sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As influências de Vicente Celestino


“Se você indagar de uma pessoa qualquer na rua, qual o maior cantor do Brasil, é possível que a resposta seja:
- Vicente Celestino!
Mas, se você indagar de outra pessoa qualquer na rua, qual o pior cantor do Brasil, é possível que a resposta seja:
- Vicente Celestino!
Aos 59 anos de idade, Celestino é, possivelmente, o mais estimado e o mais detestado cantor do país. Há cêrca de quarenta anos [nota do blogger: Como quase todos os pioneiros, Vicente começou cantando no teatro de revista, e por isto foi levado ao disco, no início dos anos 1910, gravando na série 121.000 da Odeon/Casa Edison] sua voz quase tonitroante pode ser ouvida nos diversos cantos do território nacional, provocando ódios de uns e admiração de outros. A verdade é, porém, que o público de Vicente é um público certo e fiel. Em sua maioria, é formado de donas de casa e empregadas domésticas; mas há outros tipos [...]

Caruso e Chevalier

Vicente Celestino, que talvez possa ser descrito como um barulhento meio triste, vive a maior parte do seu tempo para o lar. Raramente é visto nas ruas ou nos pontos de reunião dos artistas do rádio. Gosta de televisão e, evidentemente, de cinema. Seu gênero predileto é a opereta. Na ópera – diz ele – você só canta; mas, na opereta, não, você precisa saber representar. E eu gosto de representar.
Indubitàvelmente, Celestino gosta de representar. É um dos mais conhecidos canastrões dêste país, que está cheio dêles.
Há, no entanto, uma dose preciosa de pureza meio infantil, de certa ingenuidade comovedora nesse quase sexagenário, que é ainda a delícia de muita jovem emotiva e singela. Embora às vêzes se mostre um tanto melancólico, Vicente Celestino constantemente se deixa empolgar, pois é, por temperamento, um homem arrebatado. Assim, depois de comentar um tanto desanimado as perspectivas de um artista, no Brasil, fala entusiasmado sôbre as suas preferências, de um modo geral, ‘no mundo da música’:

- Meus ídolos são Enrico Caruso e Maurice Chevalier. Muita gente acha estranha essa combinação, mas é essa que é a verdade. Para mim, os prediletos são êsses dois”.

Revista da Música Popular, n.º 4, janeiro de 1955.



Vicente Celestino “Coração materno”, Victor 34156B, 1937
Vicente Celestino “Cinzas”, Victor 34156A, 1937
Vicente Celestino “Primeiro amor”, RCA Victor 800375B, 1945
Vicente Celestino “Ser ou não ser”, RCA Victor 80.0617A, 1946
Vicente Celestino “Altar de lama”, RCA Victor 80.0432A, 1946

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Grupo Voz do Sertão (Odeon 10.260B, 1928)


"Entre 1928 e 1929, veio em excursão para o Rio um conjunto pernambucano, com um repertório especializado em ritmos nordestinos, os Turunas da Mauricéia, tendo como destaques o extraordinário cantor e compositor Augusto Calheiros, apelidado muito a propósito de Patativa do Norte, e o genial violonista cego Manoel de Lima, entre vários outros músicos notáveis. Eles tocavam uma grande variedade de ritmos, praticamente desconhecidos do público carioca, cocos, emboladas, trizadas, baiões, martelos... Tinham uma série de apresentações marcadas para o Teatro Lírico, no Largo da Carioca, como uma curiosidade e só. Mas o sucesso foi tão retumbante, as platéias ficaram de tal modo tão arrebatadas pelo grupo, que novas apresentações e excursões foram rapidamente marcadas por todo o Sul. Naturalmente as rádios também os contataram e o que fora até então um grande sucesso transformou-se numa febre, num autêntico delírio coletivo. Essa demanda excitada atraiu outro grupo nordestino, A Voz do Sertão, encabeçado pelo cantor Minona Carneiro e o violonista Romualdo Miranda. A vibração do público só ampliava e se multiplicava. Mas agora as gravadoras e emissoras de rádio já sabiam o caminho. Não foi o rádio que lançou a música popular, foi o contrário” (História da Vida Privada no Brasil, vol. 3, pág. 593)

domingo, 12 de outubro de 2008

Cartola 1908-2008




Numa singela homenagem ao centenário do compositor Cartola, Angenor de Oliveira, oferecemos aos nossos visitantes duas preciosidades gravadas há 76 anos por Carmen Miranda e por Francisco Alves.




coleção do autor

TENHO UM NOVO AMOR
data de gravação: 11/05/1932
lançamento: julho de 1932


ficha técnica da gravação


coleção do autor

QUAL FOI O MAL QUE EU TE FIZ?
(co-autoria de Noel Rosa, não creditada no disco)
data de gravação: 30/12/1932
lançamento: maio de 1933

sábado, 4 de outubro de 2008

A linda flor Araci Cortes

Araci Cortes, em 1929.

Em 1929, Araci Cortes firmara-se como uma das maiores estrelas musicais do país. De um lado, consagrara-se no disco ao gravar, no ano anterior, Jura! (Parlophon 12868) e Iaiá (ai yoyô) (Parlophon 12926), razão pela qual passou a ser procurada pelos compositores que viam em sua voz a possibilidade de se consagrarem; de outro lado, integrou dois espetáculos de grande êxito, ao lado de nomes como Vicente Celestino e Henriqueta Brieba, e de grandes cômicos, como Palitos e Mesquitinha.



Marcada para estrear em 25 de abril, a revista teatral Laranja da China trazia a autoria de três personalidades do teatro de revista e da música brasileira: Júlio Cristobal, maestro da companhia do Recreio, Sá Pereira, compositor, e o novato Ary Barroso. Causou uma onda de protestos por conta de uma cena em que as coristas aspergiam uma água-de-colônia chamada Febre Azul sobre a platéia, composta na maioria por homens casados que, às escondidas, iam ao Recreio apreciar os "atributos" das atrizes. A cena foi retirada da revista, cujo êxito lhe valeu mais de cem apresentações, até maio/junho de 1929. Hoje, o Chiadofone apresenta um dos números desta revista, A polícia já foi lá em casa, de Júlio Cristobal e Olegário Mariano, registrado por Araci no disco Odeon 10426-A.

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A revista imediatamente subseqüente foi Vamos deixar de intimidade, nome aliás retirado de um dos êxitos de Araci em Laranja da China. Estreada em 07 de junho, também leva a assinatura de Ary, agora apoiado por Olegário Mariano. Dele, apresentamos o sucesso Tu qué tomá meu home, gravado por Araci em disco Odeon 10446-A.



Roberto Ruiz, na biografia de Araci, nota que as revistas deste período opunham-se às manobras do Catete para a eleição de Júlio Prestes à presidência do Brasil. Pouco tempo depois, em 1930, estourou a Revolução.

discos: coleção Djalma M.Cm.