domingo, 25 de janeiro de 2009

Elza Laranjeira - A Noite do Meu Bem / Estou Amando Azul

Hoje, em mais um passo da nossa incansável cruzada em prol da música paulista, levamos a vocês uma das mais fulgurantes estrelas da nossa querida cidade: Elza Laranjeira.


Elza Laranjeira, ao fundo, Neyde Fraga

Talvez vocês estejam se perguntando: por que essa predilção pelos artistas paulistas? Historicamente, a música dos dois grandes polos (Rio e São Paulo) sempre foi muito independente, cada qual com seus próprios astros e estrelas, apesar do amigável intercâmbio entre elas. Mas a principal diferença tinha um nome: Rádio Nacional. O Rio tinha seu favor esse poderoso meio de comunicação, que cobria todo o Brasil e muitos países até fora da América. Assim, enquanto os astros cariocas eram venerados mundo afora, o rádio e a TV paulistanos criavam apenas fenômenos locais, com algums exceções, como Isaurinha Garcia.

Podemos até considerar Elza Laranjeira um (ligeiro) fenômeno nacional, visto que em 1959 sua interpretação de "Eu Sei Que Vou Te Amar" ganhou as paradas de todo o país.

Natural de Bauru, enveredou-se pela carreira do magistério, sem nunca abandonar a música. Cantava nas rádios locais da sua cidade. Em 1945, muda para São Paulo, onde é contratada pela Rádio Record. Se o Rio de Janeiro tinha a Rádio Nacional, São Paulo tinha a Rádio e TV Record, chamada simplesmente de "A Maior". E Elza foi por quase 20 anos a maior estrela da Record, num time a que pertenciam Neyde Fraga, Esterzinha de Souza, Cinderela, Dircinha Costa, Marita Luizi, Isaura Garcia, Luely Figueiró, Bianca Bellini e tantas outras. Difícil imperar num time respeitável como esse, não?

Nese disco que levamos até vocês, Elza nos dá duas de suas melhores interpretações. No lado A, temos a clássico "A Noite do Meu Bem". Considerada uma das melhores intérpretes de Dolores Duran, sua interpretação para esta canção mereceu elogios rasgados da crítica da época. Os contracantos que faz com a sua própria voz criaram um efeito muito singular e, mais uma vez, sua voz tomou as rádios do país.

O lado B trará a todos uma incrível supresa. "Estou Amando Azul" é de uma beleza extremamente singela, quase comovente. Sua gravação deixa evidente a sua incrível classe ao cantar e, assim entendemos o porque de sua grande popularidade pelas ondas da Record ou nas melhores boates da noite de Sâo Paulo. E, só para terminar, ambas as músicas tem as mãos do gênio Enrico Simonetti.

Termino esse post com a sensação de que o texto não ficou à altura do que merecia Elza. É difícil falar das intérpretes que mais se gosta... E é por isso que, brevemente, será revisitada, com mais detalhes de sua biografia. Enquanto isso, fiquem com a voz-doçura da nossa música.





sábado, 17 de janeiro de 2009

Entre o pé do anjo e o samba da madrugada

Existiria uma lacuna de sete anos entre o primeiro disco de Francisco Alves (Pé de anjo, Popular N1007, 1919/1920) e o seu primeiro grande sucesso na Casa Edison (Samba da madrugada, Odeon Record 123271, jan. 1927), não fosse a ilustre presença do disco Odeon 122649, gravado por Francisco Alves em 1924 (MIUDO, Samba Carnavalesco de Sebastião Santos Neves, com Grupo do Sebastião, Cantado por Francisco Alves e côro). O coro é o dos artistas do Theatro São José, onde Francisco Alves e sua irmã Nair Alves trabalhavam. O nome de Francisco Alves não aparece no selo do disco. O único exemplar conhecido do disco foi localizado no Sul do país e doado ao pesquisador Abel Cardoso Junior (por quem a foto acima foi realizada, pertencente ao acervo Roberto Gambardella) no início da década de 1990, após décadas sendo considerado perdido. Atualmente, o disco pertence ao colecionador Leon Barg, de Curitiba. Para facilitar a audição da música, transcrevemos a letra:

Miúdo

Teu cabelo está estrela
A verdade um fato é
O samba é complicado
Compreenda como quiser

Refrão
É nesta canção
Que valor não tem
É nesta canção
Que valor não tem
Teu pezinho é gelado (ui)
Diz esta canção

Quatro compassos não é música
Ora bolas que pipoca
Isso acaba fatigando
O pessoal carioca (2x)

Refrão

Uns escrevem minha santa
Ah e outros minha querida
Quatro compassos não é música
Vão procurar outra vida.



Permanece, ainda, uma lacuna na discografia de Francisco Alves: o disco Odeon Record 122666/122667 com as marchas carnavalescas de Freire Junior NAO ME PASSO PRA VOCÊ e MADEMOISELLE CINEMA, gravadas pouco tempo depois de Miúdo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Discos de Mário Pinheiro no selo Victor Record, 1910

A carta Leitão da Cunha, 1907

O Chiadofone já postou no artigo sobre modinhas uma gravação de Mário Pinheiro para o selo Victor Record em 1910. Mas voltamos com mais cuidado a este e a outros discos de Mário Pinheiro nesta gravadora por um fato muito curioso.

Há cerca de quatro meses, o site da Victor (http://victor.library.ucsb.edu) anunciou a catalogação de todas as suas gravações estrangeiras, incluindo aquelas realizadas no Brasil e/ou com artistas brasileiros. Mário Pinheiro registrou mais de 100 discos de face única para o selo Victor Record. Pelo site, pode-se saber a data da gravação e o número de takes até a versão final.

A hipótese do Djalma é a de que a aparelhagem para gravação de discos poderia ser portátil, ou melhor, não dependesse de um estúdio e de condições excepcionais para funcionar. Basta lembrar o equipamento Presto Recording Corporation modelo MR6DE, com o qual Mário de Andrade coletou o material de sua pesquisa musicológica, em 1938. Isto já ocorria muito antes com o cilindro, gravado mesmo em ambiente residencial. Mas não conheço nenhum registro desse fenômeno com equipamentos para gravação de discos mecânicos.

Mário Pinheiro – e outros artistas da Casa Edison, como César Nunes e João Barros – gravaram discos em estúdios de outras companhias sem nenhum prejuízo para as gravadoras a que pertenciam. Isto indica que havia livre trânsito de artistas entre as gravadoras, ou pelo menos a inexistência de contratos de exclusividade. Ao que parece, Francisco Alves teria sido o primeiro a assinar um contrato desta natureza. Mas o fato curioso deste post está para ser dito.

Em 1907, Mário Pinheiro tinha assinado um contrato de gravação com outra gravadora, a Columbia (então administrada pela American Graphophone Company e sua representante brasileira, A. Campos & Cia.), a qual firmara com Frederico Figner um contrato de direito de exploração de mercado em todos os Estados do Brasil, com exceção de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e parte de Minas Gerais. Pelo combinado, Mário Pinheiro gravaria, em Nova Iorque, 150 discos/cilindros, ao valor total de 1:800$000 (um conto e oitocentos mil réis) e Frederico Figner receberia Rs 40$000 por disco gravado. Mário Pinheiro se arrependeu de ter firmado este contrato porque foi duplamente prejudicado: Frederico Figner levaria seis contos de réis a mais do que ele apenas por ter cedido o cantor à gravadora, e a Columbia lucraria pelo menos doze contos de réis sobre um contrato de um conto e oitocentos. Resultado: ele recebeu o dinheiro, recusou-se a embarcar para os EUA e foi processado pelo advogado da representante brasileira da Columbia, o Dr. Leitão da Cunha. Obrigado a ir, gravou os discos, lançados não pela Columbia, mas pela Victor: 125 discos na série 98.000 e 25 na série 99.000.

Isto é o que diz Humberto Franceschi (2002, págs. 171-175), com base no diário de Frederico Figner e nos contratos da Casa Edison. No entanto, no site da Victor, que possui arquivadas todas as informações de seus discos desde a origem do selo, consta que as gravações de Mário Pinheiro datam de 1910, e não 1907, como o afirma Franceschi. Para piorar, o Catálogo de Acervo de discos 78 rpm da Fundação Joaquim Nabuco acusa a existência de dezenas de gravações de Mário Pinheiro... na Columbia!

Destes discos, o Chiadofone lhes traz quatro: o Lundu Infernal (Victor Record 99725, matriz C-9222, 1 take, 27 de junho de 1910); Rosa do Sertão (Victor Record 99727, matriz C-9233, 1 take, 27 de junho de 1910); O beijo (Victor Record 99723, matriz C-9220, 2 take, aprox. 02 de julho de 1910) e Bem te quero (Victor Record 99735, matriz C-9253., 1 take, aprox. 29 de junho de 1910).