quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

The "voodoo variety" folk songs singer Elsie Houston

Da direita para a esquerda: Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Peret, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira e Maximilien Gauthier desembarcam no Rio após viagem a Paris. Foto de 1929.

Um canadense, certa vez ouvindo um CD de sopranos da primeira metade do século passado, se impressionou com uma cantora brasileira, Elsie Houston (1903-1943), cujo repertório distava bastante dos outros sopranos que integravam o CD. Decidiu pesquisar sobre a vida dela e reconstruiu-a de trás para frente, começando da morte. Levantou sua discografia e montou um site dedicado à cantora, o mais completo que já vi sobre uma cantora brasileira fora do Brasil.



Quanto a mim, chamou-me a atenção o epíteto de Elsie Houston numa crítica a uma apresentação sua, publicada na Time Magazine em outubro de 1940: "vodoo variety" folk songs singer. Verdade seja dita, a par de musa de Villa-Lobos (gravou sua Bachiana Brasileira n.º 1 em 1941, por indicação do compositor), seu repertório é constituido basicamente de jóias musicais escolhidas a dedo, oriundas do que há de mais folclórico dentro da música de raiz brasileira/africana. Seu repertório é ao mesmo tempo erudito e popular, tem valor de pesquisa etnomusical.






Desde 1922, Elsie Houston teve contato não apenas com os maiores compositores de música erudita no Brasil de então (Villa-Lobos, Hekel Tavares, Camargo Guarnieri, Luciano Gallet), como também com a produção erudita de um tipo de repertório que trazia para o erudito as canções folclóricas nacionais, ao modelo do trabalho de Béla Bartók e Zoltán Kodaly. Na Europa, Elsie foi aluna de Lilli Lehman e, em Buenos Aires (onde começou sua carreira), de Ninon-Vallin e de Béclart d'Harcourt, ambas interessadas em movimentos de vanguarda da música erudita contemporânea. Casou-se com o poeta francês Benjamin Péret em 1929 e, de volta ao Brasil a pedido do esposo, que se dedicava à pesquisa de rituais religiosos africanos, especialmente o candomblé, reafirmou seu vínculo com a geração de 1922. Depois da separação do casal, em 1935, entre idas e vindas da Europa, Elsie se estabelece definitivamente em Nova Iorque, onde faleceu.


Mário de Andrade destacou, no Congresso de Língua Nacional Cantada (1937), as principais características da voz de Elsie: limpeza da emissão da voz, timbre perfeito, boa entonação e nasalização. Soma-se a isso o seu papel de divulgadora da música brasileira em conferências e recitais em Paris (1933), nos Eua (Carnigie Hall, 1936), em seu programa semanal na Rádio NBC de Nova Iorque, no estádio Watergate (Washington, 1941), no Teatro Muncipal de São Paulo...

De seu repertório, o Chiadofone lhes presenteia com quatro raríssimas gravações francesas (num total de três 78 rpm) datadas de 1933. Além disso, apresenta outras gravações das mesmas músicas realizadas no Brasil para comparação.








Texto: Charles Bonares
Acervo e digitalização: Djalma

5 comentários:

RG disse...

Nao a conhecia. Que boa hein! Obrigado!

alessa disse...

lindíssimo!

http://www.itubainaradioretro.com.br/

Obaldino disse...

Elsie,Elsie, Elsie! Conheci a cantora quando soube que um dos poetas de minha predileção, Benjamin Péret, foi casado com ela. Até então eu fazia meu t.c.c. sobre o Surrealismo no Brasil. Qualquer coisa surreal ela deve ter, pensei.
Depois de pequisas que se arrastaram a curtos passos encontrei enfim algumas músicas, no myspace, e agora mais algumas aqui, em bom tempo (que trabalho belíssimo o de vocês). E que achado! Emociona, mesmo.
"Saudades da bahia", "Morena cor de canela" e, principalmente, "Sabiá da mata", fizeram-me então perceber que as palavras são instrumentos musicais na voz indelével da "minha musa do voodoo".
Elsie, Elsie, Elsie, como é bela!

Gabriel Gonzaga disse...

Olá, Obaldino! É muito gratificante ver que nossos trabalho, essa abertura (ou reabertura) dos caminhos da nossa boa música, está refletindo tão positivamente! Elsie, segundo definição do grande Waldemar Henrique, é a prórpia declamadadora que canta!
Obrigado e grande abraço!

euricodarocha disse...

Graças ao Arquivo do Nirez,descobri essa pérola,meus parabéns pelo nível de trabalho,muito tempo que não me defrontava com tão interessante artista,para mim,o "Elo perdido do Manifesto Antropofágico",.E salve Elsie.