O primeiro ano do Chiadofone encerra-se com uma canção natalina gravada em 1959 por Dalva de Oliveira. Esperamos que 2009 seja um ano pleno de realizações (e gravações!) para todos nós. A equipe Chiadofone agradece pela visita de vocês e conta com sua virtual presença no ano vindouro. Boas Festas e um feliz 2009.
Dalva de Oliveira - Natal de Nossa Terra (Odeon 14126)
Como prometido há mais de um mês, um artigo sobre COLOMBINA E SEUS AMORES. A intenção não é de fazer deste assunto uma monografia; será apenas uma breve exposição sobre o tema. A presença dos personagens da Comedia dell' arte na música brasileira, e a "adaptação" dos mesmos ao nosso Carnaval, seria assunto suficiente até mesmo para um livro (se é que já não o foi).
Anúncio datado de 1927: uma visão mais moderna do Pierrot aos pés da Colombina
É um assunto farto para quem tem muito tempo para pesquisas - o que não é o meu caso. Basta dizer que estes dois interessantes anúncios publicitários, dos bailes no Beira-Mar Casino e das Massas Aymoré, foram extraídos de uma mesma revista, datada de janeiro de 1927! Portanto, é de se imaginar a quantidade de informações que poderiam ser levantadas em uma pesquisa cuidadosa. Pesquisa que abrangeria inclusive as três décadas de gravações acústicas/mecânicas brasileiras (de 1902 a 1927), acervos fotográficos sobre desfiles e bailes de sociedades carnavalescas, o carnaval de rua e, provavelmente, até mesmo o teatro de revista... Pelo motivo já apresentado, apenas farei comentários sobre algumas gravações em discos 78 rpm das décadas de 1930 a 1960 que estão presentes em meu acervo.
Outro anúncio de 1927: a morte espreitando os foliões de outrora (!!!)
As figuras do arlequim, da colombina e do pierrot começaram a aparecer no nosso carnaval como uma forma de "sanitizar" esta festa e mostrá-la mais "civilizada", distanciando-a do carnaval de rua e do entrudo, mais desregrado e até violento. Entram em cena num momento em que o samba deixa os morros e começa a frequentar as rodas da alta sociedade, e gozavam de boa reputação porque tinham sido assimilados à ópera.
("Serenata d'arlecchino", ato II cena II da ópera I pagliacci, de Leoncavallo, com Tito Schippa e "Pierrot' serenade", solo de violino por Jan Kubelick. Col. Charles Bonares)
Da fase das gravações acústicas/mecânicas, nada escreverei por falta de material (leia-se "DISCOS") que fale sobre a Colombina ou seus dois amigos. De qualquer forma, quem visitar o acervo online do Instituto Moreira Salles, poderá encontrar uma porção de gravações sobre o assunto.
Começaremos, portanto, em 1930.
SERENATA DE PIERROT (V. Monti - C. Clansetti) gravado em São Paulo em agosto de 1930 lançado em setembro de 1930
Paira um vago encanto Sobre o mundo em flor E há perto d'um canto um fremito de amor Misteriosa e pura uma voz murmura Com ternura, uma canção de amor
Celestino: A noite encanta, prende e fascina Soluça e canta na alma do luar Oh Colombina da noite escura Tu és divina, faz-me sonhar
Annita: Com ternura, uma canção de amor Celestino: De amor, de amor
Annita Gonçalves
Annita Gonçalves? Até agora, a única informação que eu tinha sobre ela era uma singela observação: "Soprano paulista". Uma rápida consulta pelo Google nos revela ao menos um dado interessante, no site dedicado a ninguém menos que Villa-Lobos! Não deixem de visitar ambos os links:
http://www.museuvillalobos.org.br/villalob/cronolog/1931_40/index.htm Neste primeiro, uma interessante cronologia ilustrada, que menciona em 1931 a "Caravana de Arte Brasileira", e nos revela que "...Fazem parte da Caravana os pianistas Lucília Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Antonieta Rudge Müller e João de Souza Lima; o violinista belga Maurice Raskin; e as cantoras Nair Duarte Nunes e Annita Gonçalves...".
Quanto ao cantor, é o próprio Celestino Paraventi mencionado no livro "Olga", de Fernando Morais. Celestino teve um importante papel na vinda de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes ao Brasil em 1930, tanto apoiando financeiramente, como até dando abrigo em uma casa de campo na região da represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo; Celestino ficou preso por alguns meses após a Intentona Comunista de 1935, por acusações de receber do exterior grandes quantias em dinheiro em seu nome e que, segundo o governo, eram repassadas ao Partido Comunista.
O Tenor Celestino Paraventi era empresário do ramo cafeeiro, proprietário do pioneiro Café Paraventi, localizado na então elegante rua Quinze de Novembro, no centro de São Paulo. E uma curiosidade: segundo depoimento prestado pelo próprio Celestino ao autor do livro "Olga", importou a primeira máquina italiana de café expresso do país.
O prestígio do Café Paraventi ficaria registrado na popularíssima revista carioca "O Malho" nº 1.448, de 14/06/1930, onde foi publicada uma nota ocupando metade da página 44, sobre a abertura da filial carioca do Café Paraventi. O inteiro teor da nota, mantida a ortografia original, é o seguinte:
legenda original: "A nova filial do Café Paraventi no Rio de Janeiro" "Esta conhecida organização, cujo prestigio se firmou na capital de São Paulo pela sua tradicional probidade e pela maneira com que sabe reputar a sua excellente marca, acaba de installar nesta capital, no edificio da Central do Brasil, uma filial devidamente apparelhada para servir ao publico carioca com a presteza e facilidade que o consumo do seu artigo e consequente vulto dos seus negocios, dia a dia está a exigir. Merece especial registro, a maneira intelligente pela qual, fazendo a sua propaganda, o "Café Paraventi" procura patrioticamente acreditar a maior riqueza nacional, o café paulista."
Como cantor, teve 14 gravações lançadas em 08 discos Parlophon e Odeon, cujo repertório era baseado em canções e valsas. Obteve grande sucesso em 1930 com o disco Parlophon 13.223, no qual foram lançadas as valsas "Tardes em Lyndoia" (de Zequinha de Abreu e Pinto Martins, gravada em 11/08/1930) e "Longe dos olhos" (de Zequinha de Abreu e Salvador Moraes, gravada em 15/08/1930). As matrizes, ambas gravadas em São Paulo, foram relançadas em julho de 1933 no disco Odeon 11.022. Referido disco, surpreendentemente, ainda era prensado no final da década de 1940! Por falta de fontes, não tenho como afirmar se ele permaneceu disponível no catálogo da Odeon por uma década e meia, ou se foi novamente relançado em 1947/1948; minhas únicas fontes são os discos: o Parlophon original, e o Odeon 11.022 com as mesmas matrizes do original, prensado com o inconfundível selo roxo e dourado usado em 1947 e 1948.
De qualquer forma, Celestino Paraventi pode ser considerado um privilegiado, por ser um cantor com apenas 08 discos lançados, e que conseguiu ter um disco gravado em 1930, ainda à venda quase na era do LP e da fita magnética. Uma ressalva: não devemos nos esquecer que são duas composições do popularíssimo Zequinha de Abreu, o que certamente influiu no sucesso do disco.
Bem, voltando ao nosso assunto: Colombina parece ter se cansado de apenas enganar Arlequim e zombar de Pierrot. Arquétipo talvez comparável às flappers do cinema mudo que já faziam a cabeça das mulheres no seu ideal de amor despreocupado, numa ousada "afronta aos costumes" da época, Colombina também serviu para representar um ideal de libertação feminina durante o carnaval. Uma letra muito interessante sobre a "igualdade" entre homens e mulheres no carnaval é a marcha "Viram meu amor por aí?", de Walfrido Silva e Roberto Martins, que foi a estréia de Aracy de Almeida no rádio, gravada por Jonjoca e "Pixinguinha e sua Orchestra" na Columbia, tendo no coro Castro Barbosa e a inconfundível participação da novata Aracy de Almeida. Não tenho este disco raro (alguém tem e quer vendê-lo?...), e deixo aqui meu agradecimento ao colecionador paulistano Roberto Gambardella por esta gravação.
VIRAM MEU AMOR POR AHI? lançamento: janeiro de 1934
Viram meu amor por aí Saiu de casa e ainda não voltou Se fantasiou de palhaço Caiu na farra e não me ligou
Se ela pensa que fiquei chorando se enganou porque estou zombando No Carnaval os direitos são iguais Ela cai na farra e eu vou logo atrás
Eu já não ligo, vou me divertindo Sem abusar irei me distraindo Tenho razão e direito de brincar Quero alegria pois não sei chorar
Não pude identificar nenhuma colombina nem algum pierrot "perdido" no meio do repertório dos primeiros carnavais da década de 1930. Já para o carnaval de 1934, Mario Reis gravaria uma marcha do grande Lamartine Babo que, mesmo com letra curta e singela, passaria a ser um clássico. No coro, a voz de Carlos Galhardo aparece com destaque.
Capa do LP de Arrelia e Lamartine Babo
Foi regravada em 1958 pelo palhaço Arrelia e pelo próprio compositor, acompanhados pela Bandinha de Altamiro Carrilho, em LP e disco 78 rpm da gravadora Copacabana. O LP foi batizado "Ride palhaço".
RIDI... PALHAÇO... data da gravação: 08/11/1933 lançamento: janeiro de 1934
Ride palhaço
Eu sou o teu Pierrot Colombina... Colombina... Reparte esse amor Metade pra mim, metade pro seu Arlequim
ficha técnica da gravação
No ano seguinte, Lamartine Babo insiste no Pierrot, e acaba criando mais um enorme sucesso, novamente contando com os magníficos Mario Reis (ao microfone) e Pixinguinha (dirigindo a orquestra "Diabos do Céo").
RASGUEI A MINHA FANTASIA data da gravação: 27/11/1934 lançamento: janeiro de 1935
Rasguei a minha fantasia O meu palhaço cheio de laço e balão Rasguei a minha fantasia Guardei os guizos no meu coração
Fiz palhaçada o ano inteiro sem parar Dei gargalhada, com tristeza no olhar A vida é assim... A vida é assim... O pranto é livre, eu vou desabafar
Tentei chorar, ninguém no choro acreditou Tentei amar, e o amor não chegou A vida é assim... A vida é assim... Comprei uma fantasia de Pierrot
ficha técnica da gravação
Carmen Miranda alcançou o estrelato enquanto artista da gravadora Victor, a "marca do cachorrinho", mas em 1935 assinou contrato com a Odeon. À dupla de compositores Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti coube a honra de compor as duas músicas do primeiro disco Odeon de Carmen, a marcha "Foi numa noite assim" e o samba "Queixas de Colombina", duas peças belíssimas. Sobre esta música, o pesquisador Abel Cardoso Junior escreveu: "Também intitulado samba-romântico, este samba-choro é ponto altíssimo no repertório de Carmen. Os autores recriam com maestria a velha história de Pierrô e Colombina."
QUEIXAS DE COLOMBINA data da gravação: 01/05/1935 lançamento: junho de 1935
Meu Pierrot, és a menina dos meus olhos tristes E minha dor, chorar não posso pois de mim fugiste Arlequim teve meus beijos de febril paixão Porém é teu, somente teu meu pobre coração
Já não ouço mais os madrigais que tu cantavas à luz do luar Já não tenho mais a minha vida iluminada pelo teu olhar A tua voz só serve agora para soluçar Teus olhos claros como a luz do sol já se apagaram de tanto chorar meu Pierrot...
Toma o lenço, enxuga esse teu pranto Olha para mim sorrindo, oh meu Pierrot E prende esse soluço na garganta e vem cantar comigo o nosso amor Oh meu Pierrot, o meu passado todo esquecerei Só quero agora ter-te nos meus braços pra dar-te o beijo que nunca te dei meu Pierrot...
André Filho, inspirado compositor, gravado pelos maiores nomes da década de 1930, como Aurora Miranda, Carmen Miranda, Francisco Alves, João Petra de Barros, Jayme Vogeler, Sylvio Caldas, também deixaria sua voz registrada em quinze discos em todas as grandes gravadoras da época. Dentre suas gravações, o grande sucesso foi "Cidade Maravilhosa", em dueto com Aurora Miranda na Odeon, mas encontramos muitas raridades e também surpresas como "Anduê Anduá", um ponto de macumba em disco Parlophon, dueto com um tal "Marolino Silva e a Embaixada do Engenho de Dentro"... Ao ouvir o disco, a surpresa: canta com André Filho ninguém menos que J. B. de Carvalho, ainda iniciante em discos, mas que em breve se tornaria em um expoente do gênero de pontos de macumba/umbanda. A sonoridade da tal "Embaixada do Engenho de Dentro" não deixa dúvidas: é o famoso Conjuncto Tupy de J.B. de Carvalho, tão presente nos discos Victor e Odeon dos anos 1930.
Quanto ao uso de pseudônimos, nenhum espanto: Moreira da Silva também gravaria macumbas na Parlophon ("Pisa no tôco" e "Quilombô", ambas de Getulio Marinho "Amôr"), saindo no selo do disco como "João Quilombô" acompanhado pelo misterioso grupo "Gente de Lá"... Raridade fonográfica que em breve irá ao ar aqui, no Chiadofone.
CADÊ A MINHA COLOMBINA data da gravação: 23/12/1935 lançamento: fevereiro de 1936
Minha Colombina! vem consolar teu tristonho Pierrot Eu já não ouço a canção divinal que cantavas pelo Carnaval
Não ouves mais a voz tristonha A voz do teu Pierrot sentimental Cadê a minha Colombina multicor que era o meu eterno carnaval
Perdi a minha Colombina A minha Colombina original Cadê a minha Colombina multicor que era o meu eterno carnaval
Sim, naquele ano de 1936, a COLOMBINA MODERNA esteve ao alcance de todos: nesta nova composição da dupla Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, além do Dominó e de algum ricaço "coronel", um palhaço, um malandro tipo nacional, e pelo visto até um infame Apache (assim que possível, escreveremos sobre os apaches e as gigolettes) tiveram lá sua sorte!
COLOMBINA MODERNA data da gravação: 18/01/1936 lançamento: janeiro de 1936
Fui ao palácio encantado Do meu Papai Carnaval Lá encontrei Colombina me traindo com um malandro tipo nacional
Antigamente a Colombina repartia o seu amor Com os beijos de Arlequim e os versos de Pierrot Mas hoje a Colombina pega todos no laço Já tem uma aventura com um Palhaço
Por causa dela houve uma briga entre o Apache e a Gigolette Travou-se uma batalha, batalha de confete E até a própria Lua vendo a festa formada Caiu na farra até de madrugada
Ainda em 1936, Pierrot levaria um "fora" enorme após uma memorável bebedeira de Colombina, que foi um acontecimento tão notável que se transformou num sucesso carnavalesco cuja fama vem atravessando décadas.
PIERROT APAIXONADO data da gravação: 26/12/1935 lançamento: janeiro de 1936
Um pierrot apaixonado que vivia só cantando Por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando
A colombina entrou num botequim Bebeu, bebeu, saiu "assim, assim" Dizendo: Pierrot cacete, Vai tomar sorvete com o Arlequim
Um grande amor tem sempre um triste fim com o pierrot aconteceu assim Levando esse grande chute foi tomar vermute com amendoim
Provavelmente, uma parte deste sucesso é devido ao registro presente no histórico filme da Cinédia-Waldow, "ALLÔ ALLÔ CARNAVAL!":
Na cópia restaurada do filme (cujo lançamento em DVD está sendo aguardado há pelo menos CINCO ANOS...), o final fica por conta da antológica cena "Cantoras do rádio" mas, originalmente, o filme encerrava com Francisco Alves em "COMPREI UMA FANTASIA DE PIERROT". Aqui vai apenas o trecho do filme, pois não tenho o disco.
No carnaval de 1937, a "modernidade" (num sentido pejorativo?) da Colombina ficaria registrada em uma deliciosa marcha, e os felizardos da vez foram o Dominó e até um certo "coronel". Tudo bem, em 1936 a farra foi tão grande que, depois daquilo, nada mais espantaria. Ainda assim, os zelosos compositores não se esqueceram de relatar que aquele seria o final da "história eterna".
"COLOMBINA DA FUZARCA" 1937
A Colombina brigou com o Arlequim Brigou com o Pierrot, ô ô Mas não podendo viver só Foi procurar o pacato Dominó
Pierrot virou valente Arlequim deu pra chorar Colombina sorridente chamou um guarda para apaziguar
Colombina é moderna Hoje tem seu coronel Acabou-se a história eterna Os outros dois foram vender pastel...
No carnaval de 1938, encontramos um Pierrot dotado de uma auto-confiança inédita:
PIERROT MODERNO data da gravação: 26/10/1937 lançamento: janeiro de 1938
Sigo nesta escala toda a vida Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó" Catarina! Sigo nesta escala toda a vida Mas eu hei de dar um "dó-óóóóóó"
Estou treinando a voz pra ser um bom cantor Em noites de luar ir cantar pro meu amor
Eu sou Pierrot moderno que não teme Arlequim ouvindo o meu cantar Colombina vem pra mim
Mas os tempos mudam, não é mesmo? Vejamos agora o que já se ouvia no carnaval de 1940... A gravação foi originalmente lançada no selo Columbia, disco 55.187. Das trinta músicas gravadas por Francisco Alves na gravadora Columbia, entre 1939 e 1941, apenas três não foram relançadas; cinco seriam relançadas pela gravadora Continental ("herdeira" da Columbia) nos anos de 1943 a 1945, e as outras vinte e duas matrizes voltariam ao mercado em outubro de 1952, logo após a morte de Francisco Alves, o que é o caso do disco a seguir. A "Orquestra" presente no disco Continental é um resumo de "Kolman e a Orchestra do "Casino da Urca".
TRISTE PIERRÔ lançamento original da matriz: dezembro de 1939 (disco Columbia) relançamento em disco Continental: outubro de 1952
Há quanto tempo saudoso procura em vão Colombina Desiste Pierrot, não cantes assim O tempo mudou, não há mais Arlequim A Colombina já não é mais aquela Toca tamborim e mora na Favela
Os personagens do teu drama de amor já não lembram mais da tua dor O Arlequim é um malandrinho bamba e a Colombina é francamente do samba
Ao longo da década de 1940, Colombina e companhia ficaram meio esquecidos; em parte, pela constante exaltação ao Brasil e ao trabalho ("Cem por cento brasileira", "Mulato patriota", "Brasil pandeiro", "Tudo tem o Brasil", "Onde florescem os cafezais", "Tudo é Brasil", "Artigo nacional" e muitas outras, além das óbvias "Aquarella do Brasil", "Canta Brasil" e "Brasil moreno"). Quem analisar o repertório do período irá notar uma grande quantidade de referências implícitas e explícitas à guerra e às conturbações do cenário político mundial ("O Danubio... azulou!", "Adolfito mata-moros", "Paris sorrirá outra vez", "O mundo vai melhorar", "Vitoria", "China", "Prece de paz", "Nós das Americas", "O V da Vitória", "Alô, Tio Sam!", "Coitadinha da Sicilia", etc). E seria impossível deixar de mencionar o fim da Praça Onze, assunto que rendeu grandes clássicos, mas foi explorado à exaustão e deu chance ao surgimento de letras nada originais, como vocês poderão ver na excelente série de artigos elaborados pela amiga e pesquisadora Daniella Thompson, Praça Onze in Popular Song.
Pierrot? Bem, ele se revoltou (Colombina que se cuide...) e voltou a ser sucesso em 1948, mais uma vez na voz de Francisco Alves.
No geral, os selos Odeon daquele carnaval são muito sensíveis, e por isso mesmo quase todos que encontrei até hoje estão com a impressão desbotada, como verão no próximo disco. Desde o início do blog, achamos interessante que os leitores buscassem a informação diretamente no selo (como faria alguém com o disco em mãos!), mas no presente caso todos os dados foram transcritos.
RASGUEI O MEU PIERROT marcha (Haroldo Lobo - David Nasser) FRANCISCO ALVES com Orquestra Odeon, direção de Guari
data da gravação: 04/12/1947 lançamento: janeiro de 1948
Rasguei o meu pierrot o meu pierrot de cetim Só porque eu encontrei a Colombina Cantando "assim" com o Arlequim
Esta noite eu tive um sonho com você, Pierrot Mas chegou o Arlequim, o sonho se acabou
OS CONFETIS DE ARLEQUIM data da gravação: 11/11/1948 lançamento: janeiro de 1949
És bonita mas o mundo é mesmo assim Culpado é quem acredita nos confetes de Arlequim
Não tenho jeito a dar Vá tomar um drinque, um coquetel Tudo foi ilusão Confetes pelo chão Rodinhas de papel
SERPENTINA data da gravação: 09/10/1949 lançamento: janeiro de 1950
Guardo ainda bem guardada a serpentina que ela jogou Ela era uma linda Colombina E eu, um pobre pierrot
Guardei a serpentina que ela me atirou Brinquei com a Colombina até as sete da manhã Chorei quando ela disse "vou-me embora até amanhã, Pierrot, até amanhã"
Aproveitamos a oportunidade para "revivermos" o quinto disco dos Demônios da Garoa, na gravadora Elite Special. O famoso grupo vocal paulistano tem muita história para contar além de "Samba do Arnesto", "Trem das Onze" e "Saudosa maloca".
POBRE COLOMBINA carnaval de 1951
É inútil negar o pranto, Colombina É fútil, todos lamentam sua sina Retira, retira a máscara do rosto Carrega o peso do desgosto e da dor Pierrot já tem um novo amor
Você quis zombar do pobre Pierrot Quis ludibriar quem muito lhe amou Agora chora chora Colombina E esconde o pranto atrás desse farrapo de cetim É grande a lição que a vida ensina Você perdeu o Pierrot e o Arlequim
E para aquele mesmo carnaval de 1951, pela mesma gravadora:
POBRE PIERROT carnaval de 1951
Pobre pierrot, que desilusão ele passou Trabalhou durante o ano inteiro Pra poder juntar algum dinheiro Quando chegou o carnaval ficou doente, passando mal
A Colombina chorou, chorou Chorou que dava dó Vendo o pobre Pierrot passar o carnaval tão só
Não chora, Pierrot Fica em paz No ano que vem tem mais
Mais uma surpresa aos nossos leitores: uma marcha de carnaval gravada por Leny Eversong, cujo repertório sempre foi mais dedicado ao fox, desde o início de sua carreira. Vítima do esquecimento que assola boa parte dos grandes intérpretes da era do 78rpm, depois de morta foi "envolvida" numa polêmica em torno da internacionalmente conhecida composição "Águas de março" de Tom Jobim. Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, publicada em 25/05/2001, esta seria um plágio de "Água do céu", composição de Inara Simões de Irajá gravada por Leny num raro e obscuro LP da gravadora Copacabana, "5 estrelas apresentam Inara", que contou com Inezita Barroso, Leny Eversong, Elizete Cardoso, Marita Luizi e Juanita Cavalcanti.
Em breve, talvez, "Água do céu"...
POBRE PIERRÔ lançamento: janeiro de 1953
Pobre pierrot vive tão desprezado coitado, coitado A Colombina lhe deixou abandonado
Fugiu com Arlequim no outro carnaval O amor é mesmo assim, termina sempre mal O pierrot chorou, chorou E a malvada Colombina nunca mais voltou
Em meio à decadência generalizada da música de carnaval, que foi dando seus sinais ao longo da década de 1950, chegamos aos dois últimos discos deste artigo. Pela época em que foram gravadas, até que as músicas podem ser consideradas boas...
RI carnaval de 196_
Ri deste palhaço Deste palhaço que não quer mais amar Ri deste palhaço Deste palhaço que não quer mais chorar
Já é antigo, já é passado Bancar o bobo para se contentar Agora chora, oh colombina que este palhaço não quer mais chorar
FIM DA COLOMBINA carnaval de 1964
A Colombina está tristonha Sozinha no salão À procura do Pierrot que ainda mora no seu coração
Mas o Pierrot magoado Por causa do Arlequim Diz que passou, é passado A Colombina já chegou ao fim
ACRESCENTADO EM 16/12/2008:
Um recado aos leitores que tiveram tempo e paciência para ler o artigo e chegar até aqui. Confesso que eu não estava contente com o fato do artigo terminar de forma tão abrupta. Então, escolhi finalizá-lo não com um disco, mas com Chico Buarque, Nara Leão e MPB-4 cantando na TV Record no ano de 1967: "Noite dos mascarados".
O selo discográfico português Chiadofone, encontrado por acaso num site russo nos idos de 2005, circulou no início do século XX e é o mote deste blog sobre música popular brasileira registrada nos chiados dos discos de 76 e 78 rpm. Chiadofone é composto por:
Charles Bonares 29 anos - Pesquisador Apaixonado por MPB (1901-1964), mas acha que a bossa nova e o tropicalismo engessaram a música brasileira e que alguma porta importante se fechou na mente musical deste país.
Djalma 29 anos
Gabriel Gonzaga 22 anos - Pesquisador e Músico
Temos por objetivo contribuir na difusão de parte da memória musical brasileira da qual somos admiradores, sem qualquer objetivo financeiro direto ou indireto. Desta forma, todos os fonogramas aqui apresentados têm o seu uso limitado apenas àapreciação online. No caso de publicação de material com direitos autorais que venha a incomodar o seu detentor, por favor entre em contato com os administradores.
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