sábado, 2 de agosto de 2008

Circulação das cançonetas cômicas

Fachada do Teatro Recreio, 1929. Arquivo Nacional.
Retirado de ANTUNES, 2002.

Não conheço muito sobre a história da classe média urbana no Brasil. Tudo o que posso dizer se baseia, portanto, no legado da cultura urbana residente nas fotografias, nas peças e nas músicas do teatro de revista. Mas até hoje não entendo muito bem como se dava a circulação de cançonetas cômicas numa sociedade moralmente esganada como a nossa.

Os livros de História abordam, sobretudo, a formação das oligarquias cafeeiras do Centro-Sul e deixam-nos a ver navios em se tratando da burguesia urbana. É esta massa de comerciantes, profissionais liberais e imigrantes que deve ter composto o público do teatro de revista, considerado, desde meados do século XIX até a década de 50 do século XX, uma das mais importantes formas de divertimento, provável rival do rádio até o surgimento da televisão. Aliás, é possível que um meio tenha absorvido o outro, porque ainda hoje não é por acaso que programas como o Zorra Total e mesmo os derivados do Programa do Chacrinha utilizem cenários, coristas e quadros cômicos seguindo o modelo das revistas dos anos 50. Da mesma forma, muitos atores do teatro de revista acabaram incorporados pelo rádio, e foram as músicas do teatro de revista quem alimentou o rádio nos seus primórdios.

Toda esta conjuntura é resultado de uma pergunta que lancei há algum tempo na comunidade orkutiana do Bahiano e que se somou a uma conversa recente que tive com o Gabriel.

Primeiro, o que me pareceu claro é que as músicas do teatro de revista tinham ampla circulação. Todo mundo que viveu no Interior conhece os alto-falantes de praça que animavam as pessoas no passeio público de domingo. Inclusive, havia pessoas que viviam disso: colocando músicas no alto-falante. Eu mesmo me divirto até hoje com aquele Vicente Celestino soltando a voz no alto falante da praça naquele filme O Auto da Compadecida. Quer próximas, quer distantes dos centros urbanos, as pessoas tinham acesso aos sucessos pelo rádio, pelo disco ou pelo alto falante, quando fosse o caso. Daí deduzir-se que já havia, há coisa de 70 anos, uma espécie de “indústria cultural” que abastecia o gosto da classe média.

Segundo, o público do teatro de revista adquiria discos conforme os lançamentos do teatro de revista num fenômeno semelhante às nossas hit parades. Os dados são evidentes: um número grande de canções lançadas em peças que ficavam, em média, duas semanas em cartaz, gerando um subproduto – o disco – e alimentando a indústria fonográfica nos moldes da efemeridade dos sucessos. A pessoa ia ao teatro e também comprava o disco porque a revista logo depois já sairia de cartaz.

Terceiro, a classe média urbana não tinha apreço pelas manifestações artísticas ditas “sérias”, como a ópera. Nossa “tradição operística” nasce no século XVIII, mas foram os imigrantes italianos que consumiram – ou trouxeram – discos de ópera no Brasil do início do século XX. Os portugueses consumiam sucessos do teatro de revista, gênero que aliás o Brasil recebeu deles e dos vaudevilles franceses. Isto quer dizer que o gosto era orientado para um humor leve e fácil, e por isto as peças de enredo simples, tipos caricaturais da sociedade e músicas que atendessem a um gosto popular, formando um repertório de ritmos como o maxixe e repleto de piadas de duplo sentido – frutos de uma cultura resultante da distância da matriz intelectual européia e de uma tradição de exploradores de território e de mão-de-obra escrava, “modernizada” pela figura do nouveau-riche.

Quanto à natureza das canções, à medida que os textos das peças ligeiras enfraqueceram-se (fato constatado após o desaparecimento dos grandes nomes do teatro de revista, como Moreira Sampaio e Artur Azevedo), elas ganharam maior destaque nos quadros musicais. Estes se aproximaram dos ritmos populares e eram compostos por músicos oriundos do conservatório e mesmo pelos leigos das camadas menos favorecidas. Somando estes elementos à difusão do disco, pode-se aventar um roteiro de circulação das cançonetas cômicas.


Bahiano - Eu cá gosto (Odeon Record 122062)

2 comentários:

reimannfilho disse...

Olá pessoal.
Como colecionador, gostaria muito de ter a maioria dos álbuns, ou o correto seria dizer todos os albuns postados por vocês.
Mesmo com uma conta free do DivShare não consigo baixar.
Poderiam dar uma dica ?

Charles Bonares disse...

Olá, Reimann,

O Chiadofone não detem direitos autorais sobre as músicas que dispõe. Por isto, como escrito na apresentação do blog, os arquivos podem ser apreciados on line, mas não baixados.