativa do Norte, e o genial violonista cego Manoel de Lima, entre vários outros músicos notáveis. Eles tocavam uma grande variedade de ritmos, praticamente desconhecidos do público carioca, cocos, emboladas, trizadas, baiões, martelos... Tinham uma série de apresentações marcadas para o Teatro Lírico, no Largo da Carioca, como uma curiosidade e só. Mas o sucesso foi tão retumbante, as platéias ficaram de tal modo tão arrebatadas pelo grupo, que novas apresentações e excursões foram rapidamente marcadas por todo o Sul. Naturalmente as rádios também os contataram e o que fora até então um grande sucesso transformou-se numa febre, num autêntico delírio coletivo. Essa demanda excitada atraiu outro grupo nordestino, A Voz do Sertão, encabeçado pelo cantor Minona Carneiro e o violonista Romualdo Miranda. A vibração do público só ampliava e se multiplicava. Mas agora as gravadoras e emissoras de rádio já sabiam o caminho. Não foi o rádio que lançou a música popular, foi o contrário” (História da Vida Privada no Brasil, vol. 3, pág. 593)

domingo, 12 de outubro de 2008

Cartola 1908-2008




Numa singela homenagem ao centenário do compositor Cartola, Angenor de Oliveira, oferecemos aos nossos visitantes duas preciosidades gravadas há 76 anos por Carmen Miranda e por Francisco Alves.




coleção do autor

TENHO UM NOVO AMOR
data de gravação: 11/05/1932
lançamento: julho de 1932


ficha técnica da gravação


coleção do autor

QUAL FOI O MAL QUE EU TE FIZ?
(co-autoria de Noel Rosa, não creditada no disco)
data de gravação: 30/12/1932
lançamento: maio de 1933

sábado, 4 de outubro de 2008

A linda flor Araci Cortes

Araci Cortes, em 1929.

Em 1929, Araci Cortes firmara-se como uma das maiores estrelas musicais do país. De um lado, consagrara-se no disco ao gravar, no ano anterior, Jura! (Parlophon 12868) e Iaiá (ai yoyô) (Parlophon 12926), razão pela qual passou a ser procurada pelos compositores que viam em sua voz a possibilidade de se consagrarem; de outro lado, integrou dois espetáculos de grande êxito, ao lado de nomes como Vicente Celestino e Henriqueta Brieba, e de grandes cômicos, como Palitos e Mesquitinha.



Marcada para estrear em 25 de abril, a revista teatral Laranja da China trazia a autoria de três personalidades do teatro de revista e da música brasileira: Júlio Cristobal, maestro da companhia do Recreio, Sá Pereira, compositor, e o novato Ary Barroso. Causou uma onda de protestos por conta de uma cena em que as coristas aspergiam uma água-de-colônia chamada Febre Azul sobre a platéia, composta na maioria por homens casados que, às escondidas, iam ao Recreio apreciar os "atributos" das atrizes. A cena foi retirada da revista, cujo êxito lhe valeu mais de cem apresentações, até maio/junho de 1929. Hoje, o Chiadofone apresenta um dos números desta revista, A polícia já foi lá em casa, de Júlio Cristobal e Olegário Mariano, registrado por Araci no disco Odeon 10426-A.

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A revista imediatamente subseqüente foi Vamos deixar de intimidade, nome aliás retirado de um dos êxitos de Araci em Laranja da China. Estreada em 07 de junho, também leva a assinatura de Ary, agora apoiado por Olegário Mariano. Dele, apresentamos o sucesso Tu qué tomá meu home, gravado por Araci em disco Odeon 10446-A.



Roberto Ruiz, na biografia de Araci, nota que as revistas deste período opunham-se às manobras do Catete para a eleição de Júlio Prestes à presidência do Brasil. Pouco tempo depois, em 1930, estourou a Revolução.

discos: coleção Djalma M.Cm.