sexta-feira, 31 de julho de 2009

Para ouvir maxixe

"O que vem a ser o maxixe? Nada mais simples e, todavia, nada mais difícil de contar. O maxixe pode definir-se desta forma: enlace impudico de dois corpos, ou assim: conjunção indecorosa dos dois sexos.
O maxixe é um tango, dançado à espanhola, por brasileiros. Será isto?
A sua música é a música dos tangos com ritmo novo, introduzido no Brasil por compositores brasileiros; mas, na realidade, dança-se ao som de todas as músicas, de valsas, como polca, como de marchas, árias ou canções, porque o maxixe é o ato de dançar e não a própria dança. Os pares enlaçam-se pelas pernas e pelos braços, apoiam-se pela testa num quanto possível gracioso movimento de marrar e assim unidos, dão a um tempo três passos para adiante e três passos para trás, com lentidão.
Súbito, circunvolteiam guardando sempre o mesmo abraço, e, nesse rápido movimento, dobram os corpos para frente e para trás, tanto quanto permite a solidez de seus rins; tornam a volutir com rapidez e força, tornam a dobrar-se, e, sempre lentamente, três passos à frente, três passos atrás, vão avançando e retrocedendo, como a quererem possuir-se.
Dança-se com doçura e dança-se com frenesi. Os maxixeiros de paixão (maxixeiro é o nome do que baila o maxixe por vício) dançam-no com frenesi, incessantemente, e nem a fadiga nem o calor os vence. Quando cessam de dançar é dia e ainda não estão saciados.
Não me parece que o maxixe fosse dança excessivamente culta, mas como dança licenciosa é de se lhe tirar o chapéu". (Franceschi, 2002, pp. 152-153)





Coleção Djalma MC e Roberto Gambardella

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Histórias infantis em 78 rpm

Braguinha examina um encarte das gravações de histórias infantis na Continental.

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Esta é a página que Braguinha está folheando na imagem acima

Em 1937, Braguinha foi convidado por Wallace Downey para trabalhar no setor de gravações da Columbia no Rio de Janeiro, então dirigido por Moacir Fenelon. Contratado para assumir parte dessas funções - que presumivelmente deveriam ser ampliadas com o lançamento da etiqueta Carioca, de efêmera duração - Braguinha iniciaria suas atividades na empresa ao lado de Fenelon, que o preparou para substituí-lo.
Um ano depois, Braguinha foi um dos responsáveis pela dublagem brasileira de Branca de Neve e os sete anões, de Walt Disney, o primeiro desenho animado em longa metragem da história do cinema. Sempre dublado por bons artistas dos países em que era exibido, o filme teve no Brasil Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo fazendo as vozes da heroína e do príncipe, na sonorização supervisionada pelo engenheiro Jack Cutting, da equipe de Disney.
Precedido de intensa campanha publicitária, Branca de Neve estreou no Rio de Janeiro, nos cinemas São Luís e Odeon, em 5.9.1938, nove meses após sua premiere mundial, nos Estados Unidos.
Ao levar para a tela o conto dos Irmãos Grimm, Disney criava um esquema de produção que, muito bem-sucedido, iria servir de modelo às suas futuras realizações. Nesse esquema ocupavam lugar de destaque as trilhas musicais, cuja qualidade acabaria por conferir aos seus filmes uma característica especial: eram filmes para ser vistos e ouvidos. E uma das melhores trilhas da filmografia disneyana seria justamente a de Branca de Neve, para o qual João de Barro faria as letras em português. São oito canções, escritas por Frank Churchill (melodista) e Larry Morey (letrista), que se tomaram clássicos no gênero. Três delas, pelo menos, estão na lembrança de muita gente: “Eu vou cavando a mina” (Heigh ho), “Assobie enquanto trabalha” (Whistle while you work) e a valsa “Quando o meu príncipe vier” (Someday my
prince will come), que entraria para o repertório de vários solistas de jazz.

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O selo dos discos é a nossa única fonte dos intérpretes do "conto musicado" Branca de Neve... repare que os protagonistas são os mesmos da dublagem do filme de 1938, a qual, supomos, não exista mais

O interesse despertado pelos filmes de Disney deu a Braguinha a ideia de lançar em discos historinhas infantis. A primeira delas foi Branca de Neve, gravada em 1945, quando ele já dirigia a Continental. Nessa edição foram usadas as mesmas canções e os principais artistas da versão cinematográfica.
Seguir-se-ia uma longa série de lançamentos que, iniciada na era do sistema de 78 rotações, prosseguiria na dos LPs, mantendo os níveis de vendagem que justificaram sucessivas reedições de muitos de seus títulos, e os fizeram quebrar recordes de permanência em catálogo, raramente alcançados por discos de outros gêneros. Contribui para a perenidade da série - além, naturalmente, de seus méritos artísticos - a circunstância de ser dirigida ao público infantil, que se renova com muita rapidez. Assim, na medida em que seus ouvintes passam a uma nova faixa etária, são logo substituídos por outros para os quais as historinhas têm sabor de novidade.
Criador da série, Braguinha a ela se dedicaria com entusiasmo, escrevendo, adaptando e musicando a maioria das historinhas (Os três porquinhos, O Pequeno Polegar, A gata borralheira, Festa no céu, Chapeuzinho vermelho etc.).

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Ao contrário dos dias atuais, quando o registro de um simples LP mobiliza, além do intérprete e dos músicos, toda uma equipe de especialistas (produtores, assistentes, auxiliares etc.), a gravação em matrizes de cera podia ocupar somente duas pessoas: o diretor artístico e o operador da máquina. "E quando comecei", recorda Braguinha, "era eu sozinho para fazer tudo. Até guia de rótulo eu datilografava." Na verdade, acumulando em seu período inicial na Columbia obrigações artísticas, técnicas e burocráticas, Braguinha devia executar o trabalho de todo um departamento... As únicas coisas que não fazia era polir e aquecer a cera, tarefas indispensáveis para a confecção das matrizes e que estavam a cargo de um menino chamado Norival Reis.
Mas João de Barro não sofreria por muito tempo essa sobrecarga de obrigações. Dotado de excelente ouvido, o esperto Norival aprenderia rapidamente o ofício de gravador de discos para assumir o posto na companhia e se tomar, nos anos seguintes, um dos melhores profissionais do ramo. É Norival quem descreve o antigo estúdio da Columbia: "Ocupava o andar superior de um galpão, construído para ser armazém de café, na Avenida Venezuela, n.º 145. No térreo ficavam os sets da Sonofilmes. Cantores e músicos gravavam ao mesmo tempo. Bem ensaiados, raramente erravam. Realizávamos sempre duas tomadas para aproveitar a melhor, que era industrializada em São Paulo." Norival fornece ainda detalhes técnicos: "Usávamos uma máquina de gravação Scully e uma mesa Western Electric de seis entradas. A agulha era fixa, enquanto o prato movia-se num parafuso do tipo ‘semfim’. Com esse equipamento fizemos gravações memoráveis."
Em outubro de 1943 a Byington perdia a representação da Columbia, que se desinteressara em continuar gravando no Brasil. Em consequência
, a empresa brasileira resolvia atuar por conta própria no mercado fonográfico, para isso criando a Gravadora Continental (Gravações Elétricas Ltda.). Com Braguinha na direção artística e Sávio Silveira na direção comercial, a Continental entrava em atividade já em dezembro de 1943, lançando 109 discos, dos quais 100 (n.º15001 a 15100) eram reedições de antigas matrizes Columbia que, com o término da representação, passaram ao acervo da Byington.
Assim, os primeiros discos produzidos pela Continental foram os nove que completaram o suplemento. Desses, oito seriam gravados no estúdio onde se faziam os discos Columbia, situado no quarto andar do edifício Cineac (avenida Rio Branco, 181), no Rio de Janeiro. A construção desse estúdio marcara o fim de um período difícil, em que a Byington - devido a um incêndio que destruiu, em 21.11.1940, suas instalações na Avenida Venezuela viu-se obrigada a gravar com equipamento improvisado, numa sala da Rádio Clube do Brasil. O técnico Norival Reis conta a história: "Do fogo só se salvaram um aparelho de ar-condicionado, um torninho de polir cera e uma antiga máquina de gravar. Tivemos então que nos mudar para a sede da Rádio Clube" (do grupo Byington), "na Rua Bittencourt da Silva. Ali passamos a usar aquela máquina, que era 'de corda' e funcionava com um peso erguido por urna correia a determinada altura. A descida do peso fazia o mecanismo girar o prato em velocidade uniforme, durante três minutos e 20 segundos. Este era exatamente o tempo de cada gravação; não podia ultrapassar um segundo." Impossibilitada de adquirir um novo equipamento em tempo de guerra, a empresa usava a máquina obsoleta como única solução para manter-se em atividade. Prossegue Norival: "Gravava-se no estúdio da rádio no horário diurno, quando não havia programa ao vivo. Como o amplificador só tinha uma entrada, o jeito era usar um microfone bidirecional, instalado no meio da sala, colocando-se o cantor e o coro de um lado e a orquestra do outro." E conclui: "Era uma trabalheira danada. Basta dizer que a gente tinha que arrumar os músicos de acordo com a capacidade de saída dos instrumentos - metais mais longe, palhetas mais perto do microfone." A superação das dificuldades era um desafio à criatividade do técnico que, empregando artifícios como o da arrumação da orquestra, realizaria gravações até muito boas, dentro das circunstâncias”.
Retirado de: Jairo Severiano "Yes, nós temos Braguinha". Funarte/Martins Fontes, 1987.


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Acervos: Charles Bonares e Djalma M.C.

domingo, 12 de julho de 2009

Hebe Camargo - Baião Caçula / Testemunha

Sim, é ela mesma. A mesma que todos assistimos pela TV desde que nascemos. Hoje, o Chiadofone focaliza a moreníssima Hebe Camargo.



Nascida em 8 de março de 1929, Hebe Maria Camargo veio de uma família musical, onde o pai era músico e suas irmãs e primas também cantavam. No início da década de 40, já participava de programas de calouros, onde a sua interpretação alegre e brejeira de sambas e ritmos regionais costumava fazer sucesso. Pelas suas atuações solo, ecos de seu sucesso já eram ouvidos até no Rio de Janeiro! Formou ainda o "Quarteto Dó Ré Mi Fá", parafraseando as Andrews Sisters, agradando bastante em suas audições na Rádio Tupi. Desfazendo-se o quarteto, forma com a irmã Estela a dupla "Rosalina e Florisbela", que teve duração efêmera nos microfones da Rádio Difusora. Após a dissolução da dupla, em 1948, assume de vez a carreira solo e assina, novamente, com a Rádio Tupi.

Em 1950, foi figura marcante num dos principais eventos brasileiros do século XX: a inauguração da Televisão no Brasil. E da tela nunca mais saiu, sempre com grande destaque e programas exclusivos.

Em 1952, transfere-se para a TV Paulista - Canal 5 (Hebe, a própria cara do SBT, indiretamente já partenceu à Globo, já que em 1965 a emissora seria encampada por Roberto Marinho). Na nova emissora, quando da falta de Ary Barroso na apresentação de seu programa de calouros, Hebe foi escalada para substitui-lo. E saiu-se tão bem que passou à frente de vários programas, assumindo sua condição de grande estrela no cenário paulistano, seja cantando ou apresentando. Em 1955, cria "O Mundo É das Mulheres", primeiro programa feminino da TV brasileira, que seria apresentado em duas audições semanais; uma no Rio e outra em São Paulo. Sua carreira discográfica foi bastante intensa nos anos 50, repleta de sucessos. Cada vez mais famosa no Brasil inteiro, no início dos anos 60 relega a segundo plano sua vertente cantora para assumir de vez o trono (ou sofá) de Dama da televisão brasileira. Faz um último registro em 1966 e só voltaria a gravar em 1998. Hoje, o Chiadofone leva até vocês um momento de 1952.


Os nossos amigos colecionadores certamente já cansaram de encontrar este disco pelos sebos da cidade. Não é a toa. Além da sua popularidade, que já garantia uma boa vendagem por aqui, o "Baião Caçula" fez muito sucesso e mereceu diversas gravações. O talentoso Mário Gennari Filho soube bem tirar proveito da febre que o baião causou no Brasil; mas longe de qualquer oportunismo, compôs esta delícia de música, onde o acompanhamento acelerado que a multinacional Odeon imprimiu à gravação torna praticamente irresistível um convite a um bom xaxado pela sala. O lado B traz um gostoso samba, evidenciando o canto sentido e extremamente personal de Hebe. Arrisco até dizer que não deve nada a uma boa gravação de Isaurinha Garcia.



Notem, neste clique de 1958 (com Hebe já loira), que o mítico sofá já estava lá

Eis mais uma homenagem que o Chiadofone presta a uma importante figura da nossa música. Viva a "Moreninha do Samba"!