segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Discos de Mário Pinheiro no selo Victor Record, 1910

A carta Leitão da Cunha, 1907

O Chiadofone já postou no artigo sobre modinhas uma gravação de Mário Pinheiro para o selo Victor Record em 1910. Mas voltamos com mais cuidado a este e a outros discos de Mário Pinheiro nesta gravadora por um fato muito curioso.

Há cerca de quatro meses, o site da Victor (http://victor.library.ucsb.edu) anunciou a catalogação de todas as suas gravações estrangeiras, incluindo aquelas realizadas no Brasil e/ou com artistas brasileiros. Mário Pinheiro registrou mais de 100 discos de face única para o selo Victor Record. Pelo site, pode-se saber a data da gravação e o número de takes até a versão final.

A hipótese do Djalma é a de que a aparelhagem para gravação de discos poderia ser portátil, ou melhor, não dependesse de um estúdio e de condições excepcionais para funcionar. Basta lembrar o equipamento Presto Recording Corporation modelo MR6DE, com o qual Mário de Andrade coletou o material de sua pesquisa musicológica, em 1938. Isto já ocorria muito antes com o cilindro, gravado mesmo em ambiente residencial. Mas não conheço nenhum registro desse fenômeno com equipamentos para gravação de discos mecânicos.

Mário Pinheiro – e outros artistas da Casa Edison, como César Nunes e João Barros – gravaram discos em estúdios de outras companhias sem nenhum prejuízo para as gravadoras a que pertenciam. Isto indica que havia livre trânsito de artistas entre as gravadoras, ou pelo menos a inexistência de contratos de exclusividade. Ao que parece, Francisco Alves teria sido o primeiro a assinar um contrato desta natureza. Mas o fato curioso deste post está para ser dito.

Em 1907, Mário Pinheiro tinha assinado um contrato de gravação com outra gravadora, a Columbia (então administrada pela American Graphophone Company e sua representante brasileira, A. Campos & Cia.), a qual firmara com Frederico Figner um contrato de direito de exploração de mercado em todos os Estados do Brasil, com exceção de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e parte de Minas Gerais. Pelo combinado, Mário Pinheiro gravaria, em Nova Iorque, 150 discos/cilindros, ao valor total de 1:800$000 (um conto e oitocentos mil réis) e Frederico Figner receberia Rs 40$000 por disco gravado. Mário Pinheiro se arrependeu de ter firmado este contrato porque foi duplamente prejudicado: Frederico Figner levaria seis contos de réis a mais do que ele apenas por ter cedido o cantor à gravadora, e a Columbia lucraria pelo menos doze contos de réis sobre um contrato de um conto e oitocentos. Resultado: ele recebeu o dinheiro, recusou-se a embarcar para os EUA e foi processado pelo advogado da representante brasileira da Columbia, o Dr. Leitão da Cunha. Obrigado a ir, gravou os discos, lançados não pela Columbia, mas pela Victor: 125 discos na série 98.000 e 25 na série 99.000.

Isto é o que diz Humberto Franceschi (2002, págs. 171-175), com base no diário de Frederico Figner e nos contratos da Casa Edison. No entanto, no site da Victor, que possui arquivadas todas as informações de seus discos desde a origem do selo, consta que as gravações de Mário Pinheiro datam de 1910, e não 1907, como o afirma Franceschi. Para piorar, o Catálogo de Acervo de discos 78 rpm da Fundação Joaquim Nabuco acusa a existência de dezenas de gravações de Mário Pinheiro... na Columbia!

Destes discos, o Chiadofone lhes traz quatro: o Lundu Infernal (Victor Record 99725, matriz C-9222, 1 take, 27 de junho de 1910); Rosa do Sertão (Victor Record 99727, matriz C-9233, 1 take, 27 de junho de 1910); O beijo (Victor Record 99723, matriz C-9220, 2 take, aprox. 02 de julho de 1910) e Bem te quero (Victor Record 99735, matriz C-9253., 1 take, aprox. 29 de junho de 1910).


2 comentários:

Danilinn disse...

Como é bom ver o blog crescendo já são mais de 10.000 visitas.Vida longa ao Chiadofone!

Toque Musical disse...

Indiquei o seu blog para o Prêmio Dardos. Verifique em minha postagem o que é e como funciona. http://toque-musical.blogspot.com/2009/01/prmio-dardos-outros-agradecimentos.html