sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Arqueologia da música brasileira

Boi-Bumbá em 29/jun/1938. Belém do Pará. Fotografia de Luis Saia.

Faz já algum tempo que adquiri a coletânea de gravações da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, mas tive de vencer o temor em postar um material ao mesmo tempo tão raro e tão escondido dos ouvidos daqueles a quem ele interessa. Entre projetos de censura à Internet e Associações destinadas à proteção do direito autoral, compartilhar cultura on line me parece uma temeridade, quase um blefe, ainda que o material registrado tenha sido produto de uma cultura iletrada e recolhido por um pesquisador interessado em preservá-la. Só que neste exato momento em que escrevo tenho em mãos um produto como qualquer outro, embalado em papel reciclado e que passou por todos os trâmites legais que o caracterizam como mercadoria.

Por esta razão, o Chiadofone disponibiliza 18 gravações apenas para escuta e orienta seus leitores a adquirirem este documento verdadeiro de um país sem memória como quem está fazendo a sua parte em difundir e atualizar o pouco da memória que nos resta. É parte de um total de 279 faixas, distribuídas em 7 horas de gravação. Pouco, comparada aos 1299 fonogramas originais em acetato referentes à música popular tradicional que fazem parte do acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga (Centro Cultural São Paulo). As gravações são resultado de uma pesquisa iniciada em fevereiro de 1938 e concluida por razões de força maior em julho do mesmo ano.

Por trás desta pesquisa se tem por verdade que Mário de Andrade buscou identificar na música uma forma de preservar "nossa identidade" frente à difusão da cultura de massa estrangeira e do surgimento de uma cultura urbana que distava de uma essência abstrata e ainda presente nas comunidades mais isoladas do país. Para mim, no entanto (e aqui sou sendo absolutamente pessoal), a pesquisa de Mário de Andrade resvala num pós-romantismo de matiz europeia muito condizente com o panorama político de países desfalcados por ditaduras nacionalistas e pela radicalização de interesses num contexto de crise econômica. Se por meio da literatura os românticos idealizaram o passado com vistas à formação de uma "identidade nacional", Mário de Andrade também idealizou nossa "identidade" quando escolheu pontos específicos do país onde foi buscar matrizes. Pode ser - e não duvido muito - que a pesquisa abarcasse o Sul e mesmo o Sudeste do país, mas, de qualquer forma, previa a exclusão da cultura de massa urbana que sem nenhuma dúvida derivava das mesmas manifestações pelas quais ele tinha interesse. A razão de sua exclusão é sócio-cultural e se justifica por um purismo musicológico que me parece muitas vezes ingênuo.

Tenho encontrado ultimamente um número cada vez maior de pessoas que critica o pagode e o funk carioca com o olhar superior do gosto refinado da classe média urbana escolarizada. Estou sendo irônico. Nunca achei que a classe média tivesse bom gosto. E imagino que, somando-se ainda o componente étnico que diferenciava as classes sociais do Brasil de maneira ainda mais escancarada nos primeiros decênios após o fim da escravidão, Mário não viveu num ambiente muito diferente dessa classe média que sei já existir em sua época. Talvez sem perceber, sua pesquisa refletiu a grande distância que, por exemplo, uma sambista como Aracy de Almeida ou Carmen Miranda tinham em relação a esta cultura "genuína".

Por isso, muitas das músicas que coloquei neste post servem para vos fazer pensar. Quem conhece e gosta das gravações dos primórdios da Casa Edison vai se espantar com algumas coisas que postei aqui, dada a semelhança. Não apenas nos gêneros (modinha, samba) como também nas letras e nos instrumentos utilizados. Uma dica: experimente cantar "Pelo telephone" sob o ritmo de "Dentro do Juruna os contrários não entram" para saber o que eu quero dizer.

A grandeza da pesquisa de Mário, preciso escrever isso antes que alguém pense mal, está na preservação de um tipo de repertório que não chegou - ou chegou diferentemente - aos discos comerciais dos anos 30. Mas ressalto aqui que, para a geração que sequer viu um 78 rpm nas lojas de discos, tanto o que Mário negou quanto aquilo que ele recolheu na Missão de Pesquisas Folclóricas é material de inestimável valor. E ainda por cima desconhecido por um monte de pessoas que escolheu como melhor apenas aquilo que ouve.

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Membros da Missão de Pesquisas Folclóricas a caminho do Brejo dos Padres, mar. 1938. Foto de Antonio Ladeira e Luis Saia