quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Rádio Nacional - A canção da lembrança (1954)

Programa de variedades de César de Alencar, com Emilinha Borba, Marlene, Carmélia Alves, Linda Baptista e Afrânio Rodrigues.

Quando eu nasci, já havia rádios FM especializadas em música estrangeira ou nacional, divididas em gêneros musicais bem definidos e tipo de público-alvo, com uma programação quase exclusivamente musical e, por isso mesmo, homogênea. Programas de calouros, festivais de música e novelas, conheci-os pela televisão (e, hoje, admito, não assisto a nenhum). O rádio só ocupou meu centro de atenções no final dos anos 90 (ou seja, quando eu era adolescente), porque era o único meio de comunicação graças ao qual eu tinha acesso a ópera com certa regularidade. Mas esta é uma outra história.

O tema deste post é um programa da Rádio Nacional, aqui postado inteirinho para você, levado ao ar em novembro de 1954.

No excelente manual de Lia Calabre, “A Era do Rádio” (Jorge Zahar Editor, 2002), a autora nos explica o papel do rádio na sociedade brasileira dos anos 1930-1950 a partir de uma pesquisa cuidadosa de fontes. Ressalto aqui algumas informações da autora sobre a Rádio Nacional.

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Livro de Lia Calabre

Mesmo tendo se desenvolvido em todo o território nacional, durante os anos 1930-1950 as emissoras paulistas e cariocas dominaram a difusão de ondas radiofônicas. O modelo era a Rádio Nacional, sucedida em audiência pela Rádio Mayrink Veiga, pela Tupi e pela Tamoio. Decerto havia outras, porque o IBGE conta apenas 2 criações de emissoras de rádio em 1923, mas 15 em 1934 e 10 em 1940, mesmo ano em que o Censo Demográfico contou 522.143 domicílios com aparelho de rádio no Brasil, num total de 9.098.791 domicílios visitados.

A Rádio Nacional, pertencente ao mesmo grupo jornalístico que editava o jornal A Noite e as revistas Noite Ilustrada e Vamos Ler, fez sua primeira transmissão oficial em 12/09/1936. Utilizava os transmissores da extinta Rádio Philips e contava no casting artistas do porte de Aracy de Almeida, Marília Baptista e Orlando Silva. Dentre as suas Orquestras, destacava-se a de Radamés Gnatali e, nos anos 40, a de Léo Perachi (que regeu as canções deste post). Entre os seus locutores, ou speakers, Celso Guimarães, Ismênia dos Santos e Oduvaldo Cozzi.

Sua programação contava quatro núcleos: música, dramaturgia, jornalismo e variedades. É difícil dizer qual dos núcleos atingiu maior sucesso. As variedades e a música, por um lado, destacava grandes atrações como PRK-30 (paródia de uma emissora de rádio cujos personagens eram interpretados por Lauro Borges e Castro Barbosa), o Balança mas não cai, Levertimentos, Vai da valsa e A cidade, além dos inesquecíveis programas de calouros, que lançaram nomes como Emilinha Borba, e os de auditório, como os de César de Alencar e de Paulo Gracindo, responsáveis pela corte de Reis da Voz e de Rainhas do Rádio (seria caso aqui de nomearmos artistas do porte de Emilinha, Marlene, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto). De outro lado, o modelo jornalístico norte-americano, que formatou o Repórter Esso (preparado a partir da United Press International), gerou nosso hábito de necessitarmos estar sempre informados, e da imprensa como testemunha ocular da História. E ainda as novelas, que tiveram papel essencial nas rádios brasileiras, a iniciar por Em busca da Felicidade (a primeira rádionovela brasileira, estreada em 05/06/1941). Curioso, aliás, era a radiodifusão de novelas. No início, eram gravadas em disco de acetato, e depois em discos de vidro (como será um desses?) para serem “exportadas” para outras rádios. Só em meados dos anos 40 é que os mesmos textos começaram a ser difundidos por emissoras diferentes.

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Sala de ensaio do radioteatro da Rádio Nacional: Celso Guimarães (em separado), Amélia Alves, Paulo Ferreira, Amélia Ferreira, Tanio Luna, Neusa Tavares, Dinarte Armando, Ítala Ferreira, Osvaldo Elias, Zezé Macedo, Renato Murce e Alda Verona.


Repertório deste programa:
OVER THE RAINBOW (Sobre o arco-iris) (As Moreninhas: Emilinha Borba e Bidu Reis) - GALANTERIA (Jorge Fernandes) - LAMBETH WALK (Dolores Duran) - SÓ RESTA UMA LÁGRIMA - (Alcides Gerardi) - LA PALOMA (Lenita Bruno) - A pausa que refresca: Francisco Carlos: OLHO DE GATO - ANJO DA NOITE.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Carmen Miranda e Almirante – Cosinheira granfina

A curiosidade do vídeo da execução de um 78 rpm em um gramofone Decca.
Para as novas gerações.
Vídeo do colecionador Alceu Massini.
Carmen Miranda e Almirante – Cosinheira granfina (Sá Roris, Odeon 11777B, 1939)


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Conjunto Farroupilha - Mr. Lee / Clases de Cha-Cha-Cha


Olá a todos! Finalmente, cá estou regressando de minha viagem ao Rio de Janeiro e colocando a vida em ordem. Para me redimir com os nossos leitores, farei hoje um post diferente sob vários aspectos. Pela primeira vez, focalizaremos um conjunto, vocal neste caso; que se desenvolveu fora do eixo Rio-São Paulo, cantando dois gêneros jovens e dançantes. Vamos lá!

Nos anos 40 e 50, a Rádio Farroupilha era a maior do estado do Rio Grande do Sul, pertencendo a um grande conglomerado e com grandes anunciantes, como a Pepsi Cola. Esta emissora inspirava-se nas grandes rádios cariocas, com um vasto elenco fixo e contratado, trabalhando em grandes musicais. Para se ter uma idéia, eram de uma audácia que lhes permitiam recriar com seus próprios artistas alguns dos mais luxuosos programas de estúdio da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, como "A Canção da Lembrança" e "Um Milhão de Melodias". Eis que em 1948, surge um conjunto sem nome definido que entoava canções típicas ao seu microfone. Por conta do sucesso, Danilo, Tasso, Iná, Estrela d'Alva e Alpheu (mais tarde substiduído por Sidney Moraes, primeiramente apenas nas viagens pra fora do Sul, depois, permanentemente) foram batizados com o nome da rádio que os contratou. Sob a batuta de Tasso, as tradicionais canções gaúchas ganhavam nova roupagem, com arranjos vocais de impressionante beleza. Ele, muito jovem ainda, por sua competência como arranjador, passou também a maestro da rádio, regendo a orquestra da Rádio Farroupilha ao lado do veterano Maestro Salvador Campanela. Os chamados para apresentações e gravações vinham de toda parte e as fronteiras de seus estado já não comportavam a revolução que estavam fazendo na seara dos conjuntos vocais.

Difícil é desfilar de maneira sucinta todos os louros que o conjunto colheu pelos anos. Ganharam todos os troféus possíveis, tanto de rádio como de TV, tiveram programas exclusivos Viajaram o mundo todos (fizeram parte, inclusive, da lendária excursão que foi à União Soviética em 1958, ao lado de Dolores Duran, Jorge Goulart, Nora Ney e Maria Helena Raposo). Cantaram todos os gêneros e ritmos, mas nunca abandonaram as músicas da terra natal. Não tinha língua, dissonância ou canção em tom menor que desafiasse nosso grupo. Nosso amigo blogger pode ter a plena certeza que não existiu NADA melhor em matéria de conjunto vocal no Brasil!

As duas gravações que levamos até vocês datam de 1956 e foram realizadas em Porto Rico, conforme consta no selo. A primeira é um calypso-fox, quase um rock, uma delícia, onde fica bem evidente a beleza da voz da solista Iná. Gostaria aqui de fazer um pequena observação sobre o calypso. O tal calypso já foi apanhado na cama de diversos outros ritmo, causando casamentos interessantes, como calypso-rock, calypso-rumba, calypso-mambo, e calypso-chá (!!!). Geralmente, cotumava designar um rock mais lento ou menos agitado que o rock'n roll. A segunda gravação, é um belo chá-chá-chá, como o próprio título da música não deixa negar. Provavelmente, o acompanhamento foi feito por músicos do próprio país, o que confere aquele balanço que só quem é originário do país sabe fazer. Bem, vamos deixar de conversa e deixar vocês com os vocais e efeitos maravilhosos do Conjunto Farroupilha! Só uma coisa: é só ouvir e tirar seu parceiro pra dançar, porque ambas as músicas são uma delícia, com grande potencial viciante!

P.S.: As fotos que postamos não tem muita ligação com as músicas apresentadas neste disco, certo? Portanto, disponibilizamos uma faixa, de 1960 dessa vez, onde eles interpretam a música "Tatu", uma dança típica gaúcha.



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Resenha crítica: Caymmi sem folclore


O Chiadofone hoje faz a apreciação do trabalho do Prof. André Domingues dos Santos, denominado "Caymmi sem folclore" (dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e arquivada na Biblioteca da mesma Faculdade, tombo 306.754).

A obra trata do período de produção do compositor durante 1938 a 1959. Neste período, correspondente aos primeiros 20 anos da produção musical de Caymmi, desenvolveram-se e se solidificaram suas três tendências de composição, a saber, as canções praieiras (19 canções), os sambas baianos (18 canções) e os sambas-canção (15 canções).

A principal contribuição do trabalho de André Santos é o reconhecimento de que a obra de Caymmi, com efeito, manteve-se periférica ao mercado musical do período em que foi majoritariamente composta. Caymmi, ademais, não possuiu “mestres” nem “seguidores”, mas, ao mesmo tempo, sempre possuiu grande reverência dos mestres dos mestres – Tom Jobim e João Gilberto, por exemplo.

Esta introdução ao trabalho de André partiu da quebra de dois estereótipos ligados a Caymmi por conta de sua obra: a do boêmio carioca dos anos 40 e 50 e a do baiano devoto de Iemanjá. O processo é curioso. Por meio da análise do contexto sócio-cultural do Rio de Janeiro quando da chegada de Caymmi àquele lugar, em 1938, André conclui que o compositor lidou muito bem com o ideário nacional sobre a Bahia e com o universo cultural cosmopolita do Rio de Janeiro.



Ademais, analisando a estrutura melódica das canções de Caymmi, o autor da dissertação encontra harmonizações jazzísticas combinadas a ritmos brasileiros. Caso exemplar disso é “Marina” (gravada por Francisco Alves, Odeon 12773B, 1947). Trata-se de um parâmetro novo convivendo com um tradicional.


discos: coleção Djalma M.Cm.
Carmen Miranda e Dorival Caymmi - A preta do acarajé (Cena típica baiana, Odeon 11710B, 1939).
Dorival Caymmi - O mar: parte i e ii (Canção, Columbia 55247, 1940).
Dorival Caymmi - Navio negreiro (Samba jongo de Alcir Pires Vermelho, J. Piedade, Sá Roris, Odeon 11850A, 1940).
Dorival Caymmi - A jangada voltou só (Canção, Odeon 13732A, 1954).
Anjos do Inferno - Requebre que eu dou um doce (Samba, Continental 15024B, 1943).
Dorival Caymmi – Dora (Canção, Odeon 12606A, 1945).
Francisco Alves – Marina (Samba canção, Odeon 12773B, 1947)
Leo Belico – Maracangalha (Samba, RCA Victor 80.1733B, 1957)