quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Resenha crítica: Caymmi sem folclore


O Chiadofone hoje faz a apreciação do trabalho do Prof. André Domingues dos Santos, denominado "Caymmi sem folclore" (dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e arquivada na Biblioteca da mesma Faculdade, tombo 306.754).

A obra trata do período de produção do compositor durante 1938 a 1959. Neste período, correspondente aos primeiros 20 anos da produção musical de Caymmi, desenvolveram-se e se solidificaram suas três tendências de composição, a saber, as canções praieiras (19 canções), os sambas baianos (18 canções) e os sambas-canção (15 canções).

A principal contribuição do trabalho de André Santos é o reconhecimento de que a obra de Caymmi, com efeito, manteve-se periférica ao mercado musical do período em que foi majoritariamente composta. Caymmi, ademais, não possuiu “mestres” nem “seguidores”, mas, ao mesmo tempo, sempre possuiu grande reverência dos mestres dos mestres – Tom Jobim e João Gilberto, por exemplo.

Esta introdução ao trabalho de André partiu da quebra de dois estereótipos ligados a Caymmi por conta de sua obra: a do boêmio carioca dos anos 40 e 50 e a do baiano devoto de Iemanjá. O processo é curioso. Por meio da análise do contexto sócio-cultural do Rio de Janeiro quando da chegada de Caymmi àquele lugar, em 1938, André conclui que o compositor lidou muito bem com o ideário nacional sobre a Bahia e com o universo cultural cosmopolita do Rio de Janeiro.



Ademais, analisando a estrutura melódica das canções de Caymmi, o autor da dissertação encontra harmonizações jazzísticas combinadas a ritmos brasileiros. Caso exemplar disso é “Marina” (gravada por Francisco Alves, Odeon 12773B, 1947). Trata-se de um parâmetro novo convivendo com um tradicional.


discos: coleção Djalma M.Cm.
Carmen Miranda e Dorival Caymmi - A preta do acarajé (Cena típica baiana, Odeon 11710B, 1939).
Dorival Caymmi - O mar: parte i e ii (Canção, Columbia 55247, 1940).
Dorival Caymmi - Navio negreiro (Samba jongo de Alcir Pires Vermelho, J. Piedade, Sá Roris, Odeon 11850A, 1940).
Dorival Caymmi - A jangada voltou só (Canção, Odeon 13732A, 1954).
Anjos do Inferno - Requebre que eu dou um doce (Samba, Continental 15024B, 1943).
Dorival Caymmi – Dora (Canção, Odeon 12606A, 1945).
Francisco Alves – Marina (Samba canção, Odeon 12773B, 1947)
Leo Belico – Maracangalha (Samba, RCA Victor 80.1733B, 1957)

2 comentários:

Eduardo disse...

A fase "Caymmi urbano" é algo que ele mesmo definiu como "para pagar as contas"; e como pagou, com maravilhas como "Marina", "Sábado em Copacabana", "Não tem Solução" e outras do mesmo calibre.
O intérprete ideal para elas foi Dick Farney, cuja essência jazzística e refinamento artístico resumem e dizem tudo sobre a excelência desse Caymmi de Copacabana.

Trujillo disse...

Interessante. Alem de um texto claro, nos acorrenta com a narrativa. Espero ler mais!
Abrcs