sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um antecessor de Mário Reis

Partitura musical da Jazz Band Sul-Americana, publicada pela Casa Carlos Wehrs;
ao fundo, Fernando com o violino.

Antes de Mário Reis, o cantor que mais se aproximou de um ritmo coloquial da fala em sua postura musical foi o Fernando. Mais até que Bahiano, nosso pioneiro, que compensava sua deficiência vocal com um tempero safado na conversa ambígua entrecortando suas melodias. O Fernando, assim nomeado nos selos da série 120.000 e 123.000 da Casa Edison, se chamava na verdade Fernando de Albuquerque. Era de boa família – como Mario Reis – e se embrenhou num tipo de música popular a que a elite carioca torcia o nariz.

Fernando foi crooner da Jazz Band Sul Americana, liderada por Romeu Silva, e acompanhou esta orquestra até a década de 30, mesmo depois de ter deixado abruptamente o universo das gravações (ainda mecânicas), em 1926. Seu estilo era “desempostado”, displicente e informal, bem ao gosto do jazz dixieland predominante na década de 20. Conviveu com outros crooners importantes, entre os quais Albertino Rodrigues, Artur Castro, Pedro Celestino e o (ainda novato) Francisco Alves, estribilhista da Jazz-Band Pan American do Cassino Copacabana.

Sua geração, à diferença dos pioneiros Bahiano, Mário Pinheiro e Eduardo das Neves, foi a primeira a voltar-se para um repertório urbano e dançante, e que se rendeu ao banjo e ao saxofone introduzidos via EUA e França no maxixe e no choro.

Fernando é um pioneiro por ousar-se numa pronúncia carioca do português, acentuado depois por Artur Castro e por Mário Reis. Gravou 72 músicas para a Casa Edison, lançando canções de Caninha, João da Gente, Freire Júnior, Tuiú, Osvaldo Menezes e, claro, Sinhô. Lançou, entre outros, sucessos como Zizinha, Pinta, pinta, melindrosa, Roupa na corda, e, aqui presente, Dor de cabeça (Odeon Record 122.760, 1925), de Sinhô.

A última notícia que tenho sobre ele é que, em 1939, ele deu uma gaita de presente a Edu da Gaita, depois de voltar com a dita gaita da Exposição Universal de Nova Iorque. Nesta altura, talvez já não cantasse mais com a Orquestra de Romeu Silva.

P.S.: no post sobre comportamento feminino, há outra gravação com Fernando.
Fonte deste post: GIRON, 2004, pp. 14-24.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Un gran hermano entre nosotros


Sou suspeito para falar de Pedro Vargas, porque me encantam sua voz e seus boleros. Mas fiquei mesmo muito admirado de ouvi-lo cantar música brasileira, num raríssimo 78 rpm. Não tenho a data das gravações do disco, mas pela numeração das matrizes, as duas músicas foram gravadas entre 29/11/1939 e 14/12/1939, ou até mesmo em um desses dois dias, para o carnaval de 1940.

Não foi a primeira vez em que este ídolo cantou música brasileira em terras tupiniquins. Em 1936, ele gravou com Olga Praguer Coelho um disco na RCA Victor. Participou, em 1940, do filme Laranja da China, da Sonofilmes, cantando “Aquarela do Brasil”. Em 1977, ele deu-nos um repeteco, gravando com Sílvio Caldas um LP ao vivo, no Canecão (RJ), intitulado Silvio Caldas e Pedro Vargas - gravado ao vivo no canecão.

Nascido em San Miguel de Allende, México, em 1909 (ano mágico!), este fabuloso cantor pôde comemorar 50 anos de carreira com um curriculum enorme de filmes, apresentações na televisão e discos nos formatos 78 e 33 rpm. Faleceu em 1989.

O disco abaixo traz, de um lado, a marcha “Volta, meu amor”, de Ary Barroso e, do outro, “Linda morena”, de Gonzalo Curiel. Atentem para o coro da RCA Victor, cujo sotaque contrasta com o espanhol aportuguesado de Pedro.



segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Neyde Fraga - Tá Moiado, Tá / Juca

Neyde Fraga e Roberto Amaral, em 1954

Hoje, levamos a vocês a “voz-veludo” de São Paulo, Neyde Fraga.

Neyde iniciou sua carreira no início dos anos 40, cantando em programas das rádios Cultura e Cruzeiro do Sul, em São Paulo. Fez história atuando na Rádio e TV Record. Iniciou sua carreira discográfica em 1950 com o surgimento da gravadora Elite Especial, que visava o público local e seus artistas. Inicialmene restrita ao público paulistano, alcançou sucesso nacional em 1953, com "Jambalaya" e "Lili", já na multinacional Odeon.

Esta gravação, realizada em 1951, tem diversas curiosidades. Primeiramente, retrata Neyde já veterana, com mais de dez anos de carreira, mas iniciante na música em conserva. Seu repertório, sempre brejeiro, já se mostra amadurecido, interpretando gêneros que ainda não eram tão assimilados por mulheres. O primeiro número é um delicioso baião, de autoria de Rômulo Paes e Adoniram Barbosa (sim, existe vida além de Saudosa Maloca e Trem das Onze). O outro, um choro de Hervé Cordovil, famoso compositor e maestro da Record, e Raul Duarte.

Gostaria ainda que vocês atentassem à orquestração das duas canções. A orquestra não é creditada, mas creio que seja do Maestro Clóvis Mamede, que era o regente e arranjador desta gravadora, pelo menos nos primeiros tempos. Os gêneros populares, como o choro e baião, costumavam ser acompanhados apenas por conjunto, dando um sabor mais regional e brasileiro ao instrumental. Em “Tá Moiado, Tá”, os metais são dignos de uma boa “big-band” e, não só as cordas agudas e médias são utilizadas com muito bom gosto e inteligência, como existem várias surpresas harmônicas, criando acordes e efeitos no mínimo inusitados para um baião. Em “Juca”, toda a agilidade do choro é transportada para essa grandiosa orquestra. Este é um disco de incrível apuro técnico e artístico, que o Chiadofone disponibiliza a todos os nossos visitantes!

Noutra ocasião, que certamente existirá, pois Neyde merece ser revisitada, falaremos mais sobre seu canto. Mas nesse primeiro contato, não há muito o que falar, pois ela é um caso de se “ouvir para crer”.










domingo, 17 de agosto de 2008

Dois gigantes no ocaso

Dalva de Oliveira e o Maestro Osvaldo Borba, no início dos anos 50.


*Dalva de Oliveira (D.) entrevistada por Vicente Celestino (V.) em julho de 1964. Arquivos da Rádio Jovem Pan. Transcrição*

V. o dalva olha [ininteligível]
D. aonde eu nasci?
[
V. sim
D. eu nasci... em rio claro estado de são paulo
V. paulista?
D. paulista
V. muito bem não é de macaé não?
D. (risos) não não sou de macaé
V. qual foi a sua última gravação?
D. a última gravação:: foi::... há coisa de:: seis meses... uma coleção de tangos... um long-play de tangos
V. e qual foi a sua priMEIra gravação?
D. a primeira gravação... foi:: em 1937 que gravei ITAquari
V. muito bem... e::: dos seus filhos... só o peri... tem voz... bonita?
D. não vicente... o engraçado é que o ubiratã também voz muito bonita mas ele não quis seguir a carreira
V. oh:: você::... você gosta de cantar não é?
D. muito vicente... muito muito
V. ah:: o que lhe dá mais alegria... as palmas do público ou o zum zum dos::... entendidos?
D. ih vicente precisa dos dois né (risos) o aplauso do público nós precisamos muito e nós sentimos muita falta... porque sem eles nós não podemos entender e sentir o calor e saber/e sabermos mesmo se estamos agradando ou não... e:: também (aplausos) [ininteligível] falei? (aplausos) e dos eruditos nós também:: quando é recebido como quando é recebido entre amigos nós ficamos felizes e sabemos que é verdade... agora... você sabe que:: pra nós pra mim pra você... pra linda batista... pra outros dos nossos tempos gostosos/gostosos né nós temos vendido por catálogo né vicente? você já sabe que não é preciso aquele:: aquela::: aquele barulho de paradas nem nada né? nós vendemos no catálogo vendido sempre assim graças a deus
[
V. isso é horrível né é horrível este negócio de andar pedindo pra tocar disco... entendeu?
[
D. pois é (aplausos) (risos)
[
V. pra tocar... é... um artista... este negócio o artista não vence por seu valor... vence pela gravação... entendeu?
D. (risos)



Resenha crítica: Doces modinhas pra iaiá...


O único erro da dissertação do Prof. Jonas Alves da Silva Júnior (“Doces modinhas pra Iaiá, buliçosos lundus pra ioiô: poesia romântica e música popular no Brasil do século XIX”, disponível na Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tombo 269.082) é justificar como trovadoresca (aqui, na acepção que o termo recebe na História da Literatura) a atitude dos poetas e músicos brasileiros românticos. Na tentativa de forçar uma relação entre poesia e música para uma conjuntura semelhante entre nós, brasileiros, e trovadores italianos e franceses do século XII a XIV (!), o autor eliminou as evidentes diferenças de contexto e simplesmente apagou as substanciais alterações de caráter musical e poético, operadas na mudança de uma sociedade feudal para uma sociedade de corte. Mesmo as produções culturais de ambos os contextos são essencialmente diferentes – para os europeus do século XVI e XVII, a ars noua e a polifonia geram o madrigal e fundamentam gêneros como a ópera (o cantar col canto chi parla de Giulio Caccini, bem como as atividades dos membros da Camerata Fiorentina e a seconda pratica de Monteverdi, presente nos seus livros de madrigais e nas três óperas suas que chegaram aos nossos dias); entre nós, a relação entre poesia e música no século XIX lega os dois primeiros ritmos de criação nacional: o lundu e a modinha.

De resto, o trabalho é um primor de beleza e rigor nas fontes de dados. Fundamenta-o a pesquisa sobre a Sociedade Petalógica do Rossio Grande, liderada por Francisco de Paula Brito e situada num prédio (adivinhem onde) na Praça Tiradentes. Freqüentada por literatos do calibre de Gonçalves Dias, Araújo Porto Alegre, Joaquim Manuel de Macedo e Casimiro de Abreu, e de músicos como Xisto Bahia, a Sociedade cumpriu a função de ampliar e divulgar para o grande público a produção poético-musical brasileira na segunda metade do século XIX.

O autor levanta a produção de modinhas dos membros da Sociedade através da consulta às partituras publicadas pela Tipographia Paula Brito e analisa, posteriormente, estas composições sob o ponto de vista técnico-musical e literário. Por ele sabemos, por exemplo, que Laranjas da Sabina (Aluísio de Azevedo) data de 1890 (gravada por Pepa Delgado, Odeon 40.350, ca. 1907); que Meus oito anos (Gonçalves Dias) foi musicado por Silvino Neto, em 1907; que A casa branca da serra foi composta por Guimarães Passos e musicada por J. C. de Oliveira, em 1893 (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 40.139, ca. 1907 e depois por Paraguassú, Columbia 5062, 1929) e que Gosto de ti porque gosto (Paula Brito) foi musicada por Cunha dos Passos (no selo da gravação de Mário Pinheiro, consta como autor o Catulo da Paixão Cearense... estranho, enfim... gravada por Mário Pinheiro, Victor Record, 98.947, ca. 1910 e por Cadete, Odeon 108.504, ca. 1910)

O disco preservou muitas destas composições que, se não gravadas, hoje não conheceríamos. Caso de Pálida Madona, de Castro Alves (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 40.563, ca. 1907), Saudades (gravada por Mário Pinheiro, Odeon 121.327, ca. 1913), Gondoleiro do amor (Castro Alves e Salvador Fabregas, gravada por Mário Pinheiro, Odeon 108.193, ca. 1910; Victor Record 99.720, ca. 1910; e ainda por Artur Castro na Phoenix, 283, e por Olga Praguer Coelho, na Victor, 34.105, 1936), Tirana (gravada por Olga Praguer Coelho, Victor 34.088-B, 1936), Mucama, de Gonçalves Crespo (gravada por Patrício Teixeira, Odeon 10.083-A, 1927), Canção do exílio, de Gonçalves Dias (gravada por Bibiano Tabino, Phoenix 120, ca. 1913), Amanhã (gravada por Bahiano, Odeon 108.520, ca. 1910).

O trabalho não apenas é ilustrado, como traz um CD anexo com gravações atuais destas modinhas e lundus. Essencial.





Discos: Coleção Djalma M.C.





quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Sons da Paulicéia - II

Para prosseguimento desta série, escolhemos uma cantora muito querida por nós: LAIS MARIVAL.



Maria Neomezia Negreiros, nascida em Taquaritinga/SP em 05.09.1911, na década de 1930 fez carreira nas rádios paulistanas Cruzeiro do Sul (PRB-6) e Cosmos (PRE-7). Gravou sete discos na Columbia entre 1936 e 1938, sendo seis sambas, quatro marchas, três maracatus (!) e apenas um samba-canção.

Infelizmente não tenho mais dados biográficos da cantora, apenas a informação recente de que ela está viva e ainda reside em São Paulo.


Coleção do autor

Quanto aos compositores, apenas podemos afirmar que H. Celso (?) teve outras duas composições gravadas, frevos que foram lançados sob os rótulos de "marcha pernambucana" e "marcha nortista", respectivamente: "Cadê você?" (por Moreira da Silva e Diabos do Céu, Victor 33.751-B, janeiro de 1934), premiada no concurso do Diario de Pernambuco (informação que consta do selo do disco 78 rpm), e "Morena do amor" (por Capiba e seu Jazz Band Acadêmico do Recife, Columbia 22.202-B, 1933).


Coleção do autor



Apresentamos as duas faces do disco Columbia 8.296-B, lançado em meados de 1937: o maracatu "MEU GANZÁ" (estilizado, vale dizer) e o samba-canção "SAUDADES DO MORRO". Neste último, como se não bastasse o excelente acompanhamento da orquestra do Maestro Gaó (Odmar Amaral Gurgel), Lais Marival nos proporcionou uma de suas melhores interpretações.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Denise Duran - Agradeço a Deus / A noite chorou também


Denise Duran. Soa familiar, não? Irley da Silva Rocha, seu nome real, é irmã mais nova de Adiléia da Silva Rocha. A nossa Dolores Duran.

Toda a sua família demonstrava inclinação para o canto. E com Lela, seu apelido desde pequena, não poderia ser diferente, embora não tivesse interesse em seguir carreira como cantora. Ela e Dolores costumavam ir ao cinema juntas e ensaiar peças de teatro para as crianças do bairro. Com a morte da irmã mais velha, em 24 de outubro de 1959, a cantora Marisa (Gata Mansa), que era muito amiga de Dolores, insistia quase que diariamente para que Lela começasse a cantar. A insistência foi tanta, que ela acabou indo, com Marisa, fazer um teste na gravadora Copacabana. Uma vez aprovada, adotou o nome artístico ‘Denise Duran’ e gravou o LP “Canções e Saudades de Dolores”, com 4 músicas gravadas por ela e 8 por Marisa. Seus padrinhos artísticos foram Emilinha Borba e Paulo Gracindo. Cantou em vários programas da TV Rio, TV Excelsior e foi cantora fixa da lendária boite “Baccarat”. Em 1962, Djalma Ferreira, proprietário da casa “Drink”, convida Denise para inaugurar a boite “Djalma’s”, que seria aberta em São Paulo. Assim, ela fixa residência na cidade e, neste mesmo ano, casa-se com o cantor Dave Gordon. Após uma temporada de 3 meses no Chile, nasce, em 1963, sua primeira filha, hoje a cantora Izzy Gordon. Em 1965, seu outro filho, o também cantor Tony Gordon. Aos poucos, foi deixando a carreira. Afinal, a pequena Lela nunca teve vontade de cantar. Em sua curta carreira, gravou um total de 6 músicas, duas das quais apresentamos agora.

Este 78 RPM, gravado em 1961, traz dois sambas muito bonitos e que surpreendem pela modernidade do arranjo e do acompanhamento. O arranjo ficou por conta do pianista Chaim Lewak e os assobios e sopros, de Altamiro Carrilho. Atualmente, Denise faz parte do grupo teatral “Mocinhas de Pinheiros” e canta esporadicamente.


Bonus Track! Levamos a vocês um registro recente, feito em 29/04/08, num encontro realizado no Pateo do Colégio, situado no centro de São Paulo. Nele, a nossa cantora canta “Quem Foi”, de Dolores Duran e Ribamar, música que registrou em 1960, no LP que gravou ao lado de Marisa. O simples violão que a acompanha foi executado por mim.

Agora fiquem com a doce e melodiosa voz de Denise Duran, Irley ou simplesmente, Lela.

Obs.: 1. Agradecimentos mil a Thais Matarazzo, pela foto e dados biográficos.

2. Na gravação recente, reparem o sino que toca por duas vezes, exatamente no mesmo tom!













sábado, 2 de agosto de 2008

Sons da Paulicéia - I

Em um blog organizado por três rapazes de São Paulo, naturalmente não poderia faltar esta série de postagens a que dou início, agora: vozes, orquestras, composições e compositores paulistas.


Imagem: Vale do Anhangabaú nos anos 1920

A ênfase será dada aos artistas paulistas, ao repertório das gravadoras instaladas em São Paulo nas décadas de 1920 e 1930 (Arte-Fone, Brasilphone, Columbia, Gaucho, Imperador, Ouvidor), e aos registros de grandes gravadoras instaladas no Rio de Janeiro que, com relativa freqüência, faziam temporadas de gravações em São Paulo. Tais temporadas eram ocasionalmente noticiadas na imprensa da época, como pude encontrar na coluna "Música e Discos" da revista O Malho, e também podem ser notadas pelo repertório e artistas envolvidos (gravadora Parlophon) ou até mesmo pelas fichas técnicas de gravação que chegaram ao nosso alcance (gravadora Victor).

Ressalto que a gravadora Columbia será presença muito constante nesta série, tanto pela quantidade de gravações disponíveis ainda hoje, como pela qualidade técnica de seus discos, pelo vasto repertório musical e pela diversidade de artistas que nela gravaram.




Coleção do autor

A gravação escolhida para este início foi "SÃO PAULO GRANDIOSO", marcha de Francisco Malfitano e Aloysio Silva Araujo, na interpretação de Déo acompanhado pela orquestra de José Nicolini (ou Niccolini, conforme o disco...), lançada no final de 1936 ou início de 1937 em disco Columbia.






Curiosidades: o cantor e os compositores eram cariocas, tendo Déo (Ferjalla Rizkalla, filho de libaneses) e Francisco Malfitano iniciado suas carreiras artísticas no rádio paulista, sendo muito provável que esta gravação tenha acontecido quando ambos trabalhavam na Rádio Record. E no coro desta música, como em muitas outras lançadas na série 8000 da Columbia, nota-se a presença de Lais Marival, cantora que em breve aparecerá nesta série, em excelentes gravações.

Bem, aí irão me perguntar: e quanto ao outro lado do disco, "Colombina da fuzarca"? Aguardem a próxima série de postagens, sobre o eterno triângulo amoroso de Colombina, Pierrot e Arlequim!

Vinte e cinco perguntas para a Dama do Encantado

* Entrevista publicada originalmente na Revista da Música Popular, em outubro de 1954. Aracy (A) de Almeida entrevistada por Lúcio (L) Rangel *

L – Gosta de cantar?
A - Não.
L – E de homem?
A – Adoro.

L - Que acha de Noel Rosa?
A - Divino.
L - E Pixinguinha?
A - Idem.
L – Gosta de cachorro?
A – Muitíssimo.
L – E de comida?
A – Um pouco chato a gente ter de comer.
L - Que acha do uísque falsificado?
A – É a morte.
L – Trocaria um tango por uma palestra?
A – Troco sempre.
L – Qual o maior cantor de todas as épocas?
A – Meu bom Sílvio Caldas.
L – Seu mal é comentar o passado?
A – Vivo do presente, de acôrdo com minha religião.
L – Qual a sua religião?
A – Protestante.
L – Dos livros da Bíblia, qual o seu preferido?
A – O Eclesiastes, aquilo é puro existencialismo.
L – Podendo salvar apenas um, quem livraria de um naufrágio, Caími ou Paulinho Soledade?
A – Caími.
L – Que acha do Barão Stuckart?
A – Não tenho palavras (ou palavrões) para defini-lo.
L – Cite um novo que valha a pena?
A - Antônio Maria.
L – Já cantou músicas dele?
A – Fui eu quem mais gravei músicas de Maria.
L – Com sucesso?
A – Noel, na época, também não fazia sucesso.

P - Já teve vontade de ter um capote agneau rasé?
A - Não gosto de capotes.
L - E de granfinos?
A - Uma quadrilha de chatos, chatos com galochas.
L - E de Bidú Sayão?
A - Rabolina de Bayer.
L – Gosta da popularidade?
A – Detesto.
L – E de homens de bigodinho?
A – Gosto e você sabe, tenho dois deles.
L – Defina um louco?
A – Um sujeito que se viu livre.
L – Ary Barroso?
A – Gosta de cartaz e de pixar os amigos.
L – Quem não deveria ter morrido?
A – Na minha família não morre ninguém há cincoenta anos.
L – Para terminar, diga alguma coisa que ainda não foi perguntada?
A – Gostaria de falar com entusiasmo sôbre São Paulo, minha maior ternura.

Circulação das cançonetas cômicas

Fachada do Teatro Recreio, 1929. Arquivo Nacional.
Retirado de ANTUNES, 2002.

Não conheço muito sobre a história da classe média urbana no Brasil. Tudo o que posso dizer se baseia, portanto, no legado da cultura urbana residente nas fotografias, nas peças e nas músicas do teatro de revista. Mas até hoje não entendo muito bem como se dava a circulação de cançonetas cômicas numa sociedade moralmente esganada como a nossa.

Os livros de História abordam, sobretudo, a formação das oligarquias cafeeiras do Centro-Sul e deixam-nos a ver navios em se tratando da burguesia urbana. É esta massa de comerciantes, profissionais liberais e imigrantes que deve ter composto o público do teatro de revista, considerado, desde meados do século XIX até a década de 50 do século XX, uma das mais importantes formas de divertimento, provável rival do rádio até o surgimento da televisão. Aliás, é possível que um meio tenha absorvido o outro, porque ainda hoje não é por acaso que programas como o Zorra Total e mesmo os derivados do Programa do Chacrinha utilizem cenários, coristas e quadros cômicos seguindo o modelo das revistas dos anos 50. Da mesma forma, muitos atores do teatro de revista acabaram incorporados pelo rádio, e foram as músicas do teatro de revista quem alimentou o rádio nos seus primórdios.

Toda esta conjuntura é resultado de uma pergunta que lancei há algum tempo na comunidade orkutiana do Bahiano e que se somou a uma conversa recente que tive com o Gabriel.

Primeiro, o que me pareceu claro é que as músicas do teatro de revista tinham ampla circulação. Todo mundo que viveu no Interior conhece os alto-falantes de praça que animavam as pessoas no passeio público de domingo. Inclusive, havia pessoas que viviam disso: colocando músicas no alto-falante. Eu mesmo me divirto até hoje com aquele Vicente Celestino soltando a voz no alto falante da praça naquele filme O Auto da Compadecida. Quer próximas, quer distantes dos centros urbanos, as pessoas tinham acesso aos sucessos pelo rádio, pelo disco ou pelo alto falante, quando fosse o caso. Daí deduzir-se que já havia, há coisa de 70 anos, uma espécie de “indústria cultural” que abastecia o gosto da classe média.

Segundo, o público do teatro de revista adquiria discos conforme os lançamentos do teatro de revista num fenômeno semelhante às nossas hit parades. Os dados são evidentes: um número grande de canções lançadas em peças que ficavam, em média, duas semanas em cartaz, gerando um subproduto – o disco – e alimentando a indústria fonográfica nos moldes da efemeridade dos sucessos. A pessoa ia ao teatro e também comprava o disco porque a revista logo depois já sairia de cartaz.

Terceiro, a classe média urbana não tinha apreço pelas manifestações artísticas ditas “sérias”, como a ópera. Nossa “tradição operística” nasce no século XVIII, mas foram os imigrantes italianos que consumiram – ou trouxeram – discos de ópera no Brasil do início do século XX. Os portugueses consumiam sucessos do teatro de revista, gênero que aliás o Brasil recebeu deles e dos vaudevilles franceses. Isto quer dizer que o gosto era orientado para um humor leve e fácil, e por isto as peças de enredo simples, tipos caricaturais da sociedade e músicas que atendessem a um gosto popular, formando um repertório de ritmos como o maxixe e repleto de piadas de duplo sentido – frutos de uma cultura resultante da distância da matriz intelectual européia e de uma tradição de exploradores de território e de mão-de-obra escrava, “modernizada” pela figura do nouveau-riche.

Quanto à natureza das canções, à medida que os textos das peças ligeiras enfraqueceram-se (fato constatado após o desaparecimento dos grandes nomes do teatro de revista, como Moreira Sampaio e Artur Azevedo), elas ganharam maior destaque nos quadros musicais. Estes se aproximaram dos ritmos populares e eram compostos por músicos oriundos do conservatório e mesmo pelos leigos das camadas menos favorecidas. Somando estes elementos à difusão do disco, pode-se aventar um roteiro de circulação das cançonetas cômicas.


Bahiano - Eu cá gosto (Odeon Record 122062)