domingo, 18 de outubro de 2009

Vinícius de Moraes - Água de Beber / Lamento no Morro


Vinícius de Moraes cantando em 78 rotações por minuto? Pois é, vamos lá!

Trecho de entrevista concedida por Vinícius a Clarice Lispector:

"Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto"




Como compositor, a história de Vinícius remonta a tempos antigos. Em 1928, compõe com Haroldo Tapajós, o fox "Loura ou Morena", que ganharia registro só em 1932, pelas vozes de Haroldo e Paulo Tapajós - os "Irmãos Tapajós". Ainda com Haroldo, Vinícius comporia "Doce Ilusão", "O Beijo que Você Nunca Quis Dar", "Canção da Noite", Namorado da Lua", "Nosso Amor de Criança" entre outros. Curiosamente, todas essas músicas citadas são foxes. Engraçado é como isso iria desaguar, anos depois, num grande compositor de sambas!

Da sua parte letrista, a coisa era até natural, dada a sua grande intimidade com a palavra escrita. Muito embora essas primeiras composições ele mesmo considerasse apenas brincadeira de garoto. Como cantor, porém, algum tempo ainda teria que esperar. Em 1955, instalado no Brasil após muitos anos exercendo pelo mundo suas atividades de diplomata, apresenta-se esporadicamente na TV carioca cantando suas composições.

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O Globo (RJ)
26-11-55

Coluna - "Nós os Ouvintes" - do Ouvinte Desconhecido

João Condé apresentou na terça feira última, na TV Tupi, mais um programa da série "Arquivos Implacáveis", desta vez entrevistanto o poeta Vinícius de Moares. Vinícius cantou (mal e desafinado) ao violão, o samba de sua autoria "Medo de Amar".

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Em 1956, chegou inclusive a receber um convite de Paulo Serrano para gravar suas canções num LP de 10" pela grvadora Sinter. A idéia não vingou e o disco teve que esperar um pouco mais para receber o Vinícius cantor. E isso aconteceria em 1960.

Em 1960, a gravadora Philips lança o LP "Bossa Nova Mesmo" sob a supervisão de Aloysio de Oliveira e Júlio Hungria. Certamente, um dos dois se lembraram de suas aventuras pela televisão e acharam boa idéia chama-lo para cantar, até para empregar prestígio a esta empreitada, que contava com vários ainda amadores. Mas Vinícius, boa praça que sempre foi, adorava cantar e interagir com essa nova turma. Suas criações com Antônio Carlos Jobim vinham sendo amplamente divulgadas pelos cantores identificadas com o samba moderno, ou a Bossa Nova. "Chega de Saudade", "A Felicidade", "Eu Sei Que Vou te Amar", "Brigas, Nunca Mais" entre tantas outras já eram sucesso. No disco, além de Sylvinha Telles, Lúcio ALves, Laís Barreto, Carlos Lyra e Conjunto do Oscar Casro Neves, Vinícius debuta como cantor, interpretando "Pela Luz dos Olhos Teus" da forma original como foi concebida, em tempo de samba.



Infelizmente, este 78 RPM que apresentamos é constantemente ignorado de sua discografia. Gravado em dezembro de 1960 e lançado em janeiro de 61, trata-se do primeiro e único registro do poeta destinado às festas de Momo. As canções escolhidas foram "Água de Beber" e "Lamento no Morro" e tornariam-se clássicos da Bossa Nova. A marcação pra lá de batucada, o coro estridente e as estratégicas pratadas não deixam dúvidas. Talvez, se o vocalista fosse outro, nem teria porquê esssa estranheza. Mas que é diferente, ah isso é! E como bônus, vai ainda a citada "Pela Luz dos Olhos Teus" extraída do referido LP.