sexta-feira, 18 de julho de 2008

Eufemismo nas cançonetas cômicas da fase mecânica da MPB

Bahiano

Por definição, o eufemismo é uma figura de linguagem cuja função é atenuar ou dissimular sentimentos ou pensamentos desagradáveis e palavras-tabu, de maneira a suavizar a expressão sem atingir o conteúdo. Especialmente na música brasileira, o eufemismo em relação ao ato sexual e à anatomia masculina e feminina constitui um ponto a ser explorado porque incide sobre a origem e sobre a circulação das chamadas “cançonetas cômicas”, gênero muito popular praticado por cantores como Bahiano, Eduardo das Neves, Mário Pinheiro e Cadette, quatro dos maiores cantores da Casa Edison.


Pertence a Elias Thomé Saliba a idéia de que o humor constituiu no Brasil um elemento essencial para indicar a dificuldade em ser representar nosso país como nação. No ambiente doméstico, privativo, o humor demonstra a aporia da formalidade das relações num quadro de estrangulamento moral e sugere uma explicação não apenas para a transposição de assuntos da esfera pública para a esfera privada, mas também o inverso.


Casos exemplares neste sentido são o samba gravado por Bahiano “Papagaio come milho” (Odeon 122.205, ca. 1923), que é a defesa masculina contra uma acusação feminina de adultério, “De bambambam” (Odeon 122.638, ca. 1922), um pedido às coristas da trupe Bataclam diminuírem o comprimento das saias em suas apresentações, e “Só por amizade” (Odeon 121.530, ca. 1920), um convite para a malandragem gravado por Eduardo das Neves, em que a subversão dos valores aparece velada pela linguagem bem-humorada.


Quando, no entanto, se adentra no universo da relação homem-mulher, o humor eufemizante representa a infração não apenas dos códigos rígidos dos hábitos burgueses, mas dá indícios das mudanças de comportamento que seriam ampliadas e acentuadas após o período das guerras mundiais.


Os dois primeiros registros deste fenômeno são duas cançonetas cômicas gravadas por Bahiano, “Chefe de orquestra” (Zon-o-Phone 10.040, ca. 1902-1904) e “Regente de orquestra” (Zon-o-Phone 649, 1902). Em ambas, o contato íntimo entre homem e mulher é metaforizado pela figura do maestro e pelas alunas de música, cantoras e atrizes nas apresentações teatrais. Nelas, prevalece a figura masculina que “ao empunhar a batuta em movimento, quer no andante, ou no prestíssimo”, deixa as atrizes (“tontas baratas assanhadas”) ofegantes e admiradas, ou, ainda, o homem que, de belas feições, conquista as meninas pelo seu olhar fascinador.


O assédio feminino nestas cançonetas é mais freqüente do que o masculino (sobre este, ouça-se “Conquistador”, Victor Record 98.967, ca. 1908, gravado por Mário Pinheiro) . Quase sempre, a moça é jovem e casada, mas está sozinha (ouça-se “A namorada”, Odeon 10.291, ca. 1907, gravada por Bahiano). “O angu do barão” (Zon-o-Phone 670, 1902, gravada por Bahiano, e depois por João Barros, Victor Record 98.779, ca. 1910 e por Arthur Budd, com sotaque português, Beka-grand-record 48.465, ca. 1910), por exemplo, apresenta uma situação de sedução e de adultério provocada por uma baronesa depois de um jantar em que o velho esposo adormeceu, ou antes, tinha “amarrado o gato” (“ó que sobremesa deu-me a baronesa na boquinha perfumada!”). Por excelência, enquanto a mulher recebe a designação de morenão ou peixão, o sexo feminino é constantemente evocado pelos sugestivos nomes da culinária, por exemplo, angu e pratos congêneres, como mingau, moqueca, cuscuz, caruru (“O angu do barão”, Zon-o-Phone 670, 1902, “Seu Nicolau quer mingau”, Odeon 507, ca. 1904, “Mingau bem mexido”, Odeon 108.498, ca. 1909, “Moqueca”, Odeon 10.283, ca. 1908, “Cuscuz de Sinhá Chica”, Odeon 122.103, ca. 1922 e “Tá gostoso”, Odeon 122.204, ca. 1920), bem como rabada (“Tá gostoso”, Odeon 122.204), e por termos como buraco (“Pelo buraco”, Zon-o-Phone 530, ca. 1902), pomba (“Pombinha de Iaiá”, Odeon 108.842, ca. 1908, gravada por Bahiano, Eduardo das Neves e Banda Escudero e “A pombinha de Lulu”, Odeon 120.148, ca. 1915, gravada por Bahiano) e porta (“Vai entrando”, Odeon 108535, ca. 1907), que atenuam o conteúdo picante das letras por meio de termos e situações cotidianas, como o sejam a compra de um caruru ou de uma fruta junto à vendedora da esquina (“As vendedoras de fruta”, Odeon 108.514, ca. 1907) e uma moça pedindo para o cantor lhe cantar uma modinha (diz a letra de “Vai entrando”: “ao passar pela travessa ouvi alguém me dizendo: ‘vai entrando’. Parando então, para trás olhei, e dum sobrado na janela, um morenão eu avistei, que pareceu-me ser mui bela [...] Ela então do sobrado apontava para baixo e dizia assim: ‘vai entrando, vai entrando sem receio nesta porta aqui do meio”), cuja asserção do rapaz sugere prazer: “e eu fui entrando, ai que porta gostosa!”.


Quanto ao sexo masculino, as expressões mais comuns são mala (“Não empurre”, Odeon 108.527, ca. 1907), quiabo (“Tá gostoso”, Odeon 122.204), taco (“O taco”, Odeon 108.531, ca. 1907), bonequinho (“O bonequinho”, Odeon 108.715, ca. 1907), pauzinho (“O pauzinho do guarda-civil”, Odeon 10.380, ca. 1906) e batuta (“Chefe de orquestra”, Zon-o-Phone 10.040, ca. 1902-1904 e “Regente de orquestra”, Zon-o-Phone 649, 1902). A ereção recebe a denominação quebrar, termo que ultrapassa o vocabulário das cançonetas cômicas e aparece com esta conotação mesmo nos primeiros registros de Francisco Alves (“Geladeira”, Odeon Record 123.280, 1927 e “Você quebrou”, Odeon Record 123.276, 1927).


As práticas sexuais (ouçam-se “A balança”, Odeon 120.146, ca. 1915, gravada por Bahiano, “Os bolinas”, Victor Record 98.867, e “Quitutes”, Victor Record 98.787, gravadas por João Barros ca. 1908) denominadas pelos termos genéricos “carambolar” (“O taco”, Odeon 108.531, ca. 1907, gravada por Bahiano) e “bolinagem” (“Não empurre”, Odeon 108.527), não excluem o sadomasoquismo (“A namorada”, Odeon 10.291, ca. 1907) a masturbação e o anilingus - cite-se com destaque a canção pornográfica “Os colarinhos”, Odeon 108530, ca. 1907, que diz “ora aqui ora acolá, não sou de ir de veneta [?], ando atrás de um menino que me toque uma... pudera...!” - a prática homossexual (“O açougueiro”, Odeon 108.532, ca. 1907 e “O Francesco”, Odeon 108.533, ca. 1907, gravadas por Bahiano) e a prática anal (“Pela porta de detrás”, Odeon 108.130, ca. 1907, gravada por Mário Pinheiro e “Não empurre”, Odeon 108.527, ca. 1907, gravada por Bahiano) em contexto de iniciação sexual (“A velha quer acender a luz”, Odeon 108.841, gravada por Bahiano e por Eduardo das Neves), prostituição (“Tá gostoso”, Odeon 122.204, ca. 1920), adultério (“Não vou nisso”, Odeon 10.355, ca. 1908), falso-moralismo (“Esteja quieto”, Odeon 108.525, ca. 1907, gravada por Bahiano e por Mário Pinheiro, Victor Record 98.981, ca. 1908) e mesmo impotência sexual (“Urucubaca miúda”, Odeon 120.987, ca. 1920).


É provável que os âmbitos de circulação destas canções sejam o teatro de revista e os cafés-dançantes, concentrados na região central da cidade do Rio de Janeiro e mantidos por comerciantes, em geral portugueses. Pode-se ainda aventar a hipótese de que estas canções fossem interpretadas nos clubes de rancho, sendo estes três âmbitos os responsáveis pelo surgimento de nossa música popular. De qualquer forma, servem como resistência à cultura européia “encaixada” no modelo sócio-cultural de um país que mal adentrara no novo universo tecnológico-industrial. Sendo registradas num meio caro e de difícil acesso – o disco – é possível ainda que estas cançonetas tenham adentrado no interior das casas de família brasileiras. Certo é, porém, que o gênero vai degringolando gradativamente até o completo desaparecimento, coincidente com a ascensão do rádio como veículo de comunicação mais importante na divulgação de sucessos.




Coleção do autor

Referências:

FRANCESCHI, Humberto. “A Casa Edison e seu tempo”. RJ: Sarapuí, 2002, pp. 140-148.
SALIBA, Elias Thomé. A dimensão cômica da vida privada na república. In “História da Vida privada no Brasil – vol. 3”. SP: Companhia das Letras, 1998, pp.290-365.
Acervo fonográfico do IMS/SP.

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