domingo, 17 de agosto de 2008

Resenha crítica: Doces modinhas pra iaiá...


O único erro da dissertação do Prof. Jonas Alves da Silva Júnior (“Doces modinhas pra Iaiá, buliçosos lundus pra ioiô: poesia romântica e música popular no Brasil do século XIX”, disponível na Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tombo 269.082) é justificar como trovadoresca (aqui, na acepção que o termo recebe na História da Literatura) a atitude dos poetas e músicos brasileiros românticos. Na tentativa de forçar uma relação entre poesia e música para uma conjuntura semelhante entre nós, brasileiros, e trovadores italianos e franceses do século XII a XIV (!), o autor eliminou as evidentes diferenças de contexto e simplesmente apagou as substanciais alterações de caráter musical e poético, operadas na mudança de uma sociedade feudal para uma sociedade de corte. Mesmo as produções culturais de ambos os contextos são essencialmente diferentes – para os europeus do século XVI e XVII, a ars noua e a polifonia geram o madrigal e fundamentam gêneros como a ópera (o cantar col canto chi parla de Giulio Caccini, bem como as atividades dos membros da Camerata Fiorentina e a seconda pratica de Monteverdi, presente nos seus livros de madrigais e nas três óperas suas que chegaram aos nossos dias); entre nós, a relação entre poesia e música no século XIX lega os dois primeiros ritmos de criação nacional: o lundu e a modinha.

De resto, o trabalho é um primor de beleza e rigor nas fontes de dados. Fundamenta-o a pesquisa sobre a Sociedade Petalógica do Rossio Grande, liderada por Francisco de Paula Brito e situada num prédio (adivinhem onde) na Praça Tiradentes. Freqüentada por literatos do calibre de Gonçalves Dias, Araújo Porto Alegre, Joaquim Manuel de Macedo e Casimiro de Abreu, e de músicos como Xisto Bahia, a Sociedade cumpriu a função de ampliar e divulgar para o grande público a produção poético-musical brasileira na segunda metade do século XIX.

O autor levanta a produção de modinhas dos membros da Sociedade através da consulta às partituras publicadas pela Tipographia Paula Brito e analisa, posteriormente, estas composições sob o ponto de vista técnico-musical e literário. Por ele sabemos, por exemplo, que Laranjas da Sabina (Aluísio de Azevedo) data de 1890 (gravada por Pepa Delgado, Odeon 40.350, ca. 1907); que Meus oito anos (Gonçalves Dias) foi musicado por Silvino Neto, em 1907; que A casa branca da serra foi composta por Guimarães Passos e musicada por J. C. de Oliveira, em 1893 (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 40.139, ca. 1907 e depois por Paraguassú, Columbia 5062, 1929) e que Gosto de ti porque gosto (Paula Brito) foi musicada por Cunha dos Passos (no selo da gravação de Mário Pinheiro, consta como autor o Catulo da Paixão Cearense... estranho, enfim... gravada por Mário Pinheiro, Victor Record, 98.947, ca. 1910 e por Cadete, Odeon 108.504, ca. 1910)

O disco preservou muitas destas composições que, se não gravadas, hoje não conheceríamos. Caso de Pálida Madona, de Castro Alves (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 40.563, ca. 1907), Saudades (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 121.327, ca. 1913), Gondoleiro do amor (Castro Alves e Salvador Fabregas, gravada por Mário Pinheiro, Odeon 108.193, ca. 1910; Victor Record 99.720, ca. 1910; e ainda por Artur Castro na Phoenix, 283, e por Olga Praguer Coelho, na Victor, 34.105, 1936), Tirana (gravada por Olga Praguer Coelho, Victor 34.088-B, 1936), Mucama, de Gonçalves Crespo (gravada por Patrício Teixeira, Odeon 10.083-A, 1927), Canção do exílio, de Gonçalves Dias (gravada por Bibiano Tabino, Phoenix 120, ca. 1913), Amanhã (gravada por Bahiano, Odeon 108.520, ca. 1910).

O trabalho não apenas é ilustrado, como traz um CD anexo com gravações atuais destas modinhas e lundus. Essencial.





Discos: Coleção Djalma M.C.





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