quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Colombina e seus amores

Como prometido há mais de um mês, um artigo sobre COLOMBINA E SEUS AMORES. A intenção não é de fazer deste assunto uma monografia; será apenas uma breve exposição sobre o tema. A presença dos personagens da Comedia dell' arte na música brasileira, e a "adaptação" dos mesmos ao nosso Carnaval, seria assunto suficiente até mesmo para um livro (se é que já não o foi).


Anúncio datado de 1927: uma visão mais moderna do Pierrot aos pés da Colombina

É um assunto farto para quem tem muito tempo para pesquisas - o que não é o meu caso. Basta dizer que estes dois interessantes anúncios publicitários, dos bailes no Beira-Mar Casino e das Massas Aymoré, foram extraídos de uma mesma revista, datada de janeiro de 1927! Portanto, é de se imaginar a quantidade de informações que poderiam ser levantadas em uma pesquisa cuidadosa. Pesquisa que abrangeria inclusive as três décadas de gravações acústicas/mecânicas brasileiras (de 1902 a 1927), acervos fotográficos sobre desfiles e bailes de sociedades carnavalescas, o carnaval de rua e, provavelmente, até mesmo o teatro de revista... Pelo motivo já apresentado, apenas farei comentários sobre algumas gravações em discos 78 rpm das décadas de 1930 a 1960 que estão presentes em meu acervo.


Outro anúncio de 1927: a morte espreitando os foliões de outrora (!!!)

As figuras do arlequim, da colombina e do pierrot começaram a aparecer no nosso carnaval como uma forma de "sanitizar" esta festa e mostrá-la mais "civilizada", distanciando-a do carnaval de rua e do entrudo, mais desregrado e até violento. Entram em cena num momento em que o samba deixa os morros e começa a frequentar as rodas da alta sociedade, e gozavam de boa reputação porque tinham sido assimilados à ópera.


("Serenata d'arlecchino", ato II cena II da ópera I pagliacci, de Leoncavallo, com Tito Schippa e "Pierrot' serenade", solo de violino por Jan Kubelick. Col. Charles Bonares)

Da fase das gravações acústicas/mecânicas, nada escreverei por falta de material (leia-se "DISCOS") que fale sobre a Colombina ou seus dois amigos. De qualquer forma, quem visitar o acervo online do Instituto Moreira Salles, poderá encontrar uma porção de gravações sobre o assunto.

Começaremos, portanto, em 1930.





SERENATA DE PIERROT
(V. Monti - C. Clansetti)
gravado em São Paulo em agosto de 1930
lançado em setembro de 1930

Paira um vago encanto
Sobre o mundo em flor
E há perto d'um canto
um fremito de amor
Misteriosa e pura
uma voz murmura
Com ternura,
uma canção de amor


Celestino:
A noite encanta, prende e fascina
Soluça e canta na alma do luar
Oh Colombina da noite escura
Tu és divina, faz-me sonhar


Annita:
Com ternura, uma canção de amor
Celestino:
De amor, de amor


Annita Gonçalves

Annita Gonçalves? Até agora, a única informação que eu tinha sobre ela era uma singela observação: "Soprano paulista". Uma rápida consulta pelo Google nos revela ao menos um dado interessante, no site dedicado a ninguém menos que Villa-Lobos! Não deixem de visitar ambos os links:

http://www.museuvillalobos.org.br/villalob/cronolog/1931_40/index.htm
Neste primeiro, uma interessante cronologia ilustrada, que menciona em 1931 a "Caravana de Arte Brasileira", e nos revela que "...Fazem parte da Caravana os pianistas Lucília Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Antonieta Rudge Müller e João de Souza Lima; o violinista belga Maurice Raskin; e as cantoras Nair Duarte Nunes e Annita Gonçalves...".

http://www.museuvillalobos.org.br/villalob/cronolog/1931_40/foto_01.htm
E aqui, um cartaz com fotografia de alguns membros da Caravana, incluindo Annita Gonçalves.

Quanto ao cantor, é o próprio Celestino Paraventi mencionado no livro "Olga", de Fernando Morais. Celestino teve um importante papel na vinda de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes ao Brasil em 1930, tanto apoiando financeiramente, como até dando abrigo em uma casa de campo na região da represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo; Celestino ficou preso por alguns meses após a Intentona Comunista de 1935, por acusações de receber do exterior grandes quantias em dinheiro em seu nome e que, segundo o governo, eram repassadas ao Partido Comunista.

O Tenor Celestino Paraventi era empresário do ramo cafeeiro, proprietário do pioneiro Café Paraventi, localizado na então elegante rua Quinze de Novembro, no centro de São Paulo. E uma curiosidade: segundo depoimento prestado pelo próprio Celestino ao autor do livro "Olga", importou a primeira máquina italiana de café expresso do país.

O prestígio do Café Paraventi ficaria registrado na popularíssima revista carioca "O Malho" nº 1.448, de 14/06/1930, onde foi publicada uma nota ocupando metade da página 44, sobre a abertura da filial carioca do Café Paraventi. O inteiro teor da nota, mantida a ortografia original, é o seguinte:


legenda original: "A nova filial do Café Paraventi no Rio de Janeiro"

"Esta conhecida organização, cujo prestigio se firmou na capital de São Paulo pela sua tradicional probidade e pela maneira com que sabe reputar a sua excellente marca, acaba de installar nesta capital, no edificio da Central do Brasil, uma filial devidamente apparelhada para servir ao publico carioca com a presteza e facilidade que o consumo do seu artigo e consequente vulto dos seus negocios, dia a dia está a exigir.

Merece especial registro, a maneira intelligente pela qual, fazendo a sua propaganda, o "Café Paraventi" procura patrioticamente acreditar a maior riqueza nacional, o café paulista."



Como cantor, teve 14 gravações lançadas em 08 discos Parlophon e Odeon, cujo repertório era baseado em canções e valsas. Obteve grande sucesso em 1930 com o disco Parlophon 13.223, no qual foram lançadas as valsas "Tardes em Lyndoia" (de Zequinha de Abreu e Pinto Martins, gravada em 11/08/1930) e "Longe dos olhos" (de Zequinha de Abreu e Salvador Moraes, gravada em 15/08/1930). As matrizes, ambas gravadas em São Paulo, foram relançadas em julho de 1933 no disco Odeon 11.022. Referido disco, surpreendentemente, ainda era prensado no final da década de 1940! Por falta de fontes, não tenho como afirmar se ele permaneceu disponível no catálogo da Odeon por uma década e meia, ou se foi novamente relançado em 1947/1948; minhas únicas fontes são os discos: o Parlophon original, e o Odeon 11.022 com as mesmas matrizes do original, prensado com o inconfundível selo roxo e dourado usado em 1947 e 1948.



De qualquer forma, Celestino Paraventi pode ser considerado um privilegiado, por ser um cantor com apenas 08 discos lançados, e que conseguiu ter um disco gravado em 1930, ainda à venda quase na era do LP e da fita magnética. Uma ressalva: não devemos nos esquecer que são duas composições do popularíssimo Zequinha de Abreu, o que certamente influiu no sucesso do disco.

Bem, voltando ao nosso assunto: Colombina parece ter se cansado de apenas enganar Arlequim e zombar de Pierrot. Arquétipo talvez comparável às flappers do cinema mudo que já faziam a cabeça das mulheres no seu ideal de amor despreocupado, numa ousada "afronta aos costumes" da época, Colombina também serviu para representar um ideal de libertação feminina durante o carnaval. Uma letra muito interessante sobre a "igualdade" entre homens e mulheres no carnaval é a marcha "Viram meu amor por aí?", de Walfrido Silva e Roberto Martins, que foi a estréia de Aracy de Almeida no rádio, gravada por Jonjoca e "Pixinguinha e sua Orchestra" na Columbia, tendo no coro Castro Barbosa e a inconfundível participação da novata Aracy de Almeida. Não tenho este disco raro (alguém tem e quer vendê-lo?...), e deixo aqui meu agradecimento ao colecionador paulistano Roberto Gambardella por esta gravação.

VIRAM MEU AMOR POR AHI?
lançamento: janeiro de 1934

Viram meu amor por aí
Saiu de casa e ainda não voltou
Se fantasiou de palhaço
Caiu na farra e não me ligou

Se ela pensa que fiquei chorando
se enganou porque estou zombando
No Carnaval os direitos são iguais
Ela cai na farra e eu vou logo atrás

Eu já não ligo, vou me divertindo
Sem abusar irei me distraindo
Tenho razão e direito de brincar
Quero alegria pois não sei chorar

Sobre o assunto, deixo a dica: vejam também o artigo do Charles: à la garçonne - comportamento feminino e mpb nos anos 20).

Não pude identificar nenhuma colombina nem algum pierrot "perdido" no meio do repertório dos primeiros carnavais da década de 1930. Já para o carnaval de 1934, Mario Reis gravaria uma marcha do grande Lamartine Babo que, mesmo com letra curta e singela, passaria a ser um clássico. No coro, a voz de Carlos Galhardo aparece com destaque.


Capa do LP de Arrelia e Lamartine Babo

Foi regravada em 1958 pelo palhaço Arrelia e pelo próprio compositor, acompanhados pela Bandinha de Altamiro Carrilho, em LP e disco 78 rpm da gravadora Copacabana. O LP foi batizado "Ride palhaço".



RIDI... PALHAÇO...
data da gravação: 08/11/1933
lançamento: janeiro de 1934

Ride palhaço

Eu sou o teu Pierrot
Colombina...
Colombina...
Reparte esse amor
Metade pra mim,
metade pro seu Arlequim



ficha técnica da gravação

No ano seguinte, Lamartine Babo insiste no Pierrot, e acaba criando mais um enorme sucesso, novamente contando com os magníficos Mario Reis (ao microfone) e Pixinguinha (dirigindo a orquestra "Diabos do Céo").



RASGUEI A MINHA FANTASIA
data da gravação: 27/11/1934
lançamento: janeiro de 1935

Rasguei a minha fantasia
O meu palhaço cheio de laço e balão
Rasguei a minha fantasia
Guardei os guizos no meu coração

Fiz palhaçada o ano inteiro sem parar
Dei gargalhada, com tristeza no olhar
A vida é assim... A vida é assim...
O pranto é livre, eu vou desabafar

Tentei chorar, ninguém no choro acreditou
Tentei amar, e o amor não chegou
A vida é assim... A vida é assim...
Comprei uma fantasia de Pierrot



ficha técnica da gravação

Carmen Miranda alcançou o estrelato enquanto artista da gravadora Victor, a "marca do cachorrinho", mas em 1935 assinou contrato com a Odeon. À dupla de compositores Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti coube a honra de compor as duas músicas do primeiro disco Odeon de Carmen, a marcha "Foi numa noite assim" e o samba "Queixas de Colombina", duas peças belíssimas. Sobre esta música, o pesquisador Abel Cardoso Junior escreveu: "Também intitulado samba-romântico, este samba-choro é ponto altíssimo no repertório de Carmen. Os autores recriam com maestria a velha história de Pierrô e Colombina."



QUEIXAS DE COLOMBINA
data da gravação: 01/05/1935
lançamento: junho de 1935

Meu Pierrot, és a menina dos meus olhos tristes
E minha dor, chorar não posso pois de mim fugiste
Arlequim teve meus beijos de febril paixão
Porém é teu, somente teu meu pobre coração

Já não ouço mais os madrigais
que tu cantavas à luz do luar
Já não tenho mais a minha vida
iluminada pelo teu olhar
A tua voz só serve agora para soluçar
Teus olhos claros como a luz do sol
já se apagaram de tanto chorar
meu Pierrot...

Toma o lenço, enxuga esse teu pranto
Olha para mim sorrindo, oh meu Pierrot
E prende esse soluço na garganta
e vem cantar comigo o nosso amor
Oh meu Pierrot, o meu passado todo esquecerei
Só quero agora ter-te nos meus braços
pra dar-te o beijo que nunca te dei
meu Pierrot...

André Filho, inspirado compositor, gravado pelos maiores nomes da década de 1930, como Aurora Miranda, Carmen Miranda, Francisco Alves, João Petra de Barros, Jayme Vogeler, Sylvio Caldas, também deixaria sua voz registrada em quinze discos em todas as grandes gravadoras da época. Dentre suas gravações, o grande sucesso foi "Cidade Maravilhosa", em dueto com Aurora Miranda na Odeon, mas encontramos muitas raridades e também surpresas como "Anduê Anduá", um ponto de macumba em disco Parlophon, dueto com um tal "Marolino Silva e a Embaixada do Engenho de Dentro"... Ao ouvir o disco, a surpresa: canta com André Filho ninguém menos que J. B. de Carvalho, ainda iniciante em discos, mas que em breve se tornaria em um expoente do gênero de pontos de macumba/umbanda. A sonoridade da tal "Embaixada do Engenho de Dentro" não deixa dúvidas: é o famoso Conjuncto Tupy de J.B. de Carvalho, tão presente nos discos Victor e Odeon dos anos 1930.

Quanto ao uso de pseudônimos, nenhum espanto: Moreira da Silva também gravaria macumbas na Parlophon ("Pisa no tôco" e "Quilombô", ambas de Getulio Marinho "Amôr"), saindo no selo do disco como "João Quilombô" acompanhado pelo misterioso grupo "Gente de Lá"... Raridade fonográfica que em breve irá ao ar aqui, no Chiadofone.



CADÊ A MINHA COLOMBINA
data da gravação: 23/12/1935
lançamento: fevereiro de 1936

Minha Colombina!
vem consolar teu tristonho Pierrot
Eu já não ouço a canção divinal
que cantavas pelo Carnaval

Não ouves mais a voz tristonha
A voz do teu Pierrot sentimental
Cadê a minha Colombina multicor
que era o meu eterno carnaval

Perdi a minha Colombina
A minha Colombina original
Cadê a minha Colombina multicor
que era o meu eterno carnaval

Sim, naquele ano de 1936, a COLOMBINA MODERNA esteve ao alcance de todos: nesta nova composição da dupla Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, além do Dominó e de algum ricaço "coronel", um palhaço, um malandro tipo nacional, e pelo visto até um infame Apache (assim que possível, escreveremos sobre os apaches e as gigolettes) tiveram lá sua sorte!



COLOMBINA MODERNA
data da gravação: 18/01/1936
lançamento: janeiro de 1936

Fui ao palácio encantado
Do meu Papai Carnaval
Lá encontrei Colombina me traindo
com um malandro tipo nacional

Antigamente a Colombina
repartia o seu amor
Com os beijos de Arlequim
e os versos de Pierrot
Mas hoje a Colombina pega todos no laço
Já tem uma aventura com um Palhaço

Por causa dela houve uma briga
entre o Apache e a Gigolette
Travou-se uma batalha,
batalha de confete
E até a própria Lua
vendo a festa formada
Caiu na farra até de madrugada

Ainda em 1936, Pierrot levaria um "fora" enorme após uma memorável bebedeira de Colombina, que foi um acontecimento tão notável que se transformou num sucesso carnavalesco cuja fama vem atravessando décadas.



PIERROT APAIXONADO
data da gravação: 26/12/1935
lançamento: janeiro de 1936

Um pierrot apaixonado
que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu "assim, assim"
Dizendo: Pierrot cacete,
Vai tomar sorvete com o Arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim
com o pierrot aconteceu assim
Levando esse grande chute
foi tomar vermute com amendoim

Provavelmente, uma parte deste sucesso é devido ao registro presente no histórico filme da Cinédia-Waldow, "ALLÔ ALLÔ CARNAVAL!":





Na cópia restaurada do filme (cujo lançamento em DVD está sendo aguardado há pelo menos CINCO ANOS...), o final fica por conta da antológica cena "Cantoras do rádio" mas, originalmente, o filme encerrava com Francisco Alves em "COMPREI UMA FANTASIA DE PIERROT". Aqui vai apenas o trecho do filme, pois não tenho o disco.





No carnaval de 1937, a "modernidade" (num sentido pejorativo?) da Colombina ficaria registrada em uma deliciosa marcha, e os felizardos da vez foram o Dominó e até um certo "coronel". Tudo bem, em 1936 a farra foi tão grande que, depois daquilo, nada mais espantaria. Ainda assim, os zelosos compositores não se esqueceram de relatar que aquele seria o final da "história eterna".



"COLOMBINA DA FUZARCA"
1937

A Colombina brigou com o Arlequim
Brigou com o Pierrot, ô ô
Mas não podendo viver só
Foi procurar o pacato Dominó

Pierrot virou valente
Arlequim deu pra chorar
Colombina sorridente
chamou um guarda para apaziguar

Colombina é moderna
Hoje tem seu coronel
Acabou-se a história eterna
Os outros dois foram vender pastel...


Observação: já foi publicado o outro lado deste disco, "São Paulo Grandioso"

No carnaval de 1938, encontramos um Pierrot dotado de uma auto-confiança inédita:



PIERROT MODERNO
data da gravação: 26/10/1937
lançamento: janeiro de 1938

Sigo nesta escala toda a vida
Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó"
Catarina!
Sigo nesta escala toda a vida
Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó"

Estou treinando a voz
pra ser um bom cantor
Em noites de luar
ir cantar pro meu amor

Eu sou Pierrot moderno
que não teme Arlequim
ouvindo o meu cantar
Colombina vem pra mim


Mas os tempos mudam, não é mesmo? Vejamos agora o que já se ouvia no carnaval de 1940... A gravação foi originalmente lançada no selo Columbia, disco 55.187. Das trinta músicas gravadas por Francisco Alves na gravadora Columbia, entre 1939 e 1941, apenas três não foram relançadas; cinco seriam relançadas pela gravadora Continental ("herdeira" da Columbia) nos anos de 1943 a 1945, e as outras vinte e duas matrizes voltariam ao mercado em outubro de 1952, logo após a morte de Francisco Alves, o que é o caso do disco a seguir. A "Orquestra" presente no disco Continental é um resumo de "Kolman e a Orchestra do "Casino da Urca".



TRISTE PIERRÔ
lançamento original da matriz: dezembro de 1939 (disco Columbia)
relançamento em disco Continental: outubro de 1952

Há quanto tempo saudoso
procura em vão Colombina
Desiste Pierrot, não cantes assim
O tempo mudou, não há mais Arlequim
A Colombina já não é mais aquela
Toca tamborim e mora na Favela

Os personagens do teu drama de amor
já não lembram mais da tua dor
O Arlequim é um malandrinho bamba
e a Colombina é francamente do samba

Ao longo da década de 1940, Colombina e companhia ficaram meio esquecidos; em parte, pela constante exaltação ao Brasil e ao trabalho ("Cem por cento brasileira", "Mulato patriota", "Brasil pandeiro", "Tudo tem o Brasil", "Onde florescem os cafezais", "Tudo é Brasil", "Artigo nacional" e muitas outras, além das óbvias "Aquarella do Brasil", "Canta Brasil" e "Brasil moreno"). Quem analisar o repertório do período irá notar uma grande quantidade de referências implícitas e explícitas à guerra e às conturbações do cenário político mundial ("O Danubio... azulou!", "Adolfito mata-moros", "Paris sorrirá outra vez", "O mundo vai melhorar", "Vitoria", "China", "Prece de paz", "Nós das Americas", "O V da Vitória", "Alô, Tio Sam!", "Coitadinha da Sicilia", etc). E seria impossível deixar de mencionar o fim da Praça Onze, assunto que rendeu grandes clássicos, mas foi explorado à exaustão e deu chance ao surgimento de letras nada originais, como vocês poderão ver na excelente série de artigos elaborados pela amiga e pesquisadora Daniella Thompson, Praça Onze in Popular Song.

Pierrot? Bem, ele se revoltou (Colombina que se cuide...) e voltou a ser sucesso em 1948, mais uma vez na voz de Francisco Alves.

No geral, os selos Odeon daquele carnaval são muito sensíveis, e por isso mesmo quase todos que encontrei até hoje estão com a impressão desbotada, como verão no próximo disco. Desde o início do blog, achamos interessante que os leitores buscassem a informação diretamente no selo (como faria alguém com o disco em mãos!), mas no presente caso todos os dados foram transcritos.



RASGUEI O MEU PIERROT
marcha
(Haroldo Lobo - David Nasser)
FRANCISCO ALVES
com Orquestra Odeon,
direção de Guari

data da gravação: 04/12/1947
lançamento: janeiro de 1948

Rasguei o meu pierrot
o meu pierrot de cetim
Só porque eu encontrei a Colombina
Cantando "assim" com o Arlequim

Esta noite eu tive um sonho com você, Pierrot
Mas chegou o Arlequim, o sonho se acabou




OS CONFETIS DE ARLEQUIM
data da gravação: 11/11/1948
lançamento: janeiro de 1949

És bonita mas o mundo é mesmo assim
Culpado é quem acredita nos confetes de Arlequim

Não tenho jeito a dar
Vá tomar um drinque, um coquetel
Tudo foi ilusão
Confetes pelo chão
Rodinhas de papel




SERPENTINA
data da gravação: 09/10/1949
lançamento: janeiro de 1950

Guardo ainda bem guardada a serpentina
que ela jogou
Ela era uma linda Colombina
E eu, um pobre pierrot

Guardei a serpentina que ela me atirou
Brinquei com a Colombina até as sete da manhã
Chorei quando ela disse "vou-me embora
até amanhã, Pierrot, até amanhã"


Aproveitamos a oportunidade para "revivermos" o quinto disco dos Demônios da Garoa, na gravadora Elite Special. O famoso grupo vocal paulistano tem muita história para contar além de "Samba do Arnesto", "Trem das Onze" e "Saudosa maloca".



POBRE COLOMBINA
carnaval de 1951

É inútil negar o pranto, Colombina
É fútil, todos lamentam sua sina
Retira, retira a máscara do rosto
Carrega o peso do desgosto e da dor
Pierrot já tem um novo amor

Você quis zombar do pobre Pierrot
Quis ludibriar quem muito lhe amou
Agora chora chora Colombina
E esconde o pranto atrás desse
farrapo de cetim
É grande a lição que a vida ensina
Você perdeu o Pierrot e o Arlequim


E para aquele mesmo carnaval de 1951, pela mesma gravadora:



POBRE PIERROT
carnaval de 1951

Pobre pierrot,
que desilusão ele passou
Trabalhou durante o ano inteiro
Pra poder juntar algum dinheiro
Quando chegou o carnaval
ficou doente, passando mal

A Colombina chorou, chorou
Chorou que dava dó
Vendo o pobre Pierrot
passar o carnaval tão só

Não chora, Pierrot
Fica em paz
No ano que vem tem mais


Mais uma surpresa aos nossos leitores: uma marcha de carnaval gravada por Leny Eversong, cujo repertório sempre foi mais dedicado ao fox, desde o início de sua carreira. Vítima do esquecimento que assola boa parte dos grandes intérpretes da era do 78rpm, depois de morta foi "envolvida" numa polêmica em torno da internacionalmente conhecida composição "Águas de março" de Tom Jobim. Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, publicada em 25/05/2001, esta seria um plágio de "Água do céu", composição de Inara Simões de Irajá gravada por Leny num raro e obscuro LP da gravadora Copacabana, "5 estrelas apresentam Inara", que contou com Inezita Barroso, Leny Eversong, Elizete Cardoso, Marita Luizi e Juanita Cavalcanti.


Em breve, talvez, "Água do céu"...



POBRE PIERRÔ
lançamento: janeiro de 1953

Pobre pierrot
vive tão desprezado
coitado, coitado
A Colombina lhe deixou abandonado

Fugiu com Arlequim no outro carnaval
O amor é mesmo assim, termina sempre mal
O pierrot chorou, chorou
E a malvada Colombina nunca mais voltou


Em meio à decadência generalizada da música de carnaval, que foi dando seus sinais ao longo da década de 1950, chegamos aos dois últimos discos deste artigo. Pela época em que foram gravadas, até que as músicas podem ser consideradas boas...



RI
carnaval de 196_

Ri deste palhaço
Deste palhaço que não quer mais amar
Ri deste palhaço
Deste palhaço que não quer mais chorar

Já é antigo, já é passado
Bancar o bobo para se contentar
Agora chora, oh colombina
que este palhaço não quer mais chorar




FIM DA COLOMBINA
carnaval de 1964

A Colombina está tristonha
Sozinha no salão
À procura do Pierrot
que ainda mora no seu coração

Mas o Pierrot magoado
Por causa do Arlequim
Diz que passou, é passado
A Colombina já chegou ao fim


ACRESCENTADO EM 16/12/2008:

Um recado aos leitores que tiveram tempo e paciência para ler o artigo e chegar até aqui. Confesso que eu não estava contente com o fato do artigo terminar de forma tão abrupta. Então, escolhi finalizá-lo não com um disco, mas com Chico Buarque, Nara Leão e MPB-4 cantando na TV Record no ano de 1967: "Noite dos mascarados".

3 comentários:

Danilinn disse...

Vocês são realmente rápidos, eu perguntei sobre os Demonios Da Garoa e fui presenteado com essa maravilhosa marcha.Muito Obrigado!

Charles Bonares disse...

Olá, Danilinn,

É só o começo! Depois de terminar o artigo sobre Caymmi, vamos preparar um post sobre conjuntos vocais: Bando da Lua, Diabos do Céu, Anjos do Inferno, 4 Azes e Um curinga e Demônios da Garoa. Vem coisa rara por aí! Continue acessando o blog e espere um pouquinho...

Charles Bonares disse...

Agora, ouvindo as músicas, fiquei sentindo muita falta de "Pobre pierrot", que o João Petra de Barros gravou na Victor lá por volta de 1939.