domingo, 20 de julho de 2008

Resenha crítica: Música em conserva...

Pixinguinha e os Oito Batutas, ca. 1922.

Minha geração não conheceu diretamente a circulação dos 78 rpm no mercado fonográfico brasileiro. Lembro-me de que, ainda criança, o único contato que tive com a produção musical dos anos 30 foi ouvindo, à revelia de meus pais e de coleguinhas, os LPs da Revivendo e uma ou outra Coleção da MPB. Em geral, estes LPs traziam as peças mais famosas, e se atinham, basicamente, a Noel, Carmen, Francisco Alves, Vicente Celestino, Orlando Silva ou outra estrela do rádio. Aracy Côrtes, Januário de Oliveira, Minona Carneiro, Olga Praguer Coelho, João Petra de Barros e o elenco de cantores da Casa Edison, por exemplo, eu só vim a conhecer adulto, graças ao milagre que foi a internet e a digitalização e disponibilização das coleções particulares.

Ao mesmo tempo que minha geração não viu os 78 rpm nas lojas de discos, teve a sorte de ter acesso um pouco (vejam bem, um pouco) mais fácil à produção discográfica brasileira. Já faz alguns anos que o IMS disponibiliza no seu site a Coleção Humberto Franceschi e José Ramos Tinhorão, que são instrumentos essenciais para compreensão de uma História da MPB, e fomentou a publicação sobre a história da Casa Edison. Além disso, há um número crescente de interessados que criticam discos e compartilham arquivos em sites pessoais e blogues. E por fim, o rio de informação que está nascendo por conta da recuperação e disponibilização de acervos, como o de Mário de Andrade.

Isto tem duas conseqüências: a primeira, óbvia, é que uma visão idealizada e parcial da MPB está desaparecendo. Minha geração é a primeira que não trata (ou não deveria tratar) os tempos antigos com o saudosismo típico do lugar-comum in illo tempore, nem se vale do darwinismo social, do pseudo-nacionalismo e do positivismo para fazer idéias absurdas vingarem, como o mar de tolices que (com todo o respeito) Humberto Franceschi escreveu nas últimas páginas de seu livro sobre a Casa Edison. A segunda conseqüência é que vem surgindo no meio acadêmico uma série de pesquisadores que, seguindo a linha de trabalho de T. W. Adorno, se debruçam sobre as origens da cultura de massa no Brasil. Como não tiveram contato direto com gente que fez (ou ainda faz) parte dessas origens, estes pesquisadores se valem do arsenal de informação sobre música para, de todas as formas, construírem suas versões dos fatos. Esclarecendo, eles se servem da documentação secundária sobre essas origens. Há mais livros sobre as primeiras décadas do disco no Brasil do que cantores daquela época que ainda estão vivos. Eu mesmo fiquei assustado com a foto do meu amigo e administrador deste blog Gabriel Gonzaga ao lado de Roberto Paiva. Quase todos os protagonistas daquela época já não estão mais entre nós. E até os 78 rpm originais estão desaparecendo (ou já desapareceram).

Neste sentido, um dos meus propósitos neste blog é divulgar as pesquisas desta nova geração, que em geral ficam guardadas nas bibliotecas universitárias aguardando leitura. Mas são trabalhos muito bons porque abrem portas para uma visão mais distanciada e técnica da produção musical brasileira. Pode ser que o século XXI nos apresente em detalhes o fenômeno de como a música brasileira, que comandou num primeiro momento o curso do mercado discográfico, inverteu sua posição em relação a este mesmo mercado e passou a obedecê-lo.

Interessantíssimo neste ponto é a pesquisa do Prof. Maurício de Carvalho Teixeira, intitulada “Música em conserva – arranjadores e modernistas de uma sonoridade brasileira” (disponível na Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tombo 219.997). Esta pesquisa trata das relações de Pixinguinha e Radamés Gnattali, na função de arranjadores da Victor e da Odeon nos anos 30 e 40, com a influência do jazz americano, e do olhar musicológico de Mário de Andrade sobre esta influência.

Sendo uma dissertação defendida (em 2001) na área de Letras, natural fosse que o autor relacionasse o tema com a literatura, identificando os vínculos entre Mário de Andrade e Pixinguinha. Isto se dá tanto pela análise da crítica musicológica de Mário de Andrade, registrada em tratados e nas capas de seus discos de música brasileira, quanto pela alegoria da influência da música estrangeira enxergada pelo autor no capítulo Macumba, na obra-prima Macunaíma.

Ficou-me, porém, qualquer coisa incômoda na leitura, que sobreleva a importância de Duke Ellington num processo que envolveu muito mais o fox-trot característico dos salões de dança posteriores à Primeira Guerra. O autor também oblitera o papel não obscuro de Romeu Silva e de Simon Boutman na formação de uma “identidade” da orquestra brasileira, ainda nos anos 20, bem como o papel dos discos mecânicos de selo vermelho da Casa Edison (um deles está postado abaixo, no artigo dedicado às mulheres, e traz uma gravação com a Jazz Band Sul-americana de Romeu Silva) e dos discos de fox-trot da Vocalion e da Victor americana que chegavam aqui. As relações entre a música de Eric Satie, Duke Ellington e a de Radamés e Pixinguinha me parecem muito mais fracas do que o surgimento da Jazz Band Sul-americana (cujo crooner era Fernando, que gravou muito na série 122.000 e 123.000 da Odeon) ou derivadas dela (Orquestra Pan American, por exemplo) e do direcionamento para uma sonoridade “nacional” dado pela Victor e pela Brunswick no mesmo período em que as orquestras regionais e o sotaque caipira vendiam às pencas os discos do Bando de Tangarás, de Augusto Calheiros e os Turunas da Mauricéia, as composições de Joubert de Carvalho (gravadas sobretudo pela iniciante Carmen Miranda), de Gastão Formenti e mesmo de Francisco Alves. Se existe um fenômeno curioso a ser estudado é a coexistência das grandes orquestras com os grupos regionais e seus papéis bem definidos no universo das gravações comerciais, e mesmo na seleção de um repertório consumido por um número cada vez maior de pessoas que viviam nas cidades. A influência do jazz parece encerrar-se nos instrumentos da orquestra, porque o repertório mesmo atendia apenas ao gosto do público por maxixes e sambas. Este pensamento coloca Pixinguinha no seu devido lugar de funcionário genial (atente para o grifo) das gravadoras Odeon e Victor, que lhe indicaram precisamente os rumos da “sonoridade brasileira” desejada em seus produtos. Prova-o o fato de que os instrumentos de acompanhamento orquestral provindos da música americana já estavam presentes, por outras razões que não Pixinguinha, nos discos mecânicos da série 122.000 da Odeon. Ou seja, Pixinguinha começou como arranjador quando este processo já havia se iniciado.

Quanto a Mário de Andrade, suas anotações nas capas dos seus discos de música brasileira(publicadas num livro pela Editora SENAC ao absurdo valor de R$ 89,00 - livro + 1 CD) revelam aquele lado da crítica que sempre mostrou quem era dando muito certo ao errar de longe seus alvos. Demonstram um lado conservador e, surpreendentemente, revelam como o pensamento de Mário podia revelar-se incrivelmente aburguesado. Imagino que hoje, se estivesse vivo, Mário odiaria ouvir Bebel Gilberto, Maria Rita e mesmo algumas coisas de Marisa Monte, três dos maiores ícones da música de consumo atual. Pior, criticaria a produção destas cantoras em nome de uma "tradição brasileira" que o brasileiro comum não sabe onde está e nunca ouviu. Pode ser que eu esteja enganado, mas o autor da dissertação também identificou alguma coisa neste sentido.

Fica, portanto, a recomendação da leitura da dissertação de Maurício de Carvalho, incentivando o constante questionamento a fim de verificar o papel sempre em transformação da cultura de massa americana sobre a brasileira.

P.S.: comparem-se as gravações de Fernando com a Jazz band sul-americana de Romeu Silva com este fox trot de Don Parker and His Band, gravação mecânica da americana Vocalion.


Coleção do autor

2 comentários:

Marcelo disse...

Caros pesquisadores, criadores do chiadofone,
gostaria de parabeniza-los pelo blog e por este precioso trabalho de pesquisa e acervo!
Fiquei bastante interessado na tese do Mauricio de Carvalho. Fiz uma pesquisa mas não consegui encontrá-la na web, agradeceria muito se vocês puderem me enviar o contato do prof, ou mesmo o pdf da tese, se for o caso.
mais uma vez parabens pelo trabalho e vida longa ao chiadofone!
marcelo

Charles Bonares disse...

Ne verdade, não temos nem o contato, nem o pdf da tese, cujo exemplar está disponível na biblioteca da FFLCH, situada à Av. Prof. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária, São Paulo - SP.