sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um antecessor de Mário Reis

Partitura musical da Jazz Band Sul-Americana, publicada pela Casa Carlos Wehrs;
ao fundo, Fernando com o violino.

Antes de Mário Reis, o cantor que mais se aproximou de um ritmo coloquial da fala em sua postura musical foi o Fernando. Mais até que Bahiano, nosso pioneiro, que compensava sua deficiência vocal com um tempero safado na conversa ambígua entrecortando suas melodias. O Fernando, assim nomeado nos selos da série 120.000 e 123.000 da Casa Edison, se chamava na verdade Fernando de Albuquerque. Era de boa família – como Mario Reis – e se embrenhou num tipo de música popular a que a elite carioca torcia o nariz.

Fernando foi crooner da Jazz Band Sul Americana, liderada por Romeu Silva, e acompanhou esta orquestra até a década de 30, mesmo depois de ter deixado abruptamente o universo das gravações (ainda mecânicas), em 1926. Seu estilo era “desempostado”, displicente e informal, bem ao gosto do jazz dixieland predominante na década de 20. Conviveu com outros crooners importantes, entre os quais Albertino Rodrigues, Artur Castro, Pedro Celestino e o (ainda novato) Francisco Alves, estribilhista da Jazz-Band Pan American do Cassino Copacabana.

Sua geração, à diferença dos pioneiros Bahiano, Mário Pinheiro e Eduardo das Neves, foi a primeira a voltar-se para um repertório urbano e dançante, e que se rendeu ao banjo e ao saxofone introduzidos via EUA e França no maxixe e no choro.

Fernando é um pioneiro por ousar-se numa pronúncia carioca do português, acentuado depois por Artur Castro e por Mário Reis. Gravou 72 músicas para a Casa Edison, lançando canções de Caninha, João da Gente, Freire Júnior, Tuiú, Osvaldo Menezes e, claro, Sinhô. Lançou, entre outros, sucessos como Zizinha, Pinta, pinta, melindrosa, Roupa na corda, e, aqui presente, Dor de cabeça (Odeon Record 122.760, 1925), de Sinhô.

A última notícia que tenho sobre ele é que, em 1939, ele deu uma gaita de presente a Edu da Gaita, depois de voltar com a dita gaita da Exposição Universal de Nova Iorque. Nesta altura, talvez já não cantasse mais com a Orquestra de Romeu Silva.

P.S.: no post sobre comportamento feminino, há outra gravação com Fernando.
Fonte deste post: GIRON, 2004, pp. 14-24.


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