domingo, 20 de julho de 2008

à la garçonne - comportamento feminino e mpb nos anos 20

Os estudos de gênero, desenvolvidos especialmente após os anos 60, debruçam-se sobre a situação de opressão e de humilhação a que a mulher era submetida nos primeiros decênios do século XX. No entanto, o discurso machista predominante em grande parte da produção da MPB – sobretudo na fase mecânica – parece disputar a atenção com uma revolução em surdina que se anunciava já no período imediatamente posterior à primeira grande guerra.

Assim, enquanto a mídia escrita brasileira – a mesma que nos anos 40 condenará Carmen Miranda em seu período americano – ocupou-se em divulgar manuais de comportamento da mulher ainda como “rainha do Lar”, senhora absoluta de seu “pequeno Estado”, a MPB reprovava as condutas efetivamente verificadas no cotidiano, demonstrando o estarrecimento masculino diante de um tipo de conduta que negava ao homem seu papel “superior” nas relações sociais, ao mesmo tempo em que prognosticava as reivindicações de igualdade dos sexos, antecipando um panorama geralmente legado à revolução da pílula, na década de 60.

Os anos 30 possuem diversos exemplos de músicas em que a mulher renuncia ao lar para emancipar-se: músicas gravadas por Raquel de Freitas (“Good-bye, meu bem”, Arte-Fone 4132-A, 1932), Carmen Miranda (“Dona Balbina”, Victor 33249-B, 1929; “Eu sou do barulho”, Victor 33397-A, 1930) e Odete Amaral (“Quem é que paga a gasolina”, Victor 34205-A, 1937) significam uma parte pequena desta produção, que não é o centro desta postagem.

Na verdade, foram os anos 20 a apresentar a crítica feroz (masculina) contra a liberação feminina, baseando-se nos cortes de cabelo femininos, na redução do tamanho dos vestidos e no uso da maquiagem. Deixando de lado a vasta produção dos anos 20 sobre o assunto (de que cito apenas alguns exemplos, como “Lóló”, Francisco Alves, Odeon 10179-A, 1928; “Melindrosa futurista”, Francisco Alves, Odeon 10560-A, 1930; “Meu sabiá”, Francisco Alves, Odeon 10235-A, 1928; “Que pequena levada!”, Francisco Alves e Rosa Negra, Odeon 10154-B, 1928; “Quem cala consente”, Francisco Alves, Parlophon 13.069-B, 1929; “Sofia”, Francisco Alves, Odeon 10180-A, 1928; “Tentação”, Francisco Alves, Odeon 10112-B, 1928; “Você quebrou”, Francisco Alves, Odeon 123.276, 1927), examinemos brevemente o caso.

“Se a moda pega!” (Odeon 123.025, ca. 1925, gravado por Fernando) apresenta uma ida de uma moça ao cabeleireiro, numa situação desconfortável por expor a nuca à mão do belo rapaz e, sobretudo, expor a nuca feminina à contemplação de outros homens. A conotação da canção é eminentemente erótica, sugerindo que o rapaz contemplasse a cliente “pela frente, por trás e de perfil”. Algo semelhante em “Coisas da moda” (Odeon 122.918, ca. 1923, gravado por Fernando), nítida reprovação masculina ao comprimento do vestido, que demonstra “que a mulher não sente mais frio, só calor”, e a “feiúra” das boquinhas vermelhinhas e dos cílios “como os meus” (i.e., como os masculinos, depois do uso da maquiagem). A reprovação ao corte à la garçonne é veemente em “Cangote raspado” (Odeon 10088-B, 1928, gravado por Francisco Alves). Neste maxixe, o corte de cabelo associa a mulher a um galo de briga, tornando equivalentes visual feminino e comportamento. Na verdade, estes artifícios são vistos, em geral, como meio de atingir o olhar masculino (“Tua saia é curta”, Odeon 10129-B, 1928, gravado por Francisco Alves), não como índice de liberação. O direito de escolha de um pretendente e mesmo a recusa ao namoro são vistos como frieza e maldade (“As meninas de hoje”, Odeon 122.116, ca. 1923, gravado por Bahiano). A recusa ao casamento ainda é condenada (“Tem que casar!”, Odeon 122.126, gravado por Bahiano).

Estas canções funcionam como os romances do século XIX, que atribuem à mulher um papel de coadjuvante de sua própria história, quando muito uma doidivanas que se deixa levar pelo instinto (e pelas más leituras) e acaba – como Emma Bovary, Luísa e Anna Karenina – vítima de sua própria "leviandade". Os anos 30 do século XX constituirão uma “virada no jogo”, anunciados pela magnífica escritora Ercilia Nogueira Cobra, que, em 1929, escreveu: “os homens no afã de conseguirem um meio prático de dominar as mulheres, colocaram-lhe a honra entre as pernas, perto do ânus, num lugar que, bem lavado, não digo que não seja limpo e até delicioso para certos misteres, mas que nunca jamais poderá ser sede de uma consciência. Nunca!! Seria absurdo! Seria ridículo, se não fosse perverso. A mulher não pensa com a vagina nem com o útero” (apud MALUF & MOTT, 1998, p. 399, n.25). Ainda bem!




Agradecimento especial ao Djalma, que me forneceu uma lista de exemplos.
Ilustração: "Tênis", de Vicente do Rego Monteiro, 1928.

Canções:
- “Mamãe me leva!”, por Arthur Castro e Brazilian Jazz Band, maxixe de Nabor Pires Camargo (Imperador 1.041, ca.1926);
- “Mão na roda”, por Fernando, coro e Jazz-Band Sul Americano Romeu Silva, samba de João da Gente (Odeon Record 123.033, 1926);

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Coleção Djalma M. C.

- “Mamãe eu vou com elle”, pelo Barítono Frederico Rocha e Orchestra Jazz-Band Pan American do Casino de Copacabana, marcha carnavalesca de Americo Jacomino (Canhoto) (Odeon Record 123.225, 1927);

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Coleção Djalma M. C.

- “Meu sabiá”, por Francisco Alves com Piano, Violino e dois Violões, canção sertaneja de J. L. Calasan [Calazans - Jararaca] (Odeon 10.235-A, 1928);

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Coleção Djalma M. C.

- “Corrente no pé”, por Orchestra dos Oito Batutas com Benicio Barbosa, samba sentimental de E. dos Santos (Donga) (Odeon 10.263-A, 1928);
- “Melindrosa futurista”, por Francisco Alves com Orchestra Pan American, marcha de Clovis Roque da Cruz, III. Prêmio do Concurso "Odeon", Carnaval 1930 (Odeon 10.560-A, 1930).

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Coleção Djalma M. C.

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