sábado, 27 de março de 2010

Passarinho bateu azas [sic] (1928; 1940)

Um dos temas de que pretendo tratar em 2010 é do surgimento da indústria cultural no Brasil, que, a meu ver, segue uma dinâmica bastante diferente daquela que ocorreu em países altamente industrializados da Europa e nos EUA.

De fato, se a chegada de grandes companhias de discos implementou no Brasil uma dinâmica de produção com a urgência do retorno certo em forma de lucro líquido sobre um produto, de outro lado o teor das gravações aponta para a manutenção de práticas conservadoras, em parte devidas à alta concentração da população brasileira em áreas rurais.

Alfredo Bosi analisa essa contradição em se tratando da cultura da cidade versus cultura do campo na célebre introdução do livro "Cultura Brasileira: temas e situações" . Lá, a cultura rural, relacionada ao ciclo das estações, se contrapõe à cultura urbana, movida pela velocidade, que coexistem no mesmo espaço e de certa forma se aglutinam. Para mim, a produção discográfica brasileira da primeira metade do seculo XX já flagra essa contradição.



O primeiro de vários exemplos são as gravações apresentadas nesse post. Trata-se de "Passarinho bateu azas" [sic], cuja origem desconheço, mas que foi gravada três vezes.



Se da primeira gravação há indícios de ter sido sucesso em 1928, presentes no mau estado da conservação de todos os exemplares do disco encontrados pelo Djalma e na menção a essa música em partituras daquele ano, é certo que as regravações da música apresentam um caráter evidente de resgate. Tanto a primeira, de Almirante, quanto a segunda, de Zé da Zilda (ambas de 1940) fazem parte de um contexto de recuperação de arquivos sonoros tidos já naquela época como folclóricos, porque pertencentes a uma tradição distinta daquela dos grandes centros urbanos.



Em breve, retomarei a discussão com sambas dos idos da década de 1930. Esse texto é apenas a introdução ao assunto.


Acervo Djalma MC

Francisco Alves acomp. de dois violões - Passarinho bateu azas (E. dos Santos "Donga", Odeon 10160-A)
Almirante acomp. Conjuncto Odeon - Passarinho bateu aza (batuque - motivo popular; E. dos Santos "Donga", Odeon 11875-A)
[Zé da Zilda] Regionale Orchestra - Passarinho baleu [sic] asa (zamba [sic] with vocal ensemble, Donga, Columbia 36508, Native Brazilian Music, vol II, album C-84)

terça-feira, 9 de março de 2010

Carnavais brasileiros - ano de 1952

Virgínia Lane fazendo pose de peixão em foto para divulgação.

1952 foi possivelmente a primeira vez em que os grandes sucessos de um carnaval foram depurados pela indústria de discos e pelo rádio antes de serem consagrados pelo povo. Isso significa que a indústria brasileira do entretenimento se refinava, escolhendo temas e padrões para a diversão na folia do começo do ano. Não por acaso, esse carnaval foi dominado pelas raínhas do rádio e pelas músicas cujos temas giravam ora em redor da pobreza, ora em redor do amor que não durou, dois dos mais importantes - e rentáveis - temas da música de então.






Outra característica importante desse carnaval foi a presença maciça de marchas em vez dos sambas, caso demonstrado pelos estrondosos sucessos "Lata d'água" e "Mundo de zinco", que fazem parte da seleção de gravações oferecidas pelo Chiadofone. Mas uma das importantes marchas desse ano foi "Sassaricando", responsável pela mudança do sentido de um verbo ingênuo e mesmo poético para qualquer tipo de ação marota ou ousada, porque fazia parte da revista "Eu quero sassaricá", estrelada pela vedete (e sua intérprete no disco) Virgínia Lane. Ganhou até uma novela nos anos 1980.





Pessoalmente, eu cantaria a plenos pulmões a marchinha "Maria Candelária", que me parece um retrato muito atual do que anda acontecendo em Brasília. Mas não apenas lá...





Finalmente, é o último carnaval do Rei (o único!) Francisco Alves. "Confete", pedacinho colorido de saudade, se transformou no grande símbolo do amor que o Brasil alimentou pelo nosso cantor maior.







Como se vê, a seleção de sucessos do carnaval de 1952 é, na verdade, uma breve introdução ao que houve de mais importante e de significativo dentro nossa música popular brasileira.




"Estrela do mar" (Marino Pinto - Paulo Soledade) com Dalva de Oliveira e a Escola de Samba Império Serrano, do filme "Tudo azul", de Moacyr Fenelon, Flama Produtora Cinematográfica Ltda / Cinedistri, 1952.


01 - Dalva de Oliveira - ESTRELA DO MAR (marcha de Marino Pinto - Paulo Soledade, Odeon 13210a, grav. 25.10.1951, lanç. janeiro/1952)
02 - Dalva de Oliveira - BÔA NOITE (marcha de Fernando Lobo - Manezinho Araujo, Odeon 13210b, grav. 08.11.1951, lanç. janeiro/1952)
03 - Francisco Alves - CONFETTI (marcha de David Nasser - Jóta Junior, Odeon 13211a, grav. 09.11.1951, lanç. janeiro/1952)
04 - Francisco Alves - TODO MUNDO CHORA (samba de Francisco Alves - David Nasser - J. Roy, Odeon 13211b, grav. 09.11.1951, lanç. janeiro/1952)
05 - Hebe Camargo - VOCÊ QUER VOLTAR (samba de Francisco Alves - J. Roy - Monello, Odeon 13223a, grav. 10.09.1951, lanç. janeiro/1952)
06 - Hebe Camargo - EU VOU DE TOUCA (marcha de Denis Brean - Blota Junior, Odeon 13223b, grav. 10.09.1951, lanç. janeiro/1952)
07 - Francisco Alves - MACACO QUER BANANA (marcha de Haroldo Lobo - David Nasser, Odeon 13224a, grav. 19.10.1951, lanç. janeiro/1952)
08 - Francisco Alves - P'RA QUE SOFRER (samba de Francisco Alves - José Roy, Odeon 13224b, grav. 19.10.1951, lanç. janeiro/1952)
09 - Dalva de Oliveira - SI AMOR TEM RAIZ (samba de Marino Pinto - Paulo Soledade, Odeon 13227a, grav. 25.10.1951, lanç. janeiro/1952)
10 - Dalva de Oliveira - EU SOU EXÚ (marcha de Paquito - Romeu Gentil, Odeon 13227b, grav. 25.10.1951, lanç. janeiro/1952)
11 - Ruy Rey Com Sua Orquestra - RABO DE PEIXE (marcha de Roberto Martins - Ary Monteiro, Continental 16496b, lanç. janeiro/1952)
12 - Jorge Goulart Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajara - MUNDO DE ZINCO (samba de Nássara - Wilson Baptista, Continental 16497b, grav. 22.10.1951, lanç. janeiro/1952)
13 - Jorge Goulart - SANSÃO E DALILA (marcha de João de Barro - Antonio Almeida, Continental 16500a, lanç. janeiro/1952)
14 - Jorge Goulart - ATÉ JESUS (samba de Ataulfo Alves - Wilson Baptista, Continental 16500b, grav. 22.10.1951, lanç. janeiro/1952)
15 - Black-Out Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - MARIA CANDELÁRIA (marcha de Klécius Caldas - Armando Cavalcante, Continental 16502a, lanç. janeiro/1952)
16 - Emilinha Borba Com Vero E Sua Orquestra - NOSSO AMOR (samba de Zé - Zilda, Continental 16503b, lanç. janeiro/1952)
17 - Vagalumes do Luar Com Nelson Miranda E Seu Conjunto - CUIDADO LILI (marcha de Moacyr Braga - José Saccomani, Continental 16504a, grav. 29.09.1951, lanç. janeiro/1952)
18 - Helio Sindô Com Nelson Miranda E Seu Conjunto - CACHÔPA DE BRANCO (marcha de Jucata, Continental 16505a, grav. 29.09.1951, lanç. janeiro/1952)
19 - Helio Sindô Com Nelson Miranda E Seu Conjunto - DESAPARECEU (samba de Antonio Rago - Helio Sindô, Continental 16505b, grav. 29.09.1951, lanç. janeiro/1952)
20 - Marlene Com Vero E Sua Orquestra - LATA D'AGUA (samba de Luiz Antonio - Jota Junior, Continental 16509a, grav. 25.10.1951, lanç. janeiro/1952)
21 - Marlene Com Vero E Sua Orquestra - SEREIA DA AREIA (marcha de João de Barro - Antonio Almeida - Nássara, Continental 16509b, lanç. janeiro/1952)
22 - Marlene Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - AQUELE AMOR (samba de Geraldo Pereira - Arnaldo Passos, Continental 16513a, grav. 05.11.1951, lanç. janeiro/1952)
23 - Marlene Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - EVA (marcha de Haroldo Lobo - Milton de Oliveira, Continental 16513b, grav. 05.11.1951, lanç. janeiro/1952)
24 - Emilinha Borba Com Severino Araujo E Sua Orquestra Tabajára - FÓRA DO SAMBA (samba de Peterpan - Amadeu Veloso - Paulo Gesta, Continental 16514a, lanç. janeiro/1952)
25 - Emilinha Borba Com Vero E Sua Orquestra - NEM DE VELA ACESA (marcha de Paquito - Romeu Gentil, Continental 16514b, lanç. janeiro/1952)
26 - Virginia Lane Com Astor E Seu Conjunto - SASSARICANDO (marcha de Zé Mario - O. Magalhães - Luiz Antonio, Todamérica 5121b, grav. 03.10.1951, lanç. novembro/1951)
27 - Torres & Florêncio [Raul Torres] Com Nelson Miranda E Seu Conjunto - A SANFONA DA VÉIA (marcha de Henriquinho - Brioso, lanç. dezembro/1951)
28 - Orlando Silva com Conjunto Star - VAGABUNDO (samba de Mário Amorim - Evaldo Rui, Star 317a, lanç. dezembro/1951)
29 - Demônios da Garôa - MALVINA (samba de Adoniran Barbosa, Elite Special N-1065a, lanç. janeiro/1952)
30 - Demônios da Garôa - PLOC-PLOC DA VASSOURA (marcha de Juracy Rago - Odair Magno, Elite Special N-1065b, lanç. janeiro/1952)
31 - Linda Baptista - ME DEIXE EM PAZ (samba de Monsueto C. Menezes - Ayrton Amorim, RCA Victor 80-0825a, grav. 06.08.1951, lanç. outubro/1951)
32 - Linda Baptista - AMOR PASSAGEIRO (samba de Zequéti - Jorge Abdalla, RCA Victor 80-0825b, grav. 06.08.1951, lanç. outubro/1951)
33 - Carlos Galhardo - DEUS ME AJUDE (samba de Francisco Alves - David Nasser - José Roy, RCA Victor 80-0828a, grav. 08.08.1951, lanç. outubro/1951)
34 - Carlos Galhardo - VIVER FELIZ (samba de Francisco Alves - David Nasser - José Roy, RCA Victor 80-0828b, grav. 08.08.1951, lanç. outubro/1951)
35 - Francisco Carlos - ANA MARIA (samba de Luiz Soberano - Anisio Bichara, RCA Victor 80-0842a, grav. 31.08.1951, lanç. novembro/1951)
36 - Carlos Galhardo - GIRASSOL (marcha de Haroldo Lobo - Milton de Oliveira - Wilson Frade, RCA Victor 80-0844a, grav. 06.09.1951, lanç. novembro/1951)
37 - Gilberto Alves - MEU FRACASSO É SONHAR (samba de Roberto Martins - Alberto Rego, RCA Victor 80-0845b, grav. 27.08.1951, lanç. novembro/1951)
38 - Nelson Gonçalves - NEM O CHOPE (marcha de Herivelto Martins - Benedicto Lacerda, RCA Victor 80-0848a, grav. 11.09.1951, lanç. novembro/1951)
39 - Nelson Gonçalves - PERAMBULANDO (samba de Haroldo Lobo - Manesinho Araújo, RCA Victor 80-0848b, grav. 29.08.1951, lanç. novembro/1951)
40 - Nelson Gonçalves - DESPREZADO (samba de Nobrega de Macedo - Jair Gonçalves, RCA Victor 80-0855b, grav. 29.08.1951, lanç. dezembro/1951)
41 - 4 Ases e 1 Coringa - APANHADOR DE PAPEL (marcha de Peterpan - Affonso Teixeira, RCA Victor 80-0863a, grav. 25.09.1951, lanç. dezembro/1951)
42 - 4 Ases e 1 Coringa - VAI, SAUDADE... (samba de Sérgio Falcão - José Roy, grav. 17.09.1951, lanç. dezembro/1951)
43 - Linda Baptista - ELA É DE MORTE (marcha de Romeu Gentil - Paquito, grav. 18.09.1951, lanç. dezembro/1951)
44 - Isaura Garcia - É FOGO NA ROUPA (marcha de Haroldo Lobo - Milton de Oliveira, grav. 24.09.1951, lanç. dezembro/1951)

Texto e pesquisa: Charles Bonares
Acervo e digitalização: Djalma

sexta-feira, 5 de março de 2010

Maria Regina - A Música do Papai / Oh! Carol

Depois que Braguinha enxergou um filão nas crianças e na música infantil, a música brasileira nunca mais foi a mesma. As crianças podem não ter dominado o mundo, como se temia, mas na nossa fonografia, elas conquistaram seu espaço. E nessa de brincar dos estúdios para dentro, muitas entraram na roda, mas apenas uma mereceu o título máximo: a Menor Cantora do mundo!


Em 1960, o grande maestro Hervé Cordovil, já uma glória da nossa história musical; parceiro, entre outros, de Noel Rosa e responsável por grandes orquestrações levadas ao ar pela Rádio e TV Record, assistia satisfeito o sucesso de seu filho Ronald, o Ronnie Cord. Com o faro típico de quem convivia com o meio artístico há mais de 30 anos, direcionava a carreira do garoto e escrevia versões para os sucessos americanos do momento. E esse faro, certo dia, voltou-se para um anjinho loiro e de olhos verdes que cantava as músicas da parada e corria pela casa. Era sua filha Maria Regina, que contava 3 aninhos. Os programas infantis de rádio e TV faziam enorme sucesso na época e lá foi a garotinha roubar a cena, sendo, por diversas, vezes noticiada na imprensa escrita. Desinibida e bastante afinada para a idade, um disco seria um tiro certo, mas... como fazê-lo?

Capa de seu primeiro LP "A Menor Cantora do Mundo

Simples! Hervé era diretor artístico do ramal paulistano da Copacabana Discos. Mesmo que assim não fosse, talentosa como era e ainda de descendência tão ilustre, pelo menos uma audição-teste já era garantida. Mas, justamente para evitar a inevitável fala maldosa que viria pela frente, Maria Regina foi levada para a RCA Victor e o contrato, assinado assim que perceberam que o papel não sairia pela Copacabana. E o papai em questão sabia onde pisava. Certamente identificara que, fora algumas iniciativas e lançamentos esparsos, o Brasil ainda não tinha um ídolo mirim; o forte dos discos para crianças ainda eram as histórias e canções de datas comemorativas - cantadas por gente grande. Celly Campelo e Sônia Delfino não estavam na conta, pois seu público alvo eram os adolescentes e pré-adolescentes. Não tinha como errar!

E como acertou! Para seu primeiro 78, escolheu uma daquelas típicas valsinhas, "A Música do Papai" (uma singela homenagem a ele mesmo), e a grande surpresa: "Oh, Carol!", cantada em inglês, com direto até àquela declamação no instrumental de passagem! Para os padrões da época, "Oh, Carol!" já era considerada uma música antiga. Lançada em 1959, ganhara mais de uma dezena de gravações só no Brasil e, naquele 1961, portanto, já contava com bons dois anos nas costas. E olha que 1 ano de vida para uma música já era uma eternidade! Poxa, mas quem não iria comprar um disco de uma menina de 3 anos de idade cantando em inglês!?

Os arranjos ficaram a cargo do extremamente competente maestro Francisco (Chico) de Moraes, que também fugiu do convencional. Seu arranjo não utilizou celeste, sininhos ou qualquer outro instrumento que poderia deixar a música com "cara de música infantil"; pelo contrário, utilizou muitas cordas e um grande coro misto. Resultado: um intrumental de respeito, digno de qualquer grande cantor, podendo-se dizer até que aqui está uma das melhores gravações deste grande sucesso de Neil Sedaka.



O talento da menina e a produção cuidadosa do pai coruja fizeram deste disco um grande sucesso. Em pouco mais de um ano, foram lançados mais 3 78's e um LP, todos com boas vendagens. Em 1964, Maria Regina ainda gravaria mais um LP para depois... Bem, crescer e brincar! Ah, mas sua carreira não terminou sem antes entregar ao público um daqueles sucessos eternos, que falam diretamente à nossa memória afetiva: "Carta ao Papai Noel", marcha do papai Hervé Cordovil, lançada no seu primeiro LP, que também disponibilizamos aqui. Eu, que estava na pré-escola por volta de 1993-94, ou seja, bem depois do lançamento da música, lembro perfeitamente dela tocando nas festinhas de final de ano.

Ah, será que o Ronnie ganhou o seu Volkswagen? =]